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Literatura

Ficção climática discute crise ambiental e novas formas de relação com a natureza

Autores brasileiros e estrangeiros tratam do impacto humano sobre o planeta

João Montanaro

De dezembro de 2018 a fevereiro de 2019, cerca de meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas na porção Centro-sul do Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul. Na ocasião, a notícia chamou a atenção da escritora gaúcha Natalia Borges Polesso, que, desde 2016, compilava reportagens sobre o aumento das liberações de novos agrotóxicos no país, uma das causas apontadas por especialistas para a mortandade dos insetos naquele período.

Mais tarde, em 2021, Polesso lançou A extinção das abelhas (Companhia das Letras), romance ambientado em um futuro próximo no qual o Brasil, sob o comando de um apresentador de televisão, enfrenta uma crise política e ambiental. Nesse contexto, as ruas são privatizadas, o trabalho se torna escasso e os insetos polinizadores não existem mais, comprometendo o equilíbrio dos ecossistemas. “Comecei a escrever o romance em 2016 e, aos poucos, a ideia do colapso da natureza foi se tornando central na narrativa”, afirma Polesso, professora da área de letras da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

A obra é apontada pela escritora Ana Rüsche como parte de uma leva recente da literatura brasileira que aborda os efeitos das mudanças climáticas e a responsabilidade humana diante das catástrofes ambientais. Há, inclusive, um rótulo para classificar essa produção: ficção climática, termo que começou a ser utilizado por volta de 2007 e cuja veiculação é creditada ao jornalista norte-americano Daniel Bloom.

Para Rüsche, no entanto, não se trata propriamente de um novo gênero. “Prefiro chamá-la de uma ‘espécie literária’, porque pode transitar por diferentes formas, como romance, poesia, conto e teatro”, comenta a autora, que concluiu, em 2024, um estágio de pós-doutorado na Facul­dade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) sobre ficção científica e mudança climática. A pesquisa resultou no livro Quimeras do agora – Literatura, ecologia e imaginação política no Antropoceno (Bandeirola, 2025).

Nos Estados Unidos, um dos principais nomes associados ao movimento é o escritor Kim Stanley Robinson, que iniciou a carreira literária na década de 1980 e é autor de obras como The ministry for the future (Orbit, 2020), romance ainda inédito no Brasil no qual descreve os esforços para enfrentar as mudanças climáticas após uma onda de calor devastadora na Índia. Seu primeiro livro publicado no país foi Nova York 2140 (Editora Planeta, 2019).

Antes mesmo da consolidação do termo ficção climática, Robinson e outros autores, sobretudo norte-americanos, já produziam narrativas atravessadas por preocupações ambientais, então enquadradas no campo da ficção científica. É o caso de A parábola do semeador, de Octavia Butler (1947-2006), publicado originalmente em 1993 e lançado no Brasil em 2018 pela editora Morro Branco, e de Floresta é o nome do mundo, romance de 1972 de Ursula K. Le Guin (1929-2018), que saiu no país em 2020 pela mesma casa editorial.

Algumas obras misturam distopia e utopia para imaginar outras formas de viver na Terra

De acordo com Rüsche, a pandemia de Covid-19, que eclodiu em 2020, contribuiu para ampliar o interesse de leitores e escritores por esse tipo de literatura no Brasil. “A crise sanitária mostrou na prática, em escala global, os perigos de descredibilizar as evidências científicas, inclusive as que alertam há décadas sobre as mudanças climáticas”, declara a pesquisadora, que atualmente leciona na Universidade de Brasília (UnB). “A questão climática é um tema contemporâneo, que mobiliza sobretudo os mais jovens. O mercado editorial sabe disso e, claro, vem investindo nesse tipo de produção.”

O resultado é que, nos últimos anos, livros de autores nacionais que dialogam com o imaginário da crise ambiental passaram a ocupar espaço nas livrarias brasileiras. Entre eles, figuram O deus das avencas (Companhia das Letras, 2021), de Daniel Galera, Água turva (Companhia das Letras, 2024), de Morgana Kretzmann, Ressuscitar mamutes (Autêntica, 2024), de Silvana Tavano, e Foi acabar bem na nossa vez (Rocco, 2025), de Mariana Brecht.

No entanto, essa temática não é exatamente nova na literatura brasileira, como observa o pesquisador George Amaral. Na tese “A forma do romance no Antropoceno: Mutações do realismo formal diante da crise ecológica”, defendida em 2024 na FFLCH-USP, ele analisa obras que chama de “ficção de imaginação ecológica”, como o romance Não verás país nenhum (Global, 1981), de Ignácio de Loyola Brandão.

Escrita durante a ditadura militar (1964-1985), a distopia imagina um Brasil no século XXI mergulhado em um novo regime autoritário e em profunda crise ambiental, após a extinção da floresta amazônica. “É um romance visionário, porque relaciona as catástrofes ambientais às consequências das atividades políticas e econômicas humanas, um viés de pensamento que só se popularizou nos anos 1990”, afirma Amaral. Segundo o pesquisador, apesar de a obra apresentar um cenário distópico, no qual a natureza “praticamente perde o jogo”, a narrativa permite que os leitores mantenham uma “dose de esperança”, deixando margem para um possível recomeço.

Atualmente, uma palavra recorrente nesse tipo de literatura e nos estudos literários é Antropoceno. O termo se refere à atual época geológica marcada pelo impacto da espécie humana sobre o planeta, mas vem sendo objeto de debate em diferentes áreas do conhecimento. Cunhado na década de 1980 pelo biólogo Eugene Stoermer (1934-2012), da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o conceito ganhou projeção nos anos 2000 a partir de trabalhos realizados em colaboração com o químico holandês Paul Crutzen (1933-2021), vencedor do Prêmio Nobel em 1995. Em 2024, no entanto, a ideia de Antropoceno foi contestada pela União Internacional de Ciências Geológicas (Iugs). Entre os argumentos apresentados pela instituição estão a dificuldade de definir o início da era e a ausência de padrões geológicos globais que permitam delimitar os efeitos da ação humana.

Segundo Rüsche, o Antropoceno é um conceito central para a ficção climática. “A narrativa sobre catástrofes naturais sempre esteve presente na literatura. A diferença é que, nos livros de ficção climática, a responsabilidade por elas é humana, o que se conecta com a noção de Antropoceno”, defende.

João Montanaro

Muitas obras literárias inseridas nessa vertente vão além de imaginar as consequências catastróficas das mudanças climáticas. “Elas também buscam questionar o antropocentrismo, experimentando perspectivas para além da dicotomia entre natureza e cultura, como a dos animais, das plantas e do mundo natural de forma geral”, diz o filósofo Gabriel Salvi Philipson, que concluiu no final do ano passado estágio de pós-doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) sobre a escrita literária da natureza. Ele integra também o Grupo de Estudos da Literatura no Antropoceno (Gela), vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Esse é o caso do livro Autobiografia de um polvo (Bazar do Tempo, 2022), da escritora e filósofa belga Vinciane Despret, que, na fronteira entre ciência e ficção, investiga o que é chamado de linguagem poética dos animais. “Isso vem ocorrendo não apenas na ficção climática, mas em diversos livros da literatura contemporânea. Nessas obras, os animais têm sido apresentados como sujeitos dotados de inteligência, sensibilidade e pontos de vista sobre o mundo ao redor”, observa Maria Esther Maciel, professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que estuda a representação dos animais na literatura brasileira (ver Pesquisa FAPESP nº 330).

Maciel destaca que essa transformação também se reflete nas pesquisas acadêmicas em literatura. “Antes, as abordagens eram escassas ou se limitavam à visão dos animais como símbolos, metáforas ou alegorias do humano”, diz. “Hoje, os estudos sobre relações entre seres humanos e não humanos adquiriram uma feição transdisciplinar, que vai além da visão antropocêntrica.”

Questões como essas são o objeto de estudo da ecocrítica. O termo, que emergiu no final dos anos 1970, ganhou status de novo ramo dos estudos literários em 1996 com a publicação de uma série de artigos acadêmicos pela Associação dos Estudos de Literatura e Ambiente, fundada nos Estados Unidos no início dos anos 1990. Trata-se de uma vertente da crítica que pesquisa a relação entre a literatura e o ambiente ao analisar obras contemporâneas e antigas com a perspectiva ecológica, propondo-se a pensar a representação da natureza e de que forma a crise ambiental é narrada. “Essa corrente traz muitas possibilidades, bem como aspectos problemáticos”, comenta o filósofo Fabio Roberto Lucas, do Programa de Pós-graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP.

Responsável por um grupo de estudo sobre o assunto, o pesquisador foi um dos entrevistados pelo podcast Eco-versas, projeto de extensão daquela instituição que teve duas temporadas entre 2024 e 2025 para discutir a interseção entre literatura, ambiente e tecnologia. Segundo ele, um dos riscos dos projetos de pesquisa centrados na ecocrítica é subordinar a análise literária a demandas externas. “Em alguns casos, o texto fica em segundo plano e a necessidade de adequação ao discurso ecológico se sobressai”, observa Lucas, atualmente em estágio de pós-doutorado na École Normale Supérieure de Paris, na França, onde investiga as relações da obra do poeta francês Paul Valéry (1871-1945) com a natureza.

A ficção climática se inseriu no campo de estudos da ecocrítica na década de 2010, quando artigos acadêmicos começaram a responder à emergência do termo na mídia. É o caso de um ensaio escrito por Laura Wright, professora de estudos literários da Universidade da Carolina Ocidental, nos Estados Unidos, publicado em 2019 como um dos capítulos do livro New approaches to the twenty-first-century anglophone novel (ou Novas abordagens para o romance anglófono do século XXI, em livre tradução), da editora Palgrave Macmillan. O texto analisa a literatura ambiental no Antropoceno. “Apesar de o termo ‘ficção climática’ ter surgido como um rótulo de mercado, sua inclusão gradual nas pesquisas é importante para entender quais serão seus efeitos na cultura”, argumenta Rüsche, para acrescentar: “As obras mais interessantes, como A extinção das abelhas, mesclam distopia e utopia e conseguem imaginar outras formas de viver no planeta quando a vida como conhecemos colapsar.”

A reportagem acima foi publicada com o título “Recados do presente e do futuro” na edição impressa nº 361 de março de 2026.

Artigos científicos
POLESSO, N. B. Fabulações do Antropoceno na literatura brasileira contemporânea em três livros: Corpos benzidos em metal pesado, de Pedro Augusto Baía; Erva brava, de Paulliny Tort; e O gosto amargo dos metais, de Prisca Agustoni. Fórum Linguístico. Florianópolis, v. 22, p. 1-1. 2025.
CELESTINO, R. e PHILIPSON, G. S. Insurgências ecológicas no insólito brasileiro: Narrativas especulativas como discursos de resistência no AntropocenoEstrema: Revista Interdisciplinar de Humanidades. Lisboa, v. 4, nº 1, p. 154-179. 2025.

Livro
RÜSCHE, A. Quimeras do agora: Literatura, ecologia e imaginação política no Antropoceno. São Paulo: Bandeirola, 2025.

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