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PESQUISA NA QUARENTENA

“Já participei de outros ensaios clínicos, mas neste há um ganho de experiência emocional muito forte”

Líder do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, o médico Licio Velloso, da Unicamp, relata o esforço de testar o efeito de duas drogas contra a inflamação pulmonar causada pela Covid-19

Licio Velloso em simpósio realizado na Unicamp em 2018

Antoninho Perri/Unicamp

Quando apareceram os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, fizemos uma reunião com os pesquisadores e alunos do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades [OCRC], que coordeno na Unicamp, e resolvemos aderir ao distanciamento social. O OCRC é um dos poucos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão [Cepid] apoiados pela FAPESP que funcionam em um prédio próprio e lá trabalham 70 pessoas. A recomendação foi que os alunos reduzissem os experimentos ao mínimo, mantendo apenas os que estavam em andamento até a sua conclusão. Também instituímos um sistema de rodízio para que não houvesse aglomeração nos laboratórios. O ideal é que os alunos compareçam sozinhos, no máximo em dupla, tomando cuidados como o uso de máscaras e mantendo distância. Essas medidas deram um ótimo resultado. A adaptação correu bem e o número de alunos e pós-doutorandos que ainda vão ao prédio é pequeno. Isso, claro, reduz o ritmo de produção científica e não desejamos manter essa situação por muito tempo. Vamos seguir dessa forma até o momento em que a curva de transmissão cair e for seguro voltar.

Todos foram orientados a aproveitar o tempo para concentrar esforços em leituras e na escrita de artigos. Nosso grupo fazia sempre duas reuniões presenciais por semana, que se transformaram em reuniões on-line. Normalmente, os alunos preparam uma apresentação em inglês sobre algum artigo científico relevante publicado recentemente e esse paper é discutido por todo o grupo. Depois, alunos com experimentos em andamento relatam seus progressos. Minha impressão é de que essas reuniões ficaram melhores e mais objetivas do que quando eram presenciais. Os alunos têm mais tempo para estudar e a qualidade das apresentações melhorou. Observo que eles trazem dados mais robustos para a mesa de discussão.

Sempre que se enfrenta uma crise é possível tirar algo positivo da experiência. Em meio à pandemia, deu para perceber que o trabalho a distância é bem mais efetivo do que a gente imaginava. Esse aprendizado vai permitir que, no futuro, poupemos tempo e dinheiro com viagens, combustível, trânsito. Não vejo mais necessidade de ir a São Paulo discutir um projeto novo com um colega ou de ele vir a Campinas. Tenho colaboradores da Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] e ia sempre ao Rio de Janeiro. Não creio que isso seja necessário com tanta frequência. A experiência do trabalho remoto vai ajudar a economizar dinheiro dos projetos. Minha rotina ficou, inclusive, mais produtiva. Dá para fazer a mesma coisa gastando menos tempo.

Um dos primeiros artigos sobre a Covid-19, publicado na revista The New England Journal of Medicine, mostrou o quanto condições prévias associadas a hipertensão, diabetes e doença cardiovascular estavam ligadas a uma evolução desfavorável do quadro de pacientes. Essas doenças são do interesse do nosso Cepid porque estão todas no espectro da obesidade, o tema com o qual o OCRC trabalha. Por isso, logo no início de fevereiro começamos a buscar interfaces da nossa pesquisa com a nova doença. Vi uma oportunidade de estudar a bradicinina. É uma substância que o nosso corpo produz normalmente sempre que entra em contato com microrganismos ou sofre um trauma físico ou químico, como uma queimadura. Ela também pode ser produzida em uma quantidade grande pelo organismo como resposta a processos inflamatórios e causar sepse.

Já foi demonstrado que o vírus se liga à enzima conversora de angiotensina 2 [ACE2] para ter acesso às células e se sabe que essa enzima tem um papel na degradação da bradicinina. A inibição da atividade da ACE2 causada pelo vírus pode dificultar a degradação da bradicinina, levando ao acúmulo dessa substância no pulmão e ampliando o processo inflamatório. Há casos em que a inflamação pulmonar aguda tem levado à morte em poucas horas alguns pacientes com Covid-19. Nossa hipótese de trabalho é: se a gente inibir a ação da bradicinina, talvez a inflamação pulmonar diminua.

Quase simultaneamente, a FAPESP começou a mobilizar os pesquisadores para estudar a Covid-19, abrindo a possibilidade para quem tivesse projetos nas modalidades Cepid e projetos temáticos de usar um pouco dos recursos nessa nova frente. Propusemos a ideia e a resposta foi muito rápida. Em pouco mais de uma semana, recebemos a sinalização positiva para utilizar os recursos no estudo da bradicinina. E logo depois a FAPESP abriu uma chamada emergencial para a qual submetemos uma proposta. Não é um projeto barato. As drogas que estamos usando são caras e não queríamos ter a participação de indústrias farmacêuticas, porque elas fazem exigências que podem distorcer o foco original. Nosso projeto foi aprovado já na primeira leva da chamada e está em andamento.

Mais ou menos um terço dos pacientes previstos para a primeira fase já foi incluído no estudo. Daqui a um mês já teremos todos da primeira fase recrutados. O protocolo determina que o ensaio seja feito apenas com pacientes graves. Eles têm de apresentar pneumonia grave típica da Covid-19 e testar positivo para o vírus Sars-CoV-2. Mantemos dois radiologistas de pulmão emitindo laudos sobre os pacientes que chegam ao Hospital de Clínicas da Unicamp e uma outra equipe trabalhando para coletar material da cavidade oral para fazer o exame de PCR. O resultado do teste demora quatro horas. Nesse meio tempo, o paciente vai para a radiologia e faz a tomografia. Os especialistas então avaliam se a pneumonia tem características de Covid-19. Se tiver e o resultado do PCR for positivo, analisa-se ainda um último critério para inclusão, que é a avaliação da oxigenação do sangue. Caso a saturação esteja abaixo de 94%, ele pode participar do ensaio. Pedimos, então, autorização para a família. O Conep [Conselho Nacional de Pesquisa], órgão que regulamenta os estudos clínicos no Brasil, nos obriga a ter essa autorização por escrito.

Os pacientes são distribuídos de forma aleatória em um dos três braços do estudo. Um grupo recebe uma droga chamada Icatibanto, que é um inibidor de um dos receptores da bradicinina. O outro grupo recebe outra droga, chamada Berinert, inibidor da síntese de bradicinina. E o terceiro grupo, de controle, não toma nenhuma das duas drogas. Essas pessoas recebem o mesmo tratamento padrão que receberiam se não estivessem participando do ensaio. Serão avaliados 30 pacientes, um em cada braço, e o estudo deve ser concluído em no máximo dois meses.

Essas duas drogas são utilizadas há cerca de cinco anos para tratar uma doença rara, chamada angioedema hereditário. São drogas avançadas do ponto de vista tecnológico. Antes delas, essa doença quase não tinha opção de tratamento. Quando se tem uma crise grave como essa, procura-se ganhar tempo testando a eficiência de drogas já em uso para outras doenças. É confortável avaliar essas drogas, porque elas já passaram por todos os testes clínicos de segurança.

Somos 15 pesquisadores atuando nesse projeto. Eu já tinha participado de outros estudos clínicos, mas esse é diferente. Estamos dentro do hospital e vemos como o ambiente mudou para enfrentar uma doença tão grave. Os médicos estão cuidando dos pacientes e sabem que estão sujeitos a se contaminar. Há um ganho de experiência emocional muito forte. A equipe do projeto já estava montada quando dois profissionais saíram. Uma estudante decidiu abandonar a residência e um pós-doc resolveu não participar porque não se sentiram preparados para enfrentar o estresse. Nunca fui uma pessoa emotiva, mas o comprometimento e os relatos dos que trabalham no projeto são emocionantes.

Esse estudo está dando origem a vários outros. Um grupo associado do Instituto de Biologia está usando os dados do ensaio para fazer estudos sobre a avaliação da resposta imunológica dos pacientes e deve publicar o primeiro artigo derivado desse projeto. O braço cardiológico do Cepid está avaliando a estrutura e a função do coração nesses pacientes por exames de ressonância magnética. Além do tratamento com os inibidores, devem surgir pelo menos 10 estudos avaliando diferentes espectros ou consequências da doença nesses pacientes.

Minha rotina pessoal também mudou bastante. Tenho uma atividade clínica e de pesquisa grandes. Costumava passar 40% do meu tempo no hospital e 40% na sede do Cepid – o restante do tempo cuidava de outras tarefas e de aulas na graduação. Agora, fico a maior parte do tempo em casa, trabalhando no projeto e fazendo reuniões por vídeo. Vou ao hospital uma ou duas vezes por semana para conversar com os residentes e com a equipe. Ao prédio do Cepid só vou quando há algo de particular a fazer. Me adaptei bem, mas sei que está sendo difícil para muita gente. Meus colegas da psiquiatria já relatam um aumento nos casos de depressão.

Quem tem filhos pequenos está tendo a chance de conviver mais com eles, o que é bom. Meus filhos moram comigo, mas já são adultos, um é arquiteto e o outro cientista da computação, e não requerem muita atenção. Embora goste de cozinhar, costumava fazer a maior parte das refeições fora de casa. Agora estou tentando me aprimorar, principalmente em pratos de preparo rápido.

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