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Obituário

Filósofa do acolhimento

Andrea Loparic formou gerações de alunos no campo da lógica em diferentes universidades brasileiras

Andrea Loparic era generosa com alunos que não tinham familiaridade com matemática e métodos formais

Arquivo pessoal

Referência em estudos sobre lógica, a filósofa Andrea Maria Altino de Campos Loparic, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), morreu no dia 25 de outubro, aos 80 anos, vítima de insuficiência renal. Ela deixa dois filhos e netos.

Nascida no Recife, graduou-se em filosofia em 1961 pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Dois anos mais tarde, concluiu o bacharelado na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, onde também fez mestrado, finalizado em 1964. Em 1988, defendeu o doutorado em lógica e filosofia da ciência na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição na qual lecionou de 1975 a 1994. De 1969 a 1972, trabalhou como docente na Universidade Federal da Paraíba (UFPB); em 1973, começou a dar aulas na USP, instituição na qual se aposentou; e, entre 1995 e 2000, foi professora visitante na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Na década de 1980, a pesquisadora trabalhou com o matemático e lógico Newton da Costa, que desenvolveu, a partir de 1958, uma hierarquia de lógicas denominadas lógicas paraconsistentes. Essa hierarquia permite trabalhar com situações e opiniões contraditórias, diferentemente da lógica clássica, que não aceita a contradição do ponto de vista técnico. Ou seja, a lógica paraconsistente é um sistema formal no qual é possível verificar, de forma controlada, exceções ao princípio da não contradição. Edélcio Gonçalves de Souza, também do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, foi aluno de Loparic na graduação e pós-graduação, além de amigo próximo. Ele explica que, com seus estudos, a pesquisadora colaborou com a área de semântica das lógicas paraconsistentes, por meio da formulação da teoria de valorações.

“Quando Costa criou a lógica paraconsistente, ela era definida por meio de um sistema formal que não tinha semântica. Andrea produziu semânticas de valorações para ela, publicando um artigo que foi importante para provar a correção e a completude de certos sistemas”, comenta Souza. Ele afirma que os trabalhos de Loparic foram incisivos ao mostrar quais cálculos eram decidíveis por processos mecânicos, ou seja, quais fórmulas constituíam teoremas de cálculos. “Ela desenvolveu métodos para elaborar provas de completude e decidibilidade de sistemas lógicos”, observa. Nos anos 1980, em parceria com Costa, Loparic colaborou para estabelecer a teoria de valorações para esses cálculos. “Por meio dos seus estudos, ela contribuiu com demonstrações de completude, correção e decidibilidade para as teorias de cálculos paraconsistentes de Costa”, diz. Souza explica, ainda, que nos anos 1990 os métodos de lógica paraconsistente eram teóricos e não tinham aplicações práticas. As potenciais funcionalidades surgiram a partir dos anos 2000, por meio de seu uso em áreas como economia, computação, robótica e inteligência artificial.

Loparic pertenceu ao pequeno grupo de pesquisadores que, liderado por Oswaldo Porchat Pereira, fundou, em meados dos anos 1970, o Centro de Lógica e Epistemologia e o Departamento de Filosofia da Unicamp. Luiz Henrique Lopes dos Santos, do Departamento de Filosofia da USP e coordenador adjunto da Diretoria Científica da FAPESP, também pertenceu ao grupo. “Foram anos muito ricos e intensos”, lembra Santos. “A vitalidade intelectual e afetiva de Andrea foi decisiva para o sucesso desses projetos institucionais, especialmente para a constituição de um grupo de pesquisa em lógica internacionalmente relevante. Morávamos no mesmo prédio e varamos muitas madrugadas discutindo lógica e política, suas grandes paixões, além dos filhos, netos e amigos, entre os quais tive o privilégio de estar incluído durante meio século.”

A afetuosidade e generosidade de Loparic é lembrada também por seus alunos. “Ela foi minha primeira professora de lógica. Era muito generosa com os estudantes que não tinham familiaridade com matemática e apresentavam dificuldades para compreender métodos formais”, detalha Souza. Com posições políticas fortes até o final da vida, Loparic pertenceu à geração que fundou a Ação Popular, organização de esquerda criada em 1962 na qual ela militou desde muito jovem. A filósofa estava com a saúde debilitada por causa do tratamento de um câncer, mas trabalhava na elaboração de um livro. “Mesmo sem poder se locomover, ela se comunicava com familiares e amigos por meio das redes sociais e conversas telefônicas frequentes”, afirma Souza.

Em nota de pesar publicada no site da UFRGS, a filósofa Sílvia Altmann recorda dos anos em que Loparic lecionou na instituição como professora visitante, quando ela “teve como missão alfabetizar os alunos em lógica, no que ela gostava de chamar a escolinha da professora Andrea”. No texto, Altmann escreve que, apesar do tom maternal usado na descrição de sua atividade docente, o grau de exigência das aulas e a dedicação demandada dos alunos eram altas. Altmann também destaca a postura acolhedora de Loparic, que envolvia tanto questões intelectuais como afetivas.

O filósofo Roberto Horácio de Sá Pereira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), frequentou esporadicamente algumas de suas aulas em Campinas, reconhecendo, de pronto, sua “formidável inteligência, conhecimento e rapidez de raciocínio”. Nos últimos anos, eles se comunicavam diariamente pelas redes sociais ou telefone, em conversas que envolviam de lógica a questões culinárias. “Lembro-me de postagens filosóficas que eu fazia, que eram como resumos de artigos que eu publicava, como forma de suscitar discussão e testar hipóteses. Seus comentários eram sempre geniais”, recorda. Pereira conta que, depois de 2016, ele entrou em profunda depressão, compartilhando sua situação com Loparic que, já doente e debilitada, dizia: “A despeito de tudo, eu amo a vida. Como você pode pensar em desistir dela?”.

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