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Instituto Butantan vai produzir vacina contra meningite C

Ao mesmo tempo em que dá seguimento, junto com o Instituto Adolfo Lutz e a Fundação Oswaldo Cruz, à pesquisa para formulação de uma vacina brasileira contra a meningite B, o Instituto Butantan prepara-se para produzir até o final deste ano, em escala comercial e com tecnologia própria, uma vacina contra a meningite C. A produção só não pode ser iniciada imediatamente porque é preciso concluir a construção do prédio previsto para a nova atividade no Instituto e adequá-Io às normas de fabricação de medicamento injetável do GMP (Good Manufacturing Practices).

Feito isso, o Butantan começará a contribuir para suprir a falta, no mercado nacional, de uma vacina contra meningite C fabricada no país, provocada pela interrupção da produção da Fundação Oswaldo Cruz, Fiocruz, desde o ano passado. A vacina fornecida pela instituição do Rio de Janeiro tinha por base tecnologia transferida nos idos de 73/74 pelo Instituto Mérieux, da França. O produto desenvolvido pelo Instituto Butantan, com apoio da FAPESP, inovou essa tecnologia em etapas decisivas do processo de obtenção do polissacarídeo capsular, ou seja, o antígeno, aquilo que provoca a reação do sistema imunológico à doença.

“Desenvolvemos um método alternativo para a purificação do antígeno, o polissacarideo capsular da bactéria Neisseria meningitidis C “, resume a pesquisadora Martha Massaro Tanizaki, aproveitando para informar que já foi solicitada ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial, INPI, a patente do novo processo. Esse resultado, embora tenha aparecido no âmbito de um projeto desenvolvido com apoio financeiro da FAPESP entre 1994 e 1996 (auxílio à pesquisa), na verdade se enraíza num esforço que já vem de longa data.

Mais precisamente, foi em 1989 que o Ministério da Saúde decidiu que havia chegado o momento de desenvolver uma vacina brasileira contra meningite, depois de o país ter vivido alguns percalços com importações do produto, exigidas por epidemias da doença -as mais famosas são a de 1971, do grupo C, enfrentada com a vacina do Instituto Mérieux, e a de 1982, do grupo B, atacada com a vacina cubana. A partir da decisão federal, o Butantan, o Adolfo Lutz, e a Fiocruz, engajaram-se na proposta, concentrados na busca da vacina do sorogrupo B. Mas no decorrer do processo, sem deixar de lado o trabalho com a vacina B, o Instituto Butantan, isoladamente, decidiu investir no aperfeiçoamento do método de obtenção do antígeno da meningite C.

Eliminando gargalos
Traçado esse objetivo, a equipe de pesquisadores do Butantan começou por modificar o método de purificação do antígeno, o polissacarídeo C, para livrá-lo dos contaminantes: proteínas, ácidos nucléicos (DNA e RNA) e LPS (lipopolissacarídeos), ou seja, a endotoxina que injetada no organismo produz febre, náusea e vômitos, entre outros desagradáveis efeitos colaterais. Para eliminar as proteínas, os pesquisadores usaram não o fenol, como manda o protocolo do Instituto Mérieux, mas protease.

“O fenol é tóxico, é supercorrosivo e no processo usado, todo manual, o material obtido das bactérias era extraído várias vezes com a solução de fenol. Nós o substituímos por incubação com uma mistura de proteases (enzimas proteolíticas) que digerem a proteína contaminante”, explica Martha Tanizaki. Em relação aos ácidos nucléicos, seguiu-se o procedimento recomendado pelo instituto francês, a precipitação com 25% de etanol. Mas uma vez que só com isso continuava alto o nível de contaminação, completou-se o processo, segundo Martha Tanizaki, usando-se uma enzima, a nuclease.

Na segunda etapa de purificação, visando a eliminação completa da endotoxina, os pesquisadores substituíram a ultra-centrifugação – método caro para produção em larga escala- por ultrafiltração tangencial. Martha Tanizaki dá detalhes sobre essa fase: “O que ocorre é o seguinte: a endotoxina (LPS) tem baixo peso molecular, mas como é hidrofóbica tende a formar agregados de alto peso molecular. O método do Mérieux mandava ultracentrifugar o material, com o que o LPS depositava, enquanto o polissacarideo ficava no sobrenadante”.

Em vez disso, os pesquisadores do Butantan usaram um detergente fisiológico (deoxicolato de sódio) para desagregar a endotoxina, até transformá-Ia em monômeros de baixo peso molecular. O material foi concentrado por ultrafiltração tangencial (na qual os filtros são colocados em posição vertical), retendo-se o polissacarideo e perdendo-se no ultrafiltrado, além dos monômeros de endotoxina, as proteínas e ácidos nucléicos que se tornaram de baixo peso molecular pela ação da protease e da nuclease.

A grande vantagem do processo é que os sistemas de ultra-filtração tangencial, além de serem mais econômicos que as ultracentrífugas, são ao mesmo tempo mais flexíveis, porque permitem que se trabalhe em uma faixa bem ampla de volumes: o mesmo equipamento está projetado para trabalhar, por exemplo, numa faixa de 10 a 100 litros. Um aumento ainda maior de escala pode ser obtido simplesmente aumentando-se o número de filtros.

Meta de crescimento
Quando iniciar a produção da vacina C, usando a mão-de-obra de apenas três funcionários e utilizando o fermentador de que já dispõe – de 80 litros, com capacidade de processamento de 60 litros -, o Butantan pretende fabricar 20 mil doses do produto por semana. Isso significa pouco mais de 1 milhão de doses anuais, o que, em caso de uma epidemia, é insuficiente para atender a demanda mesmo no Estado de São Paulo. Em 1990, por exemplo, foram aplicadas em todo o Estado 2,4 milhões de doses, na população de 3 meses a 6 anos, com uma cobertura de 92% desse grupo etário.

Mas está no projeto do Instituto a aquisição de um fermentador de 800 litros, o que pode aumentar a capacidade de produção em 10 vezes -chegando-se a um volume suficiente até para suprir a demanda nacional, na eventualidade de um surto. Para se ter uma ideia, a Coordenação Nacional de Doenças Imuno-Preveníveis solicitou à Coordenação Nacional do Programa de Imunização, para 1997, a disponibilização de um total de 10 milhões de doses de vacinas contra meningites A e C, prontas para uma eventual epidemia. “Elas estão aqui e até o momento, graças a Deus, não foi preciso usar nada”, diz a coordenadora do Programa de Imunização, doutora Maria de Lourdes Maia.

O projeto de pesquisa das vacinas contra meningites C e B teve até agora um custo de aproximadamente R$300 mil, segundo o diretor do Instituto Butantan, professor Isaías Raw. Nesse total, cerca de R$60 mil foram financiados pela FAPESP. As outras fontes financiadoras são o Ministério da Saúde, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e a FINEP, Financiadora de Estudos e Projetos através do PADCT, Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Já o prédio e os equipamentos para a produção das vacinas chegarão a um custo de cerca de R$l milhão, boa parte deles financiada pelo PADCT.

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