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PIONEIRISMO

Garra e improviso

Nos primeiros anos da FAPESP, dedicação e criatividade compensaram a escassez de recursos

Laboratório de Química de Produtos Naturais nos anos 70: estudos pioneiros

LEW PARRELLALaboratório de Química de Produtos Naturais nos anos 70: estudos pioneirosLEW PARRELLA

Nos primeiros anos de vida da Fundação, muitas vezes, o improviso foi ferramenta do profissionalismo. Quando Victória Rossetti, pesquisadora do Instituto Biológico,precisou de um carro para seus estudos sobre o cancro cítrico, o diretor científico Warwick Kerr não teve dúvida: entregou-lhe as chaves de uma caminhonete que a Fundação havia comprado para ele. Anos depois, já como uma das maiores autoridades em doenças de citros do mundo,Victória seria a responsável por identificar a bactéria Xylella fastidiosa. A mesma Xylella cujo seqüenciamento pioneiro projetaria o país no competitivo cenário da biotecnologia.

Muitos dos projetos que a Fundação apoiou em seus primeiros anos reverteram-se em serviços, tecnologias e formação acadêmica da maior qualidade. Foi o que aconteceu, por exemplo, na área de eletrônica, que viveu uma verdadeira revolução na década de 60, com a miniaturização de seus componentes. E a Universidade de São Paulo (USP) acompanhou o nascimento do chip de silício, inaugurando, em 19 de abril de 1970, o primeiro Laboratório de Microeletrônica (LME) da América do Sul, como resultado de um projeto criado em 1965.

Sob a direção de Carlos Américo Morato de Andrade, o LME produziu os primeiros dispositivos de semicondutores e circuitos integrados brasileiros e disseminou conhecimento em nível nacional. Segundo Alberto Carvalho da Silva, ex-diretor presidente da FAPESP, o LME contribuiu para a instalação do Laboratório de Eletrônica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Laboratório de Sistemas Integráveis na Escola Politécnica da USP, do Instituto de Microeletrônica do CTI, em Campinas, e para a formação de grupos de pesquisa nas universidades federais do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraíba. Não se pode dizer que o Brasil tenha se tornado independente em microeletrônica, pois, ainda hoje, quase não produz componentes eletrônicos. Mas talvez tenha a oportunidade de dar um passo além: pesquisas realizadas hoje por físicos da USP e Unicamp estão abrindo perspectivas para novos materiais que poderão substituir o silício nos computadores.

O primeiro laboratório de Microeletrônica, na Poli

ACERVO DA ESCOLA POLITÉCNICAO primeiro laboratório de Microeletrônica, na PoliACERVO DA ESCOLA POLITÉCNICA

O setor de química também esteve bem representado nessa década, com o surgimento de dois grandes pólos geradores de ciência e tecnologia: o Laboratório de Biotecnologia Industrial e o Laboratório de Química de Produtos Naturais. O Laboratório de Biotecnologia Industrial foi instalado na Escola Politécnica da USP sob a direção de Walter Borzani, pesquisador considerado o introdutor da engenharia química no Brasil por seus estudos sobre fermentação alcoólica contínua, em colaboração com IPT e Esalq. Sob sua influência, surgiram novos grupos de biotecnologia industrial na USP, Escola de Engenharia Mauá, Faculdade de Engenharia Industrial, Instituto de Pesquisas Tecnológicas e Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental. Já o Laboratório de Química de Produtos Naturais, criado em 1967 por iniciativa de Paschoal Senise, passou a fazer parte do Instituto de Química da USP em 1970. Sob a coordenação de Otto Richard Gottlieb, especializou-se no estudo das micromoléculas sintetizadas pela planta em seu metabolismo (produtos amplamente empregados na fabricação de corantes, perfumes e medicamentos) e foi o palco do nascimento de uma nova disciplina, a taxonomia química.

O grupo de Gottlieb isolou e identificou numerosas substâncias naturais de diversas espécies vegetais nos diferentes ecossistemas brasileiros. Várias categorias novas de produtos naturais foram descritas por esses pesquisadores, como as neolignanas, substâncias características de plantas da Amazônia com enorme potencial farmacológico por sua atividade antinflamatória. Ao lado dos trabalhos experimentais, Gottlieb lançou as bases de uma nova disciplina científica baseada nos estudos da constituição química vegetal: a Evolução, Sistemática e Ecologia Química, hoje já reconhecida pelo CNPq como uma nova especialidade da Química Orgânica. A criação de uma nova classificação das plantas a partir de suas características químicas e a sólida carreira em pesquisa científica levariam o professor Gottlieb a uma indicação para o Prêmio Nobel de Química no ano de 1999. Mas os inúmeros pesquisadores e mestres que ajudou a formar por todo o país nem precisariam dessa indicação para reconhecer o valor do cientista: suas próprias vidas o atestam.

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ADRI FELDEN/AG. ARGOS

Victória: primeira agrônoma da Esalq

Victória Rossetti e as lembranças na parede

As paredes do apartamento de Veridiana Victória Rossetti guardam um pouco da história da pesquisa brasileira. As muitas medalhas e placas com seu nome gravado – justas homenagens de alunos, colegas, associações de classe e governos – disputam espaço com quadros e souvenirs dos vários países onde esteve em viagens de estudo ou congressos. Lembranças por todo canto. É claro que, aos 83 anos de idade e tantas experiências vividas, nomes e datas às vezes lhe fogem da memória. Mas as informações científicas não. Estas estão bem vívidas. Impossível confundir as características do cancro cítrico, por exemplo, com o amarelinho, ou melhor, clorose variegada dos citros, termo que ela mesma cunhou e hoje é usado no mundo todo, sob a sigla CVC. “Chamei-a assim porque as manchas amareladas na folha apresentam-se de forma variegada, não contínua”, explica.

Victória conta que, em 1987, chamaram-na para identificar uma doença nova na Fazenda Ana Prata, região de Bebedouro. “Eu não sabia o que era”. Ninguém sabia. Aos poucos, a pesquisadora foi desvendando o mistério. Cobrindo algumas plantas com telas e comparando-as, depois, com as que estavam expostas, ela descobriu que o vetor da doença era um inseto: as plantas cobertas continuaram sãs. Para testar a hipótese do entupimento dos vasos da planta – a ação destrutiva da Xylella – Victória criou um equipamento tão simples quanto engenhoso: tubos transparentes por onde eram introduzidos galhos da planta. Depois, eles eram cheios com água.Nos tubos que continham galhos saudáveis, surgiam muitas bolhas, como resultado do ar que saía dos vasos da planta. Nos tubos contendo plantas doentes, a água borbulhava bem menos, prova de que os vasos estavam entupidos. Para identificar a bactéria causadora da doença,Victória foi à França, onde teve a ajuda de Joseph Bové, especialista em fitopatologia. Até hoje, são grandes amigos. Quando ele e a esposa Colette – com quem Victória também teve a oportunidade de trabalhar – vêm ao Brasil, hospedam-se em sua casa. A pesquisadora já foi presidente da Organização Internacional de Virologistas de Citros e já deve ter participado de uns 14 congressos só dessa entidade, pelas suas contas. No último, realizado em Chipre, não pôde comparecer por motivos de saúde. “Mas eles me mandaram uma lembrança de lá”, alegra-se.

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Gottlieb: criador da sistemática bioquímica e indicado ao Nobel de Química de 1999

AGNALDO RAMOSGottlieb: criador da sistemática bioquímica e indicado ao Nobel de Química de 1999AGNALDO RAMOS

O professor itinerante

Em 1735, o naturalista sueco Carl von Linné, ou Lineu, como ficou conhecido, publicou um sistema de classificação dos seres vivos baseado em características morfológicas, ou seja, em aspectos exteriores. Esse método ainda é indispensável. Mas já é possível distinguir as plantas por meio das substâncias químicas que elas produzem graças aos estudos de sistemática bioquímica desenvolvidos pelo cientista Otto Gottlieb. O pesquisador descobriu que mesmo plantas da mesma espécie podem produzir diferentes substâncias químicas conforme a idade ou ambiente em que foram criadas. Esse surpreendente achado, de fundamental importância para a indústria farmacêutica, tornou Gottlieb conhecido internacionalmente.

A flora brasileira sempre esteve presente na vida desse tcheco naturalizado brasileiro. Foram os negócios de exportação de café de seu avô materno que trouxeram a família para o Brasil. O pai montou uma fábrica para produzir substâncias químicas puras extraídas de óleos essenciais da Amazônia, onde Gottlieb trabalhou por 10 anos, depois de sua formatura como químico industrial pela Universidade do Brasil no Rio de Janeiro, em 1945. Em 1955, começou a carreira acadêmica na seção de fitoquímica do Instituto de Química Agrícola do Rio de Janeiro. Depois, esteve em várias instituições brasileiras até assumir a coordenação do Laboratório de Química de Produtos Naturais no então recém-inaugurado Conjunto das Químicas da USP.“Tive a honra de ser convidado para coordenar esse Laboratório que seria mantido pela FAPESP e que não teria um vínculo direto com nenhuma unidade da Universidade. Fiquei bastante motivado e entusiasmado pela proposta, pois ela estava baseada naquilo que sempre acreditei e defendi em toda a minha carreira, a criação e fomentos a grupos de pesquisa”, afirma.

As atividades iniciaram-se em 1967, com a colaboração de Raimundo Braz Filho, que Gottlieb convidou para chefiar o laboratório em tempo integral. “Naquela época eu pertencia ao quadro de professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e também orientava alunos na Universidade Federal de Minas Gerais e, portanto, dividia meu tempo entre as três instituições. Algumas vezes a Universidade Federal de Pernambuco também era incluída nesse percurso semanal. Impossível esquecer os enjôos causados pelas viagens semanais entre Belo Horizonte e São Paulo feitas nos aviões Samurai”, lembra o pesquisador. “Eu abria a porta da agência de passagens em Belo Horizonte e o funcionário imediatamente preenchia a passagem. Esses constantes deslocamentos me valeram o título de ‘professor itinerante’ dado por Paschoal Senise”.

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