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Extinção

Extinção e surgimento de espécies agem juntos na evolução

Estudo examina papel da deterioração do ambiente na diversidade biológica

A vicunha é um dos representantes vivos da família dos camelídeos

Ricardo ZorzettoA vicunha é um dos representantes vivos da família dos camelídeosRicardo Zorzetto

Quando se pensa em famílias de animais que deixaram de existir, a maior parte dos especialistas invoca a extinção de espécies. Mas tão importante quanto o desaparecimento é a taxa de surgimento, segundo o biólogo Tiago Quental, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). As conclusões são resultado de um estudo empírico e um modelo teórico que ele desenvolveu em conjunto com o paleontólogo Charles Marshall, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e acabam de ser publicadas no site da revista Science (20/6).

A dupla analisou informações de 19 famílias de mamíferos que existiram nos últimos 65 milhões de anos (Era Cenozoica), caracterizadas pela riqueza de registros fósseis, a partir de dados armazenados no banco público “Paleobiology Database”. Entre elas estão famílias que não deixaram descendentes e algumas que ainda persistem, embora com diversidade reduzida: dos cavalos, dos elefantes, dos camelos e das hienas.

O modelo é centrado no processo evolutivo batizado em homenagem à Rainha de Copas do país das maravilhas, que no clássico de Lewis Carroll disse à Alice que é preciso correr o máximo possível para ficar no mesmo lugar. Da mesma forma, espécies precisam constantemente se alterar para continuar a existir no ambiente em constante modificação, constantemente gerando diversidade.

“Mas as espécies às vezes perdem a corrida para a rainha vermelha”, diz Quental. Ao examinar os dados empíricos das 19 famílias, os dois pesquisadores se surpreenderam ao detectar que tão importante quanto a extinção, um processo natural, é a queda no surgimento de novos gêneros (a análise não foi detalhada ao nível de espécies). “É como se fosse uma esterilidade evolutiva, em que uma linhagem não é capaz de gerar novos gêneros para contrabalancear o efeito da extinção”, compara. Em sua avaliação, a diversidade do grupo não necessariamente sofreria um declínio se não houvesse uma diminuição na taxa de especiação, mesmo que as extinções seguissem seu curso natural.

As análises apontam também para uma tendência ao equilíbrio na diversidade biológica. “Mas a deterioração do ambiente às vezes passa por cima desse equilíbrio”, explica o pesquisador.

As mudanças ambientais analisadas no trabalho aconteceram ao longo dos milhões de anos. É possível, admite o professor da USP, que a deterioração acelerada causada hoje pela ação humana agrave o efeito na diversidade de animais, mas o modelo não permite afirmar isso.

O trabalho é o cerne do projeto que Quental desenvolve desde 2012 no âmbito do Programa Jovens Pesquisadores da FAPESP. Com o tempo de financiamento de que ainda dispõe, ele espera ter mais para contar nos próximos anos.

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