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Financiamento

FAPESP cria plano para ampliar equidade, diversidade e inclusão

Dois coordenadores vão organizar ações, como edital de bolsas de iniciação científica para alunos cotistas

Gerd Altmann / Pixabay

A Assessoria Científica da FAPESP passa a contar com uma nova Coordenação de Programa para assuntos relacionados a Equidade, Diversidade e Inclusão (EDI), aprovada pelo Conselho Técnico-Administrativo (CTA) em 17 de novembro. O plano de ação de EDI apresentado pelo Diretoria Científica prevê um conjunto de ações para ampliar a diversidade do rol de estudantes e cientistas financiados pela Fundação. O objetivo é aperfeiçoar processos internos e remover obstáculos, associados a gênero, etnia ou origem, que atrapalhem o desenvolvimento de pesquisadores talentosos e qualificados.

Ana Maria Fonseca de Almeida e Everardo Magalhães Carneiro, ambos pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), são os responsáveis pela nova coordenação. A dupla está incumbida de fazer uma revisão de procedimentos da Fundação a fim de avaliar onde estão eventuais gargalos para a participação e o progresso de mulheres, negros e representantes de minorias étnicas nos projetos apoiados pela FAPESP. “A ideia é fazer um diagnóstico, sempre em diálogo com a comunidade científica, e propor iniciativas para corrigir problemas”, diz Almeida, que é professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

No caso das mulheres, há o desafio de entender por que, apesar de sua crescente participação na comunidade científica, elas ainda são minoria em algumas disciplinas e têm dificuldade em ascender a posições de liderança em equipes de investigação. Já a presença de negros, pardos e indígenas em laboratórios e grupos de pesquisa está muito aquém de sua representação na sociedade e é necessário atraí-los em número maior para a carreira científica.

Uma das iniciativas previstas no plano de ação é o lançamento ainda em 2022 de um edital de bolsas de iniciação científica direcionadas a estudantes de graduação que foram admitidos em universidades por meio de ações afirmativas, como cotas. A intenção é deixar claro para esses alunos que a FAPESP valoriza a participação deles na pesquisa. “Se a gente aumentar a diversidade na ciência, contaremos com mais talentos”, diz Everardo Carneiro, professor do Instituto de Biologia da Unicamp. “Uma comunidade científica mais diversa é capaz de reunir experiências e pontos de vista diferentes e encontrar melhores soluções para problemas. Ampliar a participação de grupos historicamente excluídos é uma ferramenta para promover a excelência na pesquisa.”

Outra proposta que deverá ser implementada em breve é a exigência para que universidades e instituições a que estão vinculados os pesquisadores financiados pela FAPESP disponham de planos institucionais para promover os conceitos de EDI – a Fundação se dispõe a fornecer treinamento e orientação às instituições, a exemplo do que já faz em relação a suas políticas de integridade em pesquisa e em gestão de dados.

Os cientistas que submetem projetos à Fundação também serão estimulados a incluir categorias de diversidade – sexo, gênero, classe social, raça, entre outras – no desenho de suas pesquisas, sempre que isso for apropriado. A representação de alguns grupos na ciência básica, por exemplo, é apontada como uma importante fonte de vieses, com reflexos no desenvolvimento de produtos e medicamentos. Um estudo publicado em 2020 na revista The New England Journal of Medicine indicou que oxímetros, equipamentos que medem a saturação de oxigênio no sangue, são menos precisos em indivíduos com pele escura. Entre pacientes negros, foram quase três vezes mais frequentes os casos de saturação baixa não detectada por oxímetros de pulso do que entre pacientes brancos. Outro caso clássico foi o do desenvolvimento do cinto de segurança. Ele foi testado principalmente em modelos masculinos e apenas com seu uso corrente se constatou que representava um risco para mulheres grávidas, pois podia causar lesões em fetos que não estavam relacionados aos acidentes em que as usuárias se envolviam. Para além de diferenças biológicas ou genéticas, há particularidades relacionadas a gênero e etnia que têm origem nas condições de vida dos indivíduos e também precisam ser consideradas em estudos científicos. “A população negra está mais sujeita a barreiras estruturais e cotidianas que podem impedir o acesso a certos protocolos de diagnóstico e tratamento”, diz Almeida.

Também está previsto o lançamento de um edital para apoiar estudos sobre a força de trabalho em pesquisa no estado de São Paulo, em uma perspectiva que contemple equidade, diversidade e inclusão. “Investigações que levem em conta os efeitos de classe social, gênero e raça dos pesquisadores sobre o desenvolvimento das competências e carreiras serão especialmente úteis para apoiar medidas que contribuam para ampliar a participação na pesquisa e sua qualificação”, explica Almeida.

A criação do plano de ação seguiu-se a uma série de mudanças que a FAPESP implementou nos últimos três anos. O modelo de súmula curricular adotado pela Fundação, que precisa ser preenchido por pesquisadores quando apresentam solicitações de bolsas ou auxílios à pesquisa, passou a ter um campo em que os proponentes têm a chance de declarar eventuais interrupções na carreira decorrentes de licenças médicas – incluindo licença-maternidade ou paternidade – ou da necessidade de cuidar de terceiros, como familiares enfermos, portadores de deficiência ou idosos, ou ainda outras intercorrências que possam ter tido impacto sobre a carreira. Houve, também, um esforço para assegurar um maior equilíbrio entre homens e mulheres na análise dos pedidos de bolsas e auxílios submetidos à instituição. Desde 2019, o corpo de coordenadores adjuntos da Diretoria Científica da FAPESP passou a ter 14 homens e 12 mulheres.

A escolha de Almeida e Carneiro – uma mulher e um homem negro – como coordenadores de EDI não foi acidental. Segundo o pesquisador da Unicamp, dar visibilidade a representantes de grupos sub-representados é uma estratégia eficiente para gerar um ambiente mais acolhedor a pessoas de todas as origens. “Há um efeito importante no sentido de estabelecer novos modelos. Durante a pandemia, fui dar uma aula on-line para uma turma de medicina da Unicamp e, quando abri a câmera, ouvi um comentário de uma aluna que me marcou. Ela disse que era a primeira vez que entrava em uma aula e encontrava um negro como ela no papel de professor”, afirmou.

O plano de ação prevê, ainda, a continuidade da iniciativa Pesquisadores em risco, que incentiva instituições de pesquisa do estado de São Paulo a receber cientistas que vivem em zonas de conflito, como Ucrânia, Síria e Haiti, e faz parte dos esforços da Fundação para atrair talentos do exterior. “O ponto fundamental é o reconhecimento por parte da FAPESP da importância de promover a diversidade, a equidade e a inclusão na pesquisa do estado de São Paulo”, afirma Everardo Carneiro.

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