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jules rimet

Getsêmani

Quando o sol se põe, é por acaso que eu choro? Acho que não. Claro que não é. Uma: talvez a ave-maria me conceda esses segundos de lágrimas, porque anexadas ao pôr-do-sol; Outra: a consciência da mecânica da coisa. Essa outra é culpa exclusiva do professor de geografia do primeiro grau que me ofereceu aquilo que em outras épocas era chamado de “iluminação”. A ciência… ora a ciência… serve também pra isso: desmistificar. Porque até aquela aula onde tudo se derreteu em minha cabeça eu acreditava que o sol se punha apenas por ordem da ave-maria tocada no rádio, às seis horas de todas as tardes.

Por isso eu choro quando vejo um pôr-do-sol. E também porque sei que no fundo sou um sujeito sensível e boa-praça. Coisa que nunca quis admitir, no antanho. Um tio meu sempre dizia prós amigos “esse aí é boa-praça”, e apontava com o queixo. Eu era o “esse aí” e não levava na brincadeira. Tampouco considerava elogio. Boa-praça sempre me pareceu algo vizinho do “sujeito legal”; o mesmo que “o último a saber”.

Quando o professor de geografia me explicou (para a turma, na verdade) o funcionamento da esfera celeste, algo se desligou dentro de mim, ao mesmo tempo que algo acendeu, e eu me senti como sendo o último a saber. Miserável e deslumbrado, chorei sozinho no quintal de casa, olhando um sol que já não se punha mais, vendo a terra me girar para longe do calor e o sol ser deixado solitário na berlinda. O universo é cheio de berlindas, concluí. Eu também me sentia na berlinda fria de uma noite de estrelas frias.

Também choro pelos amores inverossímeis que cultivei ao longo da vida. Amores inverossímeis salpicados de pores-do-sol. Eu sou um cara sensível, que se há de fazer? Depois de adulto eu ia — de vez em quando, mas ia — exercitar os canais lacrimais, limpar as via respiratórias, na beira do mar, e aí eu providenciava um sol amarelo-ouro se pondo, cantava a ave-maria, soprava algumas nuvens só pra refletirem aquelas cores escorrendo no fim do céu e, por três segundos, calava o mar. Depois a trilha sonora das ondas voltava a toda, e eu ficava ali ainda alguns minutos, respirando fiapos daquele som.

Tive consciência também das hecatombes, olhando o sol cair — nossas pequenas hecatombes pessoais. De minha solidão e nossa pequenez. Por isso algum comportamento cínico. Por isso essa vida. A solidão é um amontoado de garrafas vazias no canto da sala. Guimbas de cigarro, em cinzeiros, em copos, em pratos, também acusam a manhã solitária. É quando a gente tem que, definitivamente, limpar de toda a visão aquele ataque à alma.

Meu avô dizia que depois que a gente sobrevive a uma morte considerada certa, tudo passa a ser vazio, a morte perde seu condão misterioso, o medo morre e a vida perde a graça. Sobreviver à morte não é, necessariamente, ganhar a vida. Porque não há saída. Porque não há subterfúgio. Eis a consciência que fica martelando depois. Ele me dizia isso toda vez que recontava as histórias da guerra. E percebia um pingo de tristeza em sua voz, uma mancha de decepção pela sobrevivência. Foi ferido de morte-certa, disse-lhe o médico, e sobreviveu. “A maravilha da vida está em ser incerta, meu filho.” Desde então meu avô perdeu o prazer pela “maravilha da vida”. Eu aprendi a desconfiar dos deslumbramentos.

Eis outra:
Minha prima era anjo na coroação da Virgem Maria. Tinha asas de algodão e aura de arame encapado com papel alumínio. Na primeira vez em que ela coroou a estátua foi que eu vi a quimera, tive certeza do fiasco, foi confirmada minha desconfiança. Uma coroa todinha feita de bijuteria. Vi.

A vida inteira acreditei na máxima de minha avó, conjugada com a filosofia de vida — de desvida, melhor seria — do meu avô. Passei a tomar ao pé da letra o que minha avó falava, entre uma risada e outra, toda vez que acontecia alguma coisa que outros consideravam “relevante”: as pequenas hecatombes, os dramas cultivados de cada um: “essa vida é uma novela”. Tomei isso ao pé da letra e não me decepcionei.

Por isso eu fabricava um pôr-do-sol, vez por outra. A solidão aí, latejando. E ao amanhecer, ainda lá, naquele amontoado de garrafas vazias. Eu me sentia um monstro enorme numa Tókio particular de 3 x 5 metros: meu quarto. Sentia a solidão de um Godzilla.

Meus olhos de míope passaram a ver outro mundo, principalmente depois que o professor explicou a lógica da coisa. Durante muito tempo a geografia ficou latejando, expurgando crenças: a razão em metástase. O que apagou antigos brilhos e iluminou novas trilhas: a consciência. É um ser para o qual, em seu próprio ser, acha-se a consciência do nada de seu ser — isso é Sartre. Desde o primeiro estalo, quando as estrelas se fragmentaram em mil sóis distantes e o romantismo passou a me parecer esdrúxulo, eu vi inchar em mim esse nada. Um balão vazio cheio de nada parecia inflar no meu estômago e, daí, chegar à minha cabeça, enchendo-a desse nada, dessas dúvidas e, sobretudo, de fúrias. Eu vivia meu getsêmani particular.

Química e física. Matemática. Um mundo de cálculos, um universo de fórmulas. O aleatório? O homem e suas crenças. Eis minha hecatombe particular, meu pequeno drama. Essa vida é uma novela.

Porque a ciência, ora a ciência… também serve pra isso: deflagrar hecatombes pessoais. E o amor, esse não consola nunca de núncaras — isso é Drummond. O amor, todos os amores, inverossímeis manifestações químicas? Sobretudo as paixões, tenho certeza. Alguém, algum dia, encontrará a fórmula que deflagrará esses sentimentos? O amor encontrado na tabela periódica, no fim. A despeito das inzonices cristãs, não obstante os enredamentos poéticos. Latente, esperando ser arrebatado para nos arrebatar.

No pôr-do-sol, eu sofria antecipado por um amor que não possuía. No meu getsêmani, eu chorava, mas não renegava o peso: bebia o cálice. Desde o primeiro cálice oferecido naquela aula de geografia se acendeu em mim o desiderato pela verdade. Mais a desconfiança dos deslumbramentos, plantada por meu avô com boa semente em alma fértil de jovem sedento.

A faculdade de física me deu outras saciedades, depois. Plantou novas sementes, regou outras mudas, fortaleceu novas edificações. Mas eu ainda sofria por aquele antigo pôr-do-sol e não me recuperara das ave-marias. Os fins de tarde eram, para mim, ainda, motivo de angústia, e eu escondia essas minhas idiossincrasias íntimas indo vez por outra à pedra da Gávea soprar nuvens, assobiar “ora pro nobis” e calar as ondas. No resto do dia pesquisava os céus. Noite adentro, penetrava nos astros. De vez em quando um deslumbramento se acendia em mim, claro que diferente da ignorância de antanho porque salpicado de equações. A ciência é uma metástase. E eu mergulhava
no desconhecido, buscando nunca mais ser o último a saber.

JULES RiMET é escritor, professor e advogado, nasceu em 1970, em Campos dos Goytacazes. Possui contos e poesias publicados e diversas revistas eletrônicas, entre elas www.paralelos.org. e http:patife.art.br. Mantém
oblog http://imagina.blogspot.com

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