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Ficção

Gerúndio

HÉLIO DE ALMEIDAO relógio permanece no gerúndio. Não fazia diferença o horário em que a moça entrou na sala. Não faz diferença, nunca fez. Alguma reflexão dessa natureza, sobre o tempo ou sobre os verbos, flutuava naquela hora em minha cabeça e quase não a teria notado, não fosse o tom de sua voz. Triste, humilde, mas com a ousadia dos desesperados. Pensou que eu fosse médico. Era um pesquisador, mas meu jaleco branco justificava o engano facilmente. Não, minha senhora, não acho que esteja com dengue. Em todo caso, está aqui para fazer exames, não é? Não, não sou médico. Não tem problema. Não incomodou. Existem muitos tipos de mosquito, pode não ser nada. Claro, faça isso, é melhor prevenir mesmo. Não precisa se desculpar. Pode ir por ali.

Ela tinha a pele manchada. Estava doente, os olhos e o nariz avermelhados. Curiosamente, as pesquisas que eu realizava naquela época eram destinadas ao departamento de virologia. O que não me conferia qualquer atributo de médico ou vidente que pudesse validar um diagnóstico para a mulher. Mas, lá com os botões de meu jaleco, minha tese era que ela, na verdade, padecia de pobreza. O hospital, vinculado à faculdade de medicina, recebia por dia milhares de enfermos que sofriam dessa mesma chaga. Vinham apresentando sintomas diversos, estado febril, purulências, dores, velhice. Mas a todos eles era comum o tumor inexpugnável da pobreza. Sentei-me outra vez, o relógio trabalhando no meu pulso, já me distanciando do olhar assustado da mulher e de sua lembrança incômoda. Não havia muito tempo.

Os vírus talvez me consumissem, a mim e a toda a humanidade, o que, cá entre nós, seria ótimo para o planeta. No entanto, eu trabalhava a favor dos meus, sempre, seguindo o que fora ensinado na casa de meu pai. Defender os irmãos contra qualquer um, em qualquer situação. Pelo menos, era minha justificativa à época da faculdade e nos primeiros anos de laboratório. O tempo, porém, consumiu boa parte de minha segurança nos méritos de se trabalhar para compreender melhor o mundo, em prol de uma sanha de dominação e sobrevivência da qual já não partilhava completamente no dia em que a mulher manchada entrou por engano na sala onde eu estava.

Segurando uma caneta, minha mão saltou à minha vista e afastou os pensamentos do vírus e da possibilidade de aniquilamento. Interessante é que, então, velho e já não me restando tanto tempo, minha capacidade de concentração era tamanha que beirava a neurose, muito diferente dos dias em que eu fora um homem livre de calendários, quando datas eram conceitos de sentido apenas social, nunca existencial. Tinha dificuldade em me libertar de qualquer pensamento, sobretudo daqueles que me distraíam de minha atividade cotidiana e me conduziam para mais perto do centro de minha inquietude. Naquele momento, a mão. A mão que riscava e atravessava o tempo. A mão que se apoiava no presente ainda com firmeza, apesar da idade. A mão que servia de parâmetro para a passagem do tempo.

Havia uma série de manchas e pintas que eu evitara durante anos – estavam todas ali, zombando de minha displicência. Os nós dos dedos permaneciam belos, era próximo do punho que o tal fizera melhor seu trabalho. Einstein. Bailava em minha memória, mas à sua caricatura divertida somava-se o conceito de morte. Estava morto. Lorentz, Einstein. O tempo acabara com eles? O tempo deles se acabara? O meu, próximo do fim. A mulher manchada, perdida em corredores de hospital. Todos nós, atônitos à passagem do tempo, cobertos de sonhos que nos permitam esquecê-lo. Três dimensões do espaço, mais o tempo: quarta dimensão. Uma dimensão, um conceito, uma linha num gráfico, nada. E minha mão manchada – como a mulher perdida. Talvez estivéssemos todos perdidos.

Santo Agostinho me valesse naquele momento, minha mão não deixava dúvidas: o tempo não existia fora de nós. Ele estava ali, impresso em manchas senis, naquela mão que segurava a caneta. Pousei-a na mesa. Abri os dedos. A mulher tinha a pele manchada, mas era jovem. Estava inevitavelmente carente de algo, não fosse de saúde seria de dignidade, de fé ou de um pai. Fazia 30 mil anos que o homem marcava o tempo, o tempo cíclico, o tempo linear. Marcava a passagem do sol sobre nossas cabeças, da trajetória dos filhos de Caim até o apocalipse. O tempo de vida, o tempo de espera e o tempo de colher. Mas o tempo não passa, ó deus, nós é que passamos. Eu e todos os que vieram antes, e os que nem sonhamos que virão. Passamos e nos amparamos num conceito, numa divindade a quem culpar pelas manchas que nos nascem nas mãos, pelas perdas e pelo fim. Pulgas ousando no éter, carregamos atada ao pulso ou exposta na parede uma estimativa do futuro próximo e uma esperança de longevidade. De fato, apenas o que importava ali, naquele solilóquio frente a anotações e à mão pesada do presente, era a mulher que eu abandonei à deriva naquele imenso laboratório que era o hospital.

Ciente do nosso abandono, ergui o corpo pesado, tentando ser rápido. Dediquei a vida ao ensinamento de meu pai, defender os irmãos. Estudar as pestes que pudessem se aventurar em atrapalhar a nossa caminhada sobre o planeta. Mas não hesitei em abandoná-la, aquela que precisou de mim no momento presente e dentro das três dimensões do espaço. Enquanto eu deixava minha sala, entravam em minha mente as sombras inconvenientes de outras mulheres e homens que eu deixara pra trás. Caminhávamos todos juntos, eu talvez me houvesse dado conta disso tarde demais. Os corredores eram longos. Passei a correr. Um labirinto que eu conhecia bem até a área de atendimento de emergência. Embora não fosse médico, minha assiduidade naquele prédio me aproximava mais dos minotauros brancos que dos que perambulavam por ali, manchados, à espera de uma informação. De uma esperança.

Esbarrei em um enfermeiro. Já estava o medo do enfarto rondando minha mente sexagenária. O relógio em meu pulso não parava, os ponteiros venciam a disputa com as pernas. Cheguei à sala lotada e não a vi. Em meu íntimo, eu sabia que nunca mais a veria. Viva ou morta, espaço e tempo seriam para nós a partir de então um obstáculo translúcido, mas intransponível. Percorri com o corpo e com a vista as filas de bancos onde estavam homens, mulheres, crianças. Eles transbordavam dos assentos, havia gente em pé, gente nas paredes, fumantes no pátio de entrada. Eu sabia que ela não estava ali, mas procurei. Perguntei às atendentes, que fingiram me dar atenção em respeito ao meu cargo. Fui informado gentilmente de que seria impossível, pela descrição, saber se uma mulher passara por ali. Eram centenas, foram centenas. Nas entrelinhas do discurso, o convite para que eu me retirasse era onipresente.

Abandonei o hospital decidido a me aposentar de fato. Já o teria feito, não fosse a obediência ao ensinamento familiar – como não continuar trabalhando, eu que tinha tanto a contribuir, era a questão que em silêncio meus próprios amigos me repetiam. Sem jaleco e sem certeza, parei no primeiro boteco, ali mesmo, na rua. Havia muitos homens esquecendo o batente ou se lembrando vagamente do que um dia fora trabalhar. Quase todos jovens. Um deles, embriagado, me perguntou: “E aí, tio, quem ganha o jogo hoje?”. Sorri, pedi uma cerveja. “Nós, claro.” O relógio permanece no gerúndio. Eu envelheço.

Leandro Rodrigues nasceu em 1977, em São Paulo. Paralelamente às suas atividades como professor de língua portuguesa e assistente editorial, escreve contos.

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