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Pesquisa na quarentena

“Eu me preocupo com os Palikur da mesma forma que me preocupo com minha família”

Com a chegada da pandemia, a antropóloga Artionka Capiberibe teve de adiar o estágio de pesquisa que faria nos Estados Unidos

Artionka Capibaribe na biblioteca de sua casa em Campinas

Gustavo Rossi

Entre nós, ocorre uma separação marcada entre o trabalho e a vida pessoal. Com a pandemia, passamos a viver um momento no qual essas duas dimensões estão misturadas. Meu trabalho passou a ser desenvolvido totalmente no espaço doméstico. Antes da pandemia, eu não me ocupava de uma parte das tarefas da casa, porque tinha uma diarista que vinha uma vez por semana e resolvia. Também comia muito fora de casa. Agora, todo mundo da casa teve de assumir o trabalho doméstico.

Com isso, temos a falsa sensação de que estamos trabalhando menos, mas isso tem a ver com uma valorização excessiva das tarefas intelectuais. É como se o trabalho físico não fosse considerado exatamente trabalho. Eu costumava dedicar em média 12 horas por dia ao trabalho e, algumas vezes, seguia trabalhando nos finais de semana. Mesmo assim, tinha a sensação de que sempre estava devendo algo. Agora já não posso fazer isso, porque é preciso fazer a faxina da casa, lavar roupa, preparar o que vamos comer. Junto com isso, também mantenho a rotina acadêmica e acompanho a situação apavorante enfrentada pelos povos indígenas com a pandemia. Aqui, novamente, as duas dimensões se misturam. O que acontece com os indígenas me afeta no lado pessoal. 

Tem gente que diz que vamos sair dessa pandemia melhores e mais solidários. Isso é o que eu espero. Mas, para isso, acho que precisamos reelaborar muitas atitudes na nossa vida, uma delas é essa ideia que temos do trabalho, algo que tem a ver com as desigualdades sociais no Brasil. Por que o trabalho intelectual é mais valorizado do que o do operário ou o do empregado doméstico? Para alguns tipos de trabalho braçal nem mesmo aplicamos o nome de profissão, o que é um absurdo, pois eles exigem o domínio de técnicas e de certa ciência. 

O antropólogo norte-americano Roy Wagner [1938-2018] no livro A invenção da cultura, de 1975, explicita a diferença que criamos entre essas duas dimensões como uma diferença sobre criatividade, porque nós entendemos o trabalho como o lugar da criatividade. Não é assim que pensam e agem outros povos. Para os melanésios, entre os quais ele fez a pesquisa, a criatividade envolve a capacidade de estabelecer relações pessoais. Para muitas populações, alguém que dedique a vida ao trabalho, sem ter cônjuge, família, filhos, é digno de pena e não de admiração. Tenho pensado bastante sobre isso. É estranho, inclusive, falar da minha vida pessoal em uma entrevista, mas o aspecto doméstico é inescapável nesse momento. 

No plano profissional, a pandemia me agarrou pelo pé. Tinha conseguido um afastamento da Unicamp para realizar um estágio de pesquisa na Universidade de Berkeley, na Califórnia, Estados Unidos, por seis meses. Desenvolveria mais um aspecto das minhas pesquisas feitas entre os Palikur, povo que vive na região da fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, no extremo norte do Amapá. Iria investigar a intervenção da fronteira na vida dessa população que, há séculos, transita livremente de um lado para o outro. Em 1900, com o estabelecimento dos limites e a instalação de dois Estados-nação – a Guiana é um departamento francês fora do continente europeu –, eles passaram a ter de requisitar passaporte e vistos, para poder realizar esse movimento. No pós-doutorado em Berkeley, o objetivo era compreender melhor esse contexto de fronteira a partir de um paralelo com os povos indígenas que estão na fronteira entre o México e os Estados Unidos. 

No dia 12 de março, estava agendando a entrevista no consulado norte-americano para obter o visto quando vi que os Estados Unidos acabavam de proibir voos provenientes de alguns países. Pensei: o gato subiu no telhado. Alguns dias depois, a Unicamp publicou uma resolução suspendendo as atividades presenciais no campus e as viagens de docentes e servidores. Reconheço que a instituição foi pioneira ao tomar providências para conter a pandemia. Mas fiquei desnorteada, porque já estava com tudo planejado, buscando onde me alojar e me preparando para permanecer por seis meses dedicada exclusivamente à minha pesquisa. Muita gente acha que professor universitário só dá aulas, quando na verdade nosso trabalho vai além disso. Realizamos pesquisas próprias, orientamos pesquisas de estudantes em diferentes níveis de formação, temos trabalho administrativo dentro das nossas instituições, lemos trabalhos de outras pessoas para elaborar pareceres para revistas e instituições de fomento, para participar de bancas, entre outras coisas.

Meus pais moram no Amapá e, com a chegada da pandemia, foram para o apartamento da minha irmã em Brasília, para ficar mais resguardados. Eu moro com meu marido e filho em Campinas. Meu filho também teve seu pé agarrado, porque tinha acabado de entrar no curso de Ciência da Computação na Universidade Federal de São Carlos [UFSCar]. Ele mal assistiu a uma aula e logo teve de voltar para Campinas. Mas sei que somos privilegiados nessa situação de isolamento social, porque podemos ficar em casa. 

De março para cá, as formas de lidar com a quarentena foram variando. No começo, tentei realizar parte da pesquisa que faria em Berkeley aqui. Mas não é a mesma coisa. Além de não estar no ambiente com os recursos necessários para a pesquisa, o mundo estava desabando e eu não consegui seguir como se nada estivesse acontecendo. Perdi familiares para a Covid-19 e me agoniava com os números crescentes de mortes entre os indígenas. Comecei, então, a acompanhar mais de perto a situação dos povos indígenas no país, as mortes causadas pela omissão do Estado em relação a essas populações e o significado de perda dessas mortes. Voltei a ler meus cadernos de campo, porque me dei conta de que muito do que tenho neles veio de interlocutores já falecidos, porque eram senhores mais velhos. Os Palikur falavam várias línguas; com a morte dos anciãos, a maioria dessas línguas desapareceu. É isso que está acontecendo com a pandemia, são principalmente as anciãs e anciãos que estão morrendo e com eles morre um conhecimento que é insubstituível.

Por outro lado, me mantive na Comissão de Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas [IFCH] da Unicamp tentando colaborar no debate sobre as melhores formas de prosseguir com as atividades letivas, no primeiro semestre. As medidas foram sendo tomadas conforme as mudanças na situação da epidemia. Isso é algo inusitado, pois costumamos planejar o conteúdo das aulas e o processo de avaliação com muita antecedência. Diante da nova situação, tivemos de manter um diálogo constante com os estudantes para ajudá-los a lidar com os problemas de várias ordens, sofrimento psicológico, acesso precário a computadores e à internet. Também passamos a discutir as dificuldades envolvendo a transposição das aulas presenciais para o meio virtual. Está sendo um semestre muito difícil.

Sobre as populações indígenas, com a chegada da pandemia, tudo piorou. Desde que comecei minhas pesquisas na região do Oiapoque, em meados dos anos 1990, apenas uma única vez vi médicos atendendo nas aldeias, todos cubanos ligados ao programa Mais Médicos. Com o fim do convênio com Cuba, não há mais médicos por lá. As populações indígenas enfrentam a pandemia numa situação de extrema fragilidade epidemiológica. Essa fragilidade tem a ver com uma falta de barreira imunológica, mas também com a falta de infraestrutura de saúde; de material humano; com as dificuldades de deslocamento das aldeias para os hospitais, por conta da falta de transporte e das longas distâncias; com a recusa do governo federal em atender dentro do subsistema de saúde indígena os que vivem em contexto urbano. 

Por conta disso, o movimento indígena passou a agir. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem produzido material informativo sobre a doença em linguagem acessível, lançou, em julho, um plano de enfrentamento da pandemia e ingressou com uma ação no Supremo para obrigar o governo a cumprir seu dever. No Congresso Nacional foi aprovado o Projeto de Lei nº 1142/2020 para garantir medidas de proteção social e prevenção ao contágio, como o acesso à água potável, a equipamentos de proteção individual, a respiradores, garantir a segurança alimentar, facilitar o acesso ao auxílio emergencial, entre outras coisas. O governo vetou vários desses pontos. 

A partir do momento em que a Covid-19 chegou nas aldeias, passou a ser necessário tomar cuidados de prevenção, fazendo o isolamento social, a higienização das mãos e o uso de máscaras. Com isso, os hábitos de visitar parentes, compartilhar comida e enterrar os mortos da forma tradicional estão sofrendo impactos. Esses são dramas que acontecem com muitas populações. Venho acompanhando essas situações, tentando ajudar com a divulgação do que está acontecendo e de doações para compra de medicamentos, alimentos, testes, máscaras. Eu me preocupo com os Palikur da mesma forma que me preocupo com minha família, porque eles são parte da minha família. São essas preocupações que atravessam as dimensões pessoal e profissional. Tenho a sensação clara agora de que as duas estão misturadas e têm o mesmo valor.

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