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Inovação perde fôlego no país

Nova edição da Pintec, do IBGE, mostra que o percentual de empresas que inovam caiu de 36% para 33,6% do total entre 2014 e 2017

Linha de produção da Fiat Chrysler em Goiana, Pernambuco

Rafael Neddemeyer/ Fotos Públicas

A Pesquisa de Inovação (Pintec) de 2017, divulgada no dia 16 de abril pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou uma queda no esforço de inovação das empresas brasileiras, motivada pela retração na economia em meados da década passada. Entre 2015 e 2017, 33,6% de um universo de 116.962 empresas brasileiras privadas e públicas pesquisadas – vinculadas aos setores industrial, de serviços e de eletricidade e gás – fizeram algum tipo de inovação em produtos ou processos. Essa porcentagem, denominada taxa geral de inovação, ficou 2,4 pontos percentuais abaixo da alcançada no triênio de 2012 a 2014, quando atingiu 36% das empresas. O patamar é inferior aos 35,7% obtidos entre 2009 e 2011 e aos 38,6% entre 2006 e 2008. Outros indicadores da Pintec também registraram recuos. O investimento em atividades inovativas respondeu por 1,95% da receita líquida das empresas analisadas, ante 2,5% no triênio anterior. Também houve uma redução no percentual de empresas que receberam algum incentivo do governo para inovar, de 39,9% na pesquisa anterior para 26,2% na atual.

A queda se concentrou nas inovações de processo, aquelas que reduzem custos e a complexidade na produção, melhorando os resultados da companhia. A proporção de empresas que inovaram apenas em processos caiu de 17,5% em 2014 para 14,8% em 2017, enquanto as que inovaram apenas em produtos subiu de 3,9% para 5,1%. Já o percentual das que inovaram tanto em produto como em processo caiu de 17,5% para 14,8% de uma pesquisa para a outra. Inovações de processo tradicionalmente são o tipo mais comum de inovação nas empresas brasileiras e eram obtidas, em grande medida, por meio da aquisição de novos equipamentos, estratégia que perdeu espaço entre 2014 e 2017. Segundo a pesquisa, o financiamento à compra de máquinas e equipamentos, um importante mecanismo de incentivo do governo à inovação nas empresas, beneficiou 29,9% entre 2012 e 2014 e apenas 12,9% entre 2015 e 2017. No segmento da indústria, esse instrumento foi utilizado por 14,1% das empresas pesquisadas, ante 31,4% no triênio anterior.

Os dispêndios realizados pelas empresas para inovar concentram-se em três tipos de atividade: aquisição de máquinas e equipamentos, investimentos em atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e investimentos em atividades externas de P&D. No setor industrial, o peso da aquisição de máquinas diminuiu tanto que, pela primeira vez na série histórica da Pintec, esse item caiu para a segunda posição, sendo superado pelos gastos com P&D interno. “As empresas brasileiras consideraram os riscos econômicos excessivos e o elevado custo da inovação como os principais problemas e obstáculos para inovação nesse período”, afirmou Flavio José Marques, economista do IBGE, em depoimento gravado em vídeo no site do IBGE.

Na avaliação da economista Fernanda de Negri, coordenadora do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a queda nos indicadores era uma consequência já esperada da retração econômica, mas foi agravada por alguns fatores. Um deles foi a redução drástica dos investimentos em P&D da Petrobras. “A Petrobras era responsável, sozinha, por 10% dos investimentos nacionais em P&D em 2014, mas cortou esses investimentos quase à metade entre 2014 e 2017”, afirma.

Outro agravante foi o enxugamento de políticas públicas que garantiam financiamento à inovação. Segundo nota técnica sobre os resultados da Pintec divulgada pelo Ipea, o crédito desembolsado para inovação pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) caiu de R$ 8 bilhões em 2014 para R$ 4,3 bilhões em 2017. “Já a subvenção a projetos de inovação, um dos principais instrumentos de fomento à inovação da Finep e o mais adequado para inovações de maior risco, virtualmente desapareceu em 2017”, diz De Negri. Uma exceção foi a chamada Lei do Bem, que beneficiou 4,3% das empresas, ante 3,2% no triênio anterior. “Mas mesmo a Lei do Bem foi menos utilizada do que poderia, porque nesse período houve grandes incertezas sobre se continuaria a existir ou não.” Segundo a economista, o resultado não foi pior graças ao desempenho de setores como o aeronáutico, devido aos investimentos de P&D na Embraer no período, e o químico.

Na Pintec de 2014, observa De Negri, já havia um viés de recuo dos investimentos, mas os números gerais foram compensados pelo bom desempenho do segmento de telecomunicações. “Constatamos, na época, que os investimentos feitos pelas teles foram impulsionados pela organização de grandes eventos como a Copa do Mundo”, explica. Tais investimentos não se repetiram entre 2015 e 2017, mas isso poderia ter sido diferente, na avaliação da economista. “Se a regulamentação das redes 5G não tivesse atrasado, os investimentos em inovação para implantar as novas tecnologias teriam sido maiores no período.” Um dado positivo da pesquisa foi o crescimento da participação feminina em atividades de P&D de empresas inovadoras, que aumentou de 20,9% em 2014 para 23,6% em 2017.

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