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Carta do editor | 39

Frutos de uma proposta clarividente

A FAPESP vai assinar, em março, um contrato de cooperação com o Ludwig Institute for Cancer Research para desenvolvimento do Projeto Genoma-Câncer. Esse novo projeto do Programa Genoma (ver matéria na página 11), entre outros efeitos, deverá colocar o Brasil dentro da corrida internacional pela identificação de novos genes do genoma humano – e, registre-se, não como uma espécie de sócio instrumental menor, mas como um parceiro respeitável nesse que é um dos mais importantes empreendimentos científicos em curso no mundo.

O argumento mais convincente para uma tal entrada no projeto do Genoma Humano é o fato de os pesquisadores brasileiros, graças precisamente ao acordo com o Ludwig, disporem de uma nova e eficiente abordagem de seqüenciamento genético. Por aí dá para ter bem uma medida da importância científica do acordo de cooperação com a instituição norte-americana e do Projeto Genoma-Câncer.

Mas há que se ressaltar, em paralelo a essa dimensão científica e tecnológica, o significado cultural do acordo. Porque ele prevê não só o financiamento conjunto do projeto, na base de 50% para cada instituição, como a divisão, meio a meio, dos royalties decorrentes da patente da nova abordagem de seqüenciamento. Mais do que o possível retorno econômico, é importante ver nisso o anúncio de uma nova era para a pesquisa brasileira.

Aperfeiçoamentos na tecnologia de seqüenciamento genético são, por razões óbvias, de enorme interesse para a indústria farmacêutica e a indústria de alimentos, entre outras. É justamente por isso que o convênio com o Ludwig, além de seu especial significado científico, tem uma dimensão econômica sem precedentes na história da FAPESP. Em outras palavras, royalties pagos pela indústria farmacêutica e outras poderão aportar à Fundação e irrigar, como jamais aconteceu, o sistema de financiamento à pesquisa no Estado de São Paulo.

Como isso se tornou possível? A nova abordagem de seqüenciamento genético que está incluída no convênio com o Ludwig internacional foi proposta por pesquisadores do Instituto Ludwig de São Paulo, quando eles já estavam engajados no primeiro projeto Genoma da FAPESP, o de seqüenciamento da Xyllela fastidiosa. A rigor, eles já vinham trabalhando nessa metodologia bastante tempo antes do projeto organizado e financiado pela Fundação. Mas os próprios pesquisadores consideraram que foi o ambiente propiciado pelo Genoma-FAPESP, com seus incontáveis desafios técnicos, que facilitou o aperfeiçoamento da nova abordagem de seqüenciamento mais rápido. Ou seja, concluiu-se que houve de fato uma parceria num desenvolvimento tecnológico, que deveria estender-se pela apropriação dos resultados econômicos de tal desenvolvimento. Daí o acordo que estabelece que o Ludwig Institute é proprietário da patente, mas os royalties devem ser divididos meio a meio com a FAPESP.

Estamos, assim, diante de fatos não exatamente previstos, mas antevistos em seus contornos básicos, quando lançamos o Projeto Genoma-FAPESP em outubro de 1997. Insistimos, na ocasião, com a idéia de que o seqüenciamento da Xyllela, que tinha um interesse econômico regional imediato – encontrar caminhos para combater a praga do amarelinho, extremamente danosa à citricultura -, iria permitir um salto notável de patamar da pesquisa paulista. Iria agilizar sua ligação com as correntes internacionais mais avançadas de investigação científica na biologia molecular, uma área-chave da ciência contemporânea. E enfatizávamos que essa inserção da pesquisa paulista no ambiente internacional, por sua vez, teria também retornos econômicos, embora fosse ainda impossível precisar quais. Estava clara nossa visão do embricamento entre ciência, tecnologia e economia.

Pois bem, temos hoje um microorganismo em fase final de seqüenciamento, uma competência instalada nas mais modernas tecnologias da biologia molecular, envolvendo uma centena de pesquisadores, dois novos projetos genoma sendo lançados – Cana e Câncer -, uma estratégia para participar do megaprojeto do Genoma Humano e esse acordo com uma instituição internacional que deverá render prestígio e novos recursos para a pesquisa paulista. Tudo isso foi obtido em pouco mais de um ano. Imodestamente, a FAPESP só pode comemorar a rara clarividência que estava embutida na proposta do Genoma da X. fastidiosa.

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