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Oncologia

Hugo Armelin recebe Prêmio Octavio Frias de Oliveira

Bioquímico da USP é reconhecido por seu trabalho sobre controle de multiplicação celular

No Instituto Butantan, onde coordena o Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular

Léo Ramos Chaves

No início da década de 1960, o bioquímico norte-americano Stanley Cohen (1922-2020), na Universidade de Washington em Saint Louis, nos Estados Unidos, observou que uma pequena proteína do veneno de cascavel acelerava a erupção dos dentes incisivos e a abertura das pálpebras em camundongos recém-nascidos. Ele a chamou de fator de crescimento epidérmico (EGF), mas o trabalho não avançou.

Como pesquisador visitante na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos Estados Unidos de 1971 a 1974, o bioquímico paulista Hugo Aguirre Armelin, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que o EGF poderia disparar a multiplicação de células de camundongos. Em 1986, ao receber o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, Cohen reconheceu esse trabalho, que elucidou a função dessa proteína no controle do ciclo celular.

Hoje (5/8), aos 81 anos, Armelin foi homenageado com o prêmio Octavio Frias de Oliveira, promovido pelo Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), na categoria Personalidade de Destaque em Oncologia, em reconhecimento a suas descobertas sobre a proliferação celular, cujo descontrole pode causar o câncer (veja abaixo os premiados na outras categorias).

Estímulos à multiplicação celular
Ainda na UCSD, ele descobriu o fator de crescimento de fibroblastos (FGF). Capaz de estimular a proliferação de células conhecidas como fibroblastos, que produzem fibras proteicas capazes de cicatrizar cortes e recompor tecidos, o FGF foi descrito em um artigo publicado na revista PNAS em 1973.

Em 1982, na Escola de Medicina de Harvard, ele e a bioquímica Mari Sogayar, também da USP, mostraram experimentalmente que o EGF e o FGF poderiam ativar o gene c-myc, um dos responsáveis pela formação de tumores. O microbiologista norte-americano John Michael Bishop, que havia descoberto o papel do c-myc no câncer no final da década de 1970, recebeu o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1989.

“Armelin trabalha sempre na fronteira do conhecimento”, conta o também bioquímico Paulo Lee Ho, pesquisador do Instituto Butantan. Eles conviveram na década de 1980 na USP, enquanto Ho fazia doutorado sob a orientação do bioquímico Ângelo Gambarini.

“Conhecer o ciclo celular é fundamental para compreender o câncer e desenvolver medicamentos para combatê-lo”, diz o médico Roger Chammas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e membro da comissão do prêmio.

No Butantan
Paulista de Capivari, no interior do estado, com sangue italiano, esloveno e espanhol, Armelin pretendia inicialmente estudar filosofia. Mas não passou nos exames e, em 1962, optou pelo curso noturno de história natural da USP. Depois, transferiu-se para o então recém-criado curso de ciências biológicas e aos poucos enveredou pela bioquímica e biologia molecular.

Em 2009, ao se aposentar da USP, Armelin mudou-se para o Instituto Butantan. Seu laboratório e outros formaram o Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP.

Sob sua coordenação, as equipes do CeTICs estudam os mecanismos de ação das toxinas do veneno de cobras no organismo, que poderiam levar à descoberta de novos medicamentos. Um dos trabalhos mais recentes do centro, liderado pelo biólogo Inácio Junqueira de Azevedo, foi o sequenciamento do genoma da jararaca (Bothrops jararaca), o primeiro de uma serpente brasileira, publicado na PNAS em maio de 2021.

Os premiados nas categorias Pesquisa e Inovação

Graduada em educação física, Patrícia Chakur Brum, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (Eefe-USP), coordenou a equipe que ficou em primeiro lugar na categoria Pesquisa em Oncologia do 12º Prêmio Octavio Frias de Oliveira, com um estudo que mostrou como o exercício físico intenso e regular pode deter a caquexia, inflamação que induz à perda de peso e agrava o câncer e outras doenças.

A equipe coordenada pelo biólogo João Machado Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ficou em segundo lugar, com um trabalho que identificou uma proteína associada ao agravamento da leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer das células do sangue, que indica novas possibilidades de tratamento.

O terceiro lugar coube ao grupo da química Maria Luiza Oliva, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com uma pesquisa sobre uma proteína extraída de sementes de árvores conhecidas como tamboril ou orelha-de-macaco (Enterolobium contortisiliquum), capaz de inibir a migração de células do câncer de mama, gástrico e de pele.

A médica veterinária Camila Meirelles de Souza Silva e colaboradores da Universidade Federal do Ceará (UFC) conquistaram o primeiro lugar na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia, com uma proposta para um novo exame diagnóstico de câncer colorretal.

Graduado em ciência da computação, Israel Tojal da Silva, com sua equipe do A.C. Camargo Cancer Center, ficou em segundo lugar. O trabalho premiado associa a capacidade de reparo do DNA com imagens de tumores, facilitando a escolha de tratamentos. O grupo da endocrinologista Debora Danilovic, da Faculdade de Medicina da USP, ficou em terceiro lugar, em reconhecimento a um mapeamento de genes alterados em um tipo raro de câncer de tireoide.

Os três ganhadores da categoria Pesquisa em Oncologia, os dois de São Paulo da categoria Inovação e o agraciado com o título de Personalidade do Ano em Oncologia, contaram com apoio financeiro da FAPESP. Cada vencedor receberá R$ 20 mil e um certificado. Neste ano, concorreram 42 trabalhos. A cerimônia de premiação realizou-se no dia 5 de agosto.

Artigos científicos
ALMEIDA, D. D. et al. Tracking the recruitment and evolution of snake toxins using the evolutionary context provided by the Bothrops jararaca genome. PNAS. v. 118, n. 20, e2015159118. 18 mai. 2021.
ARMELIN, H. A. Pituitary extracts and steroid hormones in the control of 3T3 cell growth. PNAS. v. 70, n. 9, p. 2702-6. 4 jun. 1973.
ARMELIN, H. A. et al. Functional role for c-myc in mitogenic response to platelet-derived growth factor. Nature. v. 310, n. 5.979, p. 655–60. 23 ago. 1984.

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