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Carta do editor | 41

Investindo em pesquisa em benefício da sociedade

A boa ciência e a tecnologia criativa têm sempre um fim social – mais imediato ou mais longínquo, mais claro ou mais encoberto, o que importa é que elas o têm. E entre outra leituras possíveis do material reunido nesta edição do Notícias FAPESP, ele certamente nos sugere essa da finalidade social das pesquisas científicas e tecnológicas e, por conseqüência, dos investimentos que lhes são destinados.

Tomemos por exemplo, a matéria de capa sobre o lançamento do Projeto Genoma Cana, no qual estão previstos investimentos de R$ 8 milhões. O relato dessa nova iniciativa da FAPESP, com apoio da Copersucar, mostra que o Brasil está entrando uma vez mais em uma área de ponta, e estratégica, da pesquisa científica internacional – a de genoma de plantas. E o faz ocupando, de saída, uma posição de liderança em relação às pesquisas de cana-de-açúcar, dados o porte de seu projeto e a sofisticação da tecnologia (ESTs) que está utilizando. Registre-se que essa liderança foi enfatizada pelos especialistas estrangeiros da área, que se reuniram na FAPESP, nos dias 12 e 13 de abril, e revelaram de pronto seu interesse em estabelecer parcerias com os pesquisadores de São Paulo.

Mas o projeto Genoma Cana, a par dessa espécie de internacionalidade científica que lhe confere um charme adicional, tem uma outra característica fundamental: seu profundo enraizamento na economia nacional. Como se sabe, o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar, responsável por 25% da produção mundial, dos quais 60% saem de São Paulo. Nesse Estado, a agroindústria da cana movimenta R$ 8 bilhões por ano e gera 600 mil empregos diretos.

Ora, são precisamente dados dessa natureza que demonstram que aumentar substancialmente o conhecimento sobre a cana-de-açúcar- até então não há genes identificados dessa planta -, descobrindo, por exemplo, genes responsáveis pelo metabolismo da sacarose ou pela resistência dessa gramínea a doenças e pragas, tem notórios efeitos sociais. Porque esse conhecimento pode permitir saltos incalculáveis nos programas de melhoramento genético da cana, nos quais o país já tem uma tradição de três décadas, capazes de levar a variedades com teor de sacarose muito mais alto e muito mais resistentes, com poderoso impacto direto sobre a renda do setor. E sabemos todos que um tal aumento de renda pode beneficiar não só empresários e trabalhadores desse setor mas irrigar a economia do país como um todo, que, se politicamente bem administrada, resulta sempre em indiscutíveis benefícios sociais.

Tomemos outro exemplo de pesquisa apresentada no material desta edição: o projeto temático sobre planejamento da operação de sistemas de energia hidrelétrica. As conclusões desse estudo apontam para uma possibilidade real de aumento da produção nacional de energia sem investimentos pesados em grandes obras de engenharia e sem problemas para o meio ambiente. Entendemos que, particularmente num momento em que o país se mostra carente de recursos, mesmo para investimentos essenciais, o patente significado econômico e social dessa pesquisa chega a dispensar maiores considerações.

Vale a pena perceber o sentido social do investimento em pesquisa também na matéria sobre um novo teste para detecção da cisticercose humana. Simples, prático, barato e eficiente, ele substitui um caro teste importado ou métodos muito mais complexos de diagnóstico, inacessíveis à população de baixa renda – justamente a mais atingida por essa doença transmitida pela carne de porco contaminada. E para concluir, sentido social, sentido de construção verdadeira e necessária da cidadania neste país, é o que se percebe como pano de fundo do projeto sobre educação dos povos indígenas que estamos noticiando.

Exemplos assim é que têm dado à FAPESP a tranqüilidade de reafirmar que aplicar dinheiro em ciência e tecnologia não é gasto, é investimento. É formação de PIB.

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