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Obituário

Filosofia e conjunturas políticas

Roberto Romano entendia a disciplina como um caminho para a conquista da autonomia da razão

Roberto Romano no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, em 2007: em suas análises, ele abordou dificuldades nacionais advindas do espaço social e político

Antoninho Perri / Sec Unicamp

O filósofo Roberto Romano da Silva, professor aposentado de ética e filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), morreu em São Paulo no dia 22 de julho, em decorrência de complicações da Covid-19. Casado durante 50 anos com a socióloga Maria Sylvia de Carvalho Franco, aposentada dos departamentos de Filosofia da Unicamp e da Universidade de São Paulo (USP), tinha 75 anos e deixou dois enteados e duas netas.

Nascido na cidade de Jaguapitã, no Paraná, o pesquisador mudou-se ainda criança com a família para Marília, no interior de São Paulo, onde cursou ginásio (atual ensino fundamental) e ensino médio. Nesse período, ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC). Em 1966 decidiu se tornar frade dominicano e entrou para o convento da congregação, em Juiz de Fora, Minas Gerais. No ano seguinte, se preparando para o noviciado, prestou vestibular para o Instituto de Filosofia e Teologia de São Paulo. Insatisfeito com o curso, conseguiu autorização para transferir-se para a USP. Foi frade durante 12 anos, frequentando o Convento dos Dominicanos de São Paulo. Em 1969, durante a ditadura militar (1964-1985), foi preso e encaminhado para o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e, logo em seguida, à sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo. Torturado, permaneceu detido até o final de 1970, quando foi libertado.

Graduado em filosofia em 1973, Romano fez doutorado na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS), na França, com tese defendida em 1978 sobre o discurso teológico contemporâneo e a história das relações entre Igreja e Estado no Brasil. Escreveu mais de uma dezena de livros, além de numerosos artigos acadêmicos. Também publicou textos na grande imprensa e era colunista do Jornal da Unicamp. Na instituição, foi presidente da Comissão de Perícias e integrou a Comissão de Avaliação Docente. Em 2002, Romano concorreu ao cargo de reitor da Unicamp, posto que foi assumido pelo engenheiro e físico Carlos Henrique de Brito Cruz.

O professor de filosofia Márcio Augusto Damin Custodio, da Unicamp, recorda que durante sua graduação na instituição, na década de 1990, participou de cursos ministrados por Romano sobre os filósofos René Descartes (1596-1650) e Baruch Espinosa (1632-1677). “Quando ele ensinava Espinosa, invariavelmente fazia a leitura do Tratado da emenda do intelecto, obra escrita originalmente em latim e que é considerada inacabada”, relata. De acordo com Custodio, a abordagem que Romano utilizava em suas aulas e textos chamava a atenção dos alunos, na medida em que ele prezava a tradição e a história da filosofia, mas ao mesmo tempo entendia a disciplina não como erudição, mas como um caminho à conquista da autonomia da razão. “Sua abordagem de textos tradicionais da história da filosofia primava por evidenciar e reformular as dificuldades e os problemas enfrentados pelos autores”, analisa. Pela publicação da tradução, em quatro volumes, das obras completas de Espinosa, em 2015, Romano compartilhou o Prêmio Jabuti com o filósofo Newton Cunha e o crítico teatral e editor Jacó Guinsburg (1921-1918).

“Há outro Romano que acompanhei a distância, como espectador. Refiro-me aos artigos em jornais e às inúmeras participações que fez em programas de televisão, exercendo o papel de analista da conjuntura política do país”, afirma. Segundo Custodio as duas funções exercidas por Romano, como professor de filosofia e analista da conjuntura política, apresentam uma unidade temática, incluindo questões da ética e da filosofia política. “Em sua obra, dois livros são centrais à compreensão dessas temáticas: Igreja contra Estado [Kairós, 1979] e Conservadorismo romântico: Origem do totalitarismo [Editora Brasiliense, 1981]”, detalha. Outros trabalhos de destaque de Romano são Silêncio e ruído: A sátira em Denis Diderot (Editora da Unicamp, 1996) e Razão de Estado e outros estados da razão (Editora Perspectiva, 2014).

A historiadora Maria Stella Martins Bresciani, também da Unicamp, ressalta que as análises de Romano permitiram ampliar o entendimento sobre as relações entre o pensamento do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) e o historiador escocês Thomas Carlyle (1795-1881). “Como historiadora contemporânea e leitora de Carlyle, romântico conservador muito atuante e lido na primeira metade do século XIX, as análises de Romano tornaram viável identificar a presença do pensamento romântico na obra de Marx e em suas críticas à sociedade industrial, sem os preconceitos de vertentes mais ortodoxas de historiadores dos anos 1980 a 1990”, analisa. Ao destacar o amplo conhecimento de pesquisador tanto em questões filosóficas quanto em teológicas, ele trouxe à luz a importância estratégica do diálogo entre autores com pontos de vista divergentes. “Ler sem preconceitos amplia os horizontes do conhecimento e torna mais ampla e diversificada nossa forma de ver os documentos de época, ofício do historiador, independentemente da vertente política”, diz Bresciani.

“Romano era uma referência em sua área de atuação e foi de fundamental importância à formação de toda uma geração de filósofos brasileiros. Mais do que ministrar um conteúdo específico, ele ensinava seus alunos a adotar uma postura filosófica diante do texto”, observa a filósofa Fátima Regina Rodrigues Évora, da Unicamp. Por fim, o filósofo Antonio Valverde, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), recorda das análises de Romano sobre “temas-problemas” dos planos da ética e da filosofia política que são, em geral, espinhosos. “Nesse sentido, ele foi um dos poucos intelectuais a abordar criticamente dificuldades e mazelas nacionais advindas do espaço social e político”, avalia.

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