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Ficção

Horas a fio

É escritor, autor de Mundo enquadrado (ensaios), Amor vário (romance), Quem disse sim (poesia), Maçã caramelada (teatro) e Quem sou eu (infantil).

Peço desculpas pela monotonia do relato e pela ausência, talvez incomum, de detalhes que dêem aos acontecimentos interesse, algo que toque ou arraste qualquer pessoa que seja a detalhes, entrelinhas, a um mundo subterrâneo de perguntas e imagens agradáveis. A história toda é essa: um dia abriu a porta do pequeno apartamento e fingiu que até então nunca percebera o tamanho do vazio. Entrou sem acender a luz. Foi ao quarto, tirou a roupa, jogou-se debaixo do chuveiro. Água fria, gelada, forte. Ali, naquele cubículo escuro, sem saída de ar, mesmo que quisesse luz, não tinha lâmpada, nem sequer bocal.

Estava só, não tinha que fazer, tentara algum trabalho, e nada.

(Sem amigos, sem alguém, sem televisão, rádio, relógio, sem ventilador ou ar-condicionado para enfrentar os dias de calor. Sem dinheiro, sem conta no banco.)

Não tinha cama, apenas um colchão grande no chão. Deitava-se para deixar a vida passar. Com todas as noções de tempo trocadas, funcionava como relógio quebrado. Tanto que, às vezes (muitas vezes), dormia cedo, logo depois do banho. Acordava no final da noite, talvez de madrugada (não sabia ao certo), e imaginava que não estava perto de amanhecer: havia carros na rua e a luz dos tubos de televisão saía pelas janelas dos apartamentos.

Roía-se de solidão. Escrevia à mão, compulsivo, pequenas estórias de infâmia, traição, abandono. Empobrecido, ainda não se sentia pobre. Devia o aluguel, meses de condomínio. Certa vez cortaram a luz.

(Só, sozinho, solidão.)

Mas vivia num apartamento bom (pequeno, porém bom), no centro da cidade, perto dos cinemas, da agitação de consumo que não podia viver (nem queria). Por pouco tempo, dizia-se, é provável, dizia-se.

Pequeno, ensinaram-no a fazer a cama e arrumar a roupa. Depois, ir à feira (economizar, escolher), cozinhar. Cuidava de si com autoconfiança. Estava fraco, sentia-se. Na busca por trabalho, confundia-se, pressionado por impressões soterradas que pareciam incomodar pelos detalhes expostos sob a terra. Mentia para si da pior maneira possível, conscientemente, como aberração sem domínio. Perdera a condução da vida e todos pareciam predispostos a deixar tudo como estava.

Lembra-se do dia em que pensou sair vitorioso dessa situação e ainda ver aqueles que o olharam com desprezo engolir todos os maus pensamentos. Riscou as palavras, exceto a parte em que sairia vitorioso. Não era tarefa fácil olhá-lo, ali, tão desprovido de qualidade de vida (requinte, gosto, objetos, aparelhos eletrônicos – nem música em casa havia). Vou vencer, dizia-se, é certo, dizia-se, e olhava-se contra o vidro da janela do quarto (não havia espelho em casa).

De fato, seja dito, várias vezes reinventou o começo de vida. Foi criança numa época em que a cidadezinha todo inverno inundava-se por enchentes. Naqueles dias, assim era, levantavam-se os móveis e, por cima deles, arrumavam-se roupas e quinquilharias (que, aliás, nos primeiros refluxos da água, caíam e só não iam parar no rio por causa das portas). Houve cheias de não perder nada. E aquelas em que se perdeu muito. Outras, cravadas na memória, levaram tudo, para começar do nada, em situações bem mais precárias – não seria, então, motivo para baixar a cabeça e aceitar alguma derrota?

Do nada, decidiu mudar rotina, expectativas, acrescentou outras tantas esperanças e, em especial, apesar das dificuldades, sentia-se adulto para suportar tormentos, pesadelos, maus bocados (gostava dessa expressão, a qual imprimia sotaque português “adquirido” de algum poema antigo ou nada disso).

Fechava os olhos (sala vazia. Sofá velho, pequeno, sujo. Estante enferrujada, cheia de livros, discos de vinil e traças. Livros e mais livros, aos montes, no chão, ao lado da estante. Mesa de madeira de quinta categoria e cadeiras sambadas – traziam para sua vida, e às raras visitas, indícios de civilização). Não ficava triste. Arrancava, sabe-se lá como, filosofia do coração sobressaltado para dizer: tudo é transitório e o que é, exatamente por ser como é, não vai ficar como está. Pensava: dialética, meu Deus, é isso, dialética, velho, dialética. Depois: ai, meu Deus, ai. Misturo ensinamentos orientais com velhas frases de efeito, para drama, para lirismo. Que mistura, Beneditus, mas que coisa essa, assim, lembrar Bertoldo – mexia a cabeça, censura.

Então fechava os olhos e dizia que sua casa era um jardim budista (ou taoísta), zennnnnnnn, zunnnnnnnn, zzzzzzzzzzzzz.

Quando ia muito além de suas aflições materiais e espirituais, dormia no chão frio (sempre mal varrido). Para se perdoar dos equívocos, erros, grosserias. Tinha certeza de estar fora de si e não se reconhecia – ou queria que isso fosse verdade. Melhor: mentira.

Não foi um tempo simples, leve. Ou de grandes gostos, intenções, vastas palavras. Dedicou-se, como um pragmático cego e obsessivo, a sobreviver. Primeiro as coisas brutas e materiais, depois as finas e espirituais, dizia o filósofo alemão Hegel (ou assim disseram que ele disse, ou assim se disse que Hegel disse, ou Hegel disse porque alguém disse). Pedia a Deus para que a luta não levasse o bom gosto e a inclinação para o refinamento (os gestos largos e afetivos, a delicadeza, a vida). Depois, ria.

Deus fez tudo que pôde.

Olhando assim fica revelada a vida modesta, sem surpresas, risos ou fatos inusitados. É verdade que da vida se espera um tanto em aventuras e desequilíbrios suficiente para justificar, ao cabo de uma existência, o suspiro final com o valeu a pena melancólico e perdido na falsa promessa do futuro além da imaginação.

Mas, saibamos: certos traços e peculiaridades hereditárias vêm de pai e de mãe. A ciência até aqui não mexe (nem entorna, nem muda). A combinação é segredo de um código ainda por decifrar. Não é mais difícil prever o que nascerá do morto-vivo com o vivo-morto – parece, é certo. Difícil – e aí está a questão – não é aceitar o destino. Duro é não poder imaginá-lo.

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