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Impacto na ciência

Inclusão de estudantes pretos e pardos no ensino superior reverbera na produção do conhecimento

Luana Vitra

Em sintonia com o aumento da presença de negros no ensino superior, diferentes áreas do conhecimento começam a considerar aspectos étnicos e raciais nas atividades de ensino e pesquisa. Enquanto em cursos da área de saúde um dos esforços tem sido estruturar disciplinas que levem em consideração doenças que acometem com mais intensidade pessoas negras, assunto que historicamente foi relegado a segundo plano, nas ciências humanas e sociais ganha impulso a revisão de conceitos estabelecidos a partir de referenciais teóricos exclusivamente europeus ou norte-americanos.

Uma das instituições mais impactadas pela adoção da política de cotas, conforme pesquisa realizada por Adriano Souza Senkevics, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), a UFRGS passou a oferecer, em agosto deste ano, no curso de medicina, uma disciplina voltada a questões étnico-raciais. Coordenadora das aulas, a bioquímica Maria Luiza Saraiva Pereira explica que a iniciativa deriva, em parte, de portaria do Ministério da Educação (MEC) editada em 2014, que indica que os currículos dos cursos de medicina devem incorporar visões éticas e humanistas da profissão. “Por outro lado, a disciplina busca atender demandas que surgiram com o ingresso de estudantes cotistas. Nela, abordamos tópicos que não são tratados no currículo tradicional da carreira, como doenças mais frequentes entre negros e indígenas, aspectos de suas culturas e da política nacional de saúde que afetam mais diretamente as suas vidas”, detalha. Ao lembrar de sua condição de pesquisadora negra em um estado em que a maioria da população é branca, Pereira destaca a importância de se levar debates sobre diversidade étnico-racial para dentro da sala de aula.

Em projeto de pesquisa, o antropólogo Rosenilton Silva de Oliveira, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), analisou os currículos de cerca de 390 cursos de pedagogia de instituições públicas do país, constatando que entre 1998 e 2018, embora a maioria não oferte uma disciplina obrigatória, boa parte deles incluiu a temática étnico-racial em seus programas. “Também identificamos que foram criados 552 grupos de pesquisa sobre diversidade, sendo 315 deles na área de educação. Em 2003, a Lei Federal nº 10.639 alterou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileiras nos currículos da educação básica, mobilizando a articulação de docentes, pesquisadores e agentes do movimento negro para discutir como colocar em prática essa determinação”, conta.

Segundo Oliveira, como tendência geral, atualmente no Brasil as ciências sociais e a educação têm desenvolvido reflexões que buscam transformar a maneira como o conhecimento é ofertado nas escolas, tendo como base matrizes africanas e indígenas. Um exemplo são as novas metodologias adotadas no ensino de línguas, como o inglês ou o francês, que passaram a incorporar como matriz linguística versões de idiomas falados em países africanos.

Na mesma direção, o sociólogo Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, da FFLCH-USP, tem proposto reflexões críticas sobre o conceito de modernidade. “Historicamente, a noção de processo civilizatório envolve o distanciamento de tudo o que não é europeu nem ocidental. No Brasil, caracterizou-se por esforços para ‘civilizar’ indígenas e negros, por meio da disseminação da cultura europeia”, observa. Em livro recém-publicado, Guimarães evidencia o desenvolvimento de outro conceito de modernidade que, no Brasil, começou a ser forjado por intelectuais negros a partir da década de 1930. Para refletir sobre esse conceito, entre outras referências, Guimarães se apoia no trabalho do sociólogo britânico Paul Gilroy, que discute a noção de modernidade a partir da história do chamado Atlântico negro. “Procuro desenvolver as ideias de Gilroy, evidenciando a existência de várias modernidades ligadas a tradições linguísticas e culturais das Américas. O conceito de modernidade negra envolve a ideia de descolonizar o país, buscando realçar a sua originalidade cultural”, propõe Guimarães.

A socióloga Bárbara Castro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que, historicamente, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) acolhe estudos sobre relações raciais no Brasil, porém nos últimos anos, motivadas pela ampliação da diversidade entre o corpo discente, foram incorporadas pesquisas que não apenas trabalham com a questão da raça como um objeto em si, mas partem dela para propor análises de diferentes aspectos da sociedade moderna. “Um grupo de pós-graduandos, sob orientação do sociólogo Mário Augusto Medeiros da Silva, trabalhou com arquivos históricos para analisar as formas de associativismo negro no pós-abolição, passando a compreendê-las como espaços fundamentais para produção da cidadania no país”, relata.

Primeiro da família a ingressar no ensino superior, o astrofísico Alan Alves-Brito, da UFRGS, coordena o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos (Neab), que congrega pesquisadores de áreas diversas, e estruturou uma disciplina para discutir questões de raça no campo da astrofísica. Entre os pontos abordados está o diálogo com saberes tradicionais de comunidades quilombolas e indígenas, a escassez de pessoas negras atuando na física e na astronomia e discussões sobre racismo científico. “Muitos estudantes negros provenientes de escolas públicas, como é o meu caso, não têm acesso à cultura digital. Eu sempre sonhei em ser astrofísico, mas considerava essa ideia uma possibilidade distante”, relata. De acordo com ele, a situação começou a mudar quando a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), cidade em que nasceu, passou a ofertar uma licenciatura em física, curso no qual se graduou. “Sou um dos únicos professores negros da UFRGS e, mesmo enfrentando desafios, isso me abriu possibilidades para criar pesquisas e disciplinas novas. Hoje, sou convidado para dar palestras sobre minhas pesquisas em astrofísica e diversidade na ciência em todo o mundo”, conta. Alves-Brito lembra, por outro lado, que não é possível realizar pesquisa em astrofísica sem análise estatística e computação. “A educação escolar contemporânea, que se baseia na quarta revolução industrial, só acontece em escolas privadas”, considera. “Setenta e três por cento dos trabalhadores do setor de tecnologia da informação são brancos”, informa, ao mencionar levantamento feito pela organização Potências Negras Tec.

Atento a esse desequilíbrio, Tarcízio Silva, que faz doutorado em ciências humanas e sociais na Universidade Federal do ABC (UFABC), procura compreender em que medida a tecnologia é moldada pela hierarquia racial. No esforço, apoia-se em pesquisa das cientistas da computação norte-americanas Joy Buolamwini e Timnit Gebru, que mostra como sistemas de identificação de características de gênero e idade enganam-se com mais frequência no caso de pessoas negras e, em especial, de mulheres negras. “Sistemas baseados em inteligência artificial têm sido adotados mesmo com taxas enormes de erros”, critica Silva.

Resultado de tese de doutorado defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e de pesquisa de pós-doutorado feita na PUC de Campinas, a psicóloga Simone Gibran Nogueira publicou em 2019, com apoio da FAPESP, o livro Libertação, descolonização e africanização da psicologia: Breve introdução à psicologia africana (Edufscar). “Sou branca, líbano-brasileira, e sempre me interessei por questões da cultura afro-brasileira. Minha motivação para estudar o assunto surgiu da constatação de que todas as referências bibliográficas da graduação em psicologia costumam ser de autores brancos, europeus ou norte-americanos”, relata. Nogueira cita pesquisa de 2012 do Conselho Federal de Psicologia que mostrou que 89% dos psicólogos em atuação naquele ano eram mulheres – 67% brancas e de classe média. Por outro lado, na mesma época, 70% das psicólogas brasileiras atuavam no serviço público de assistência social, educação e saúde, que tem como público majoritário pessoas negras.

“No Brasil, dentre as ciências humanas, a psicologia foi uma das últimas disciplinas a olhar para as populações de ascendência negra e indígena, algo que aconteceu mais sistematicamente somente no século XXI.” Partindo dessa realidade, Nogueira começou a estudar a psicologia de raiz africana, que surgiu como ciência acadêmica nos Estados Unidos há cerca de 50 anos. “Nesse campo de conhecimento, a Grécia não é considerada o berço do pensamento filosófico, mas sim o Egito Antigo e a África negra. Ao mobilizar esse conhecimento, desenvolvemos novas abordagens para tratar questões psicológicas”, compara.

Também em tese de doutorado, o engenheiro Elton Bernardo Bandeira de Melo, analista de planejamento e orçamento do Ministério da Economia, apontou a necessidade de inserção de negros e, principalmente negras, na área de planejamento, orçamento e finanças do governo federal, predominantemente ocupada por homens brancos. “Há uma sobrevalorização da dimensão fiscal sobre a social nas práticas orçamentárias do governo. Os instrumentos e as metodologias de planejamento não são orientados para enfrentar a questão racial”, pontua. Parte dos resultados da tese foi publicada como capítulo em livro organizado por Elaine de Melo Xavier, mestre em política social e analista de planejamento e orçamento do Ministério da Economia. “Ao incorporar perspectivas raciais e de gênero, especialmente a partir da década de 1990, estudos sobre planejamento, orçamento e finanças públicas evidenciam como as decisões econômicas têm reforçado essas desigualdades no país”, afirma. “Mulheres negras constituem o grupo social que, proporcionalmente, mais contribui em termos de arrecadação, mas ao mesmo tempo tem dificuldades em ver suas demandas por serviços públicos atendidas pelo orçamento.” Segundo Xavier, essas descobertas só foram possíveis porque a partir da década de 1990 pesquisadores da área de planejamento orçamentário passaram a incorporar questões étnicas, raciais e de gênero.

Para Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professor da FFLCH-USP, ignorar a diversidade impacta negativamente o desenvolvimento do país. Ele considera que 70% da população brasileira não tem acesso a condições adequadas de moradia, educação, transporte e saúde. “Em situações precárias de subsistência, dificilmente talentos são revelados”, pondera, citando estudo realizado pela Agência da USP de Gestão da Informação Acadêmica, feito a partir de base internacional de dados. De acordo com a pesquisa, o Brasil ocupa o 11º lugar no ranking de países com mais publicações científicas sobre a Covid-19, em todo o mundo. “Alcançamos essa posição com apenas 30% da população vivendo em condições adequadas para revelar e desenvolver talentos. Se tivéssemos 100% das pessoas nessas circunstâncias, certamente nossa produção acadêmica estaria mais avançada”, defende Janine Ribeiro.

Projetos
1. Conexões epistêmicas e estéticas na formação de educadoras(es) brasileiras(os) e sul-africanas(os) para a construção de uma educação antirracista (nº 20/06481-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Rosenilton Silva de Oliveira (USP); Investimento 135.527,55.
2. Políticas de Ações Afirmativas e Descolonização da Psicologia: contribuições do pensamento crítico africano. (nº 15/11419-8); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Raquel Souza Lobo Guzzo (PUC); Beneficiária Simone Gibran Nogueira; Investimento 290.136,14.

Livros
GUIMARÃES, A. S. A. Modernidades negras – A formação racial brasileira (1930-1970), São Paulo: Editora 34, 2021.
NOGUEIRA, S. G. Libertação, descolonização e africanização da psicologia. Breve introdução à psicologia africana. São Paulo: EdUFSCar, 2019.
XAVIER, E. M. (org.). Gênero e raça no orçamento público brasileiro. Brasília: Assecor, 2020.

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