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Geologia

Istmo do Panamá teria se formado há 2,8 milhões de anos

Estudo reafirma idade do aparecimento da ponte de terra que liga a América do Norte à do Sul

Photo Aaron O'Dea

Aaron O'Dea Basaltos do Mioceno emergem do oceano na costa pacífica do istmo do PanamáAaron O'Dea

O surgimento do istmo do Panamá, estreita porção de terra que liga a América do Norte à do Sul e separa o oceano Pacífico do Atlântico, teria ocorrido há cerca de 2,8 milhões de anos — e não entre 23 e 6 milhões de anos atrás, como alguns trabalhos recentes têm defendido. Essa é a principal conclusão de um estudo internacional coordenado por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Tropical Smithsonian do Panamá e publicado em 17 de agosto no periódico científico Science Advances. O trabalho, que conta com a participação de pesquisadores de universidades brasileiras, baseia-se em uma ampla reanálise de dados geológicos, paleontológicos, oceanográficos e moleculares.

As informações elencadas pelos autores do artigo corroboram a ideia, proposta primeiramente nos anos 1970, de que o istmo se completou há pouco menos de 3 milhões de anos. “As evidências de que a origem do istmo seria mais antiga do que essa data são inconclusivas”, afirma o paleontólogo Mario Cozzuol, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que contribuiu com o paper por meio da análise da história evolutiva dos mamíferos na parte mais setentrional da América do Sul. “Nessa região, com algumas exceções, praticamente não há fauna originária da América do Norte antes desse período.”

É verdade que alguns mamíferos, como quatis, mão-peladas e roedores da subfamília Sigmodontinae, oriundos do norte, parecem ter pisado na América do Sul há mais tempo do que os supostos 3 milhões de anos atribuídos ao istmo, como é destacado em certos trabalhos científicos. Também há registros de que a entrada na América do Norte de preguiças, originárias da porção meridional do continente, seria mais antiga do que a data clássica de formação do istmo. Cozzuol não contesta esses dados, mas também não os interpreta como uma evidência cabal de que a passagem por terra, cruzando o Caribe, se formou muito antes do que se imagina.  “Esses animais cruzam facilmente corpos d’água e podem ser transportados em porções de terras que são levadas pela correnteza de uma margem a outra de um rio ou mar”, explica. “Esse processo é bem documentado.”

A formação do istmo é um evento importante para entender as características evolutivas da fauna e da flora nas Américas e nos oceanos que as circundam. Em terra firme, o surgimento do istmo facilitou a migração de espécies oriundas do norte para o sul e vice-versa. Esse movimento de plantas e animais ficou conhecido como o Grande Intercâmbio Americano. Nos mares, o efeito foi o contrário: o istmo separou, na região do Caribe, as espécies do Atlântico das do Pacífico, criando um obstáculo natural que também alterou o regime das correntes marítimas.

Na década de 1970, amostras de camadas geológicas retiradas do fundo do mar indicaram que o istmo teria surgido por volta de 3 milhões de atrás. Nessa época, o deslizamento de placas tectônicas do Pacífico (Nazca e Cocos) sob as do Caribe e da América do Sul, processo que continua até hoje, teria levado à formação do arco vulcânico do Panamá. Nessa época, a ligação física do norte e do sul estaria consolidada.  “O fechamento do istmo não foi, de fato, um processo súbito. Antes de ter ocorrido o completo isolamento do Atlântico e do Pacífico, formou-se um complexo de ilhas que devem ter servido de barreira parcial entre os dois oceanos”, comenta o paleontólogo marinho Orangel Aguilera, da Universidade Federal Fluminense (UFF), outro coautor do novo artigo, que estudou os peixes fósseis das bacias sedimentares de América Tropical. “Mas é muito controverso dizer que o istmo já tinha se formado há 20 milhões de anos. Todas as evidências indicam que esse processo aconteceu há 2,8 milhões de anos.”

Novas análises genéticas sobre o tempo de divergência de 98 pares de espécies marinhas irmãs – uma habita hoje o lado pacífico do istmo do Panamá enquanto a outra vive na margem atlântica –ratificaram a cronologia mais clássica. Na maioria dos casos, de acordo com o artigo na Science Advances, ocorreu troca de genes entre as espécies irmãs até cerca de 3 milhões de anos atrás, quando, com a subida do istmo, a separação definitiva dos animais teria se estabelecido.

Os dois principais estudos que contestam a data mais aceita para o surgimento da ponte de terra interamericana foram publicados no ano passado. Um saiu na Science e sustenta que o istmo se formou entre 13 e 15 milhões de anos atrás. O outro foi publicado na PNAS e diz que a passagem terrestre norte-sul começou a ganhar forma 23 milhões de anos atrás e se completa entre 10 e 6 milhões de anos atrás.

Artigos científicos
O’DEA, A. et al. Formation of the Isthmus of Panama. Science Advances. 17 Aug 2016
BACON, C. D. et al. Biological evidence supports an early and complex emergence of the Isthmus of Panama. PNAS. v. 12, n. 19. p. 110–6115. 12 mai. 2015
MONTES, C. et al. Middle Miocene closure of the Central American Seaway. Science. v. 348, n. 6231, p. 226–229. 10 abr. 2015

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