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Entrevista

João Batista Calixto: O articulador de fármacos nacionais

Farmacologista mineiro dedica a vida ao desenvolvimento de novos medicamentos

Calixto: a indústria farmacêutica brasileira surgiu a partir da produção de medicamentos genéricos e não tem como prioridade a inovação

Léo Ramos Chaves

Nascido há 70 anos na pequena Coromandel, no oeste de Minas Gerais, e radicado desde os anos 1970 em Santa Catarina, João Batista Calixto é um dos poucos pesquisadores brasileiros que ostentam no currículo a participação no desenvolvimento de dois medicamentos inovadores – um deles o anti-inflamatório Acheflan, a primeira droga totalmente produzida no país, considerando todas as etapas, da pesquisa básica à comercialização – e um produto cosmético lançado pela Natura. Defensor da inovação na área da saúde, dedicou a vida ao estudo e à criação de novos fármacos.

“Desenvolver medicamentos é uma paixão”, afirma o farmacologista, que há seis anos se aposentou da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para montar e assumir a direção do Centro de Inovação e Ensaios Pré-clínicos (CIEnP), em Florianópolis. Financiado pelo governo federal, o centro faz estudos de eficácia e segurança de moléculas com potencial terapêutico, por meio de ensaios in vitro e modelos animais, etapas fundamentais do processo de desenvolvimento de novos medicamentos.

Autoridade no estudo de princípios ativos de plantas, Calixto é autor de mais de 300 artigos científicos, que já receberam cerca de 16 mil citações. Durante 37 anos, lecionou na UFSC, onde coordenou um laboratório especializado em ensaios pré-clínicos e ainda atua como professor colaborador. Na entrevista a seguir, concedida nas modernas instalações do CIEnP, o pesquisador falou das dificuldades de inovar no setor de fármacos, sobre o momento atual da ciência brasileira e deu detalhes sobre os produtos que criou.

Quais são os atuais desafios na área farmacêutica?
O principal é criar medicamentos para as chamadas doenças multigênicas, enfermidades crônicas e complexas, como Alzheimer, mal de Parkinson e câncer. Elas resultam do processo natural de envelhecimento e implicam múltiplos alvos farmacológicos, ou seja, muitos processos biológicos a serem controlados. Outras doenças têm apenas um alvo e podem ser tratadas por apenas uma droga, em geral mais simples e fácil de produzir. Medicamentos para doenças multigênicas foram criados nas últimas décadas do século passado. O investimento necessário para fazer drogas mais complexas sobe de forma exponencial e o custo final também – já há tratamentos baseados em terapia gênica custando US$ 2,3 milhões. A inovação em saúde é a mais cara do mundo e difícil de fazer por ser muito complexa e extremamente regulada. Desenvolver um novo medicamento pode levar de 10 a 15 anos e custar mais de US$ 1 bilhão, com uma probabilidade de acerto de 1%. A imensa maioria das moléculas morre pelo caminho. Poucos países, entre eles Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Suíça e Japão, dominam o processo da descoberta à comercialização.

O Brasil pode se inserir nesse grupo?
É muito difícil para o país desenvolver medicamentos tão caros e complexos. Estamos em outro estágio. Temos que tratar as doenças decorrentes do envelhecimento e, ao mesmo tempo, as antigas, inclusive as negligenciadas e endêmicas, como malária, Chagas e esquistossomose. Continuamos pagando royalties por remédios mais simples, criados nas décadas passadas. O que conseguimos fazer bem foram os medicamentos genéricos, mesmo assim importando matérias-primas. O déficit da área farmacêutica na balança comercial, incluindo remédios antigos, matérias-primas e drogas novas, supera US$ 10 bilhões por ano. É mais do que a renda gerada pela agricultura no Mato Grosso, um dos maiores produtores do país.

Em que o país deveria investir?
Deveríamos apostar no desenvolvimento de vacinas e medicamentos tradicionais oriundos da biodiversidade e em inovações incrementais. Precisamos investir em uma indústria que se torne minimamente competente e consiga reduzir o déficit na balança comercial e contribuir para a sustentação do SUS [Sistema Único de Saúde]. Usamos muito dinheiro para importar todo tipo de medicamento e, ao mesmo tempo, estamos lutando para dar conta de novos problemas da área. Em nosso atual estágio de articulação entre centros de pesquisa, governo e empresas, tentar criar drogas para doenças mais complexas é uma batalha perdida. Enquanto a indústria farmacêutica da Europa e dos Estados Unidos valoriza a inovação e assume riscos, as nossas surgiram a partir da cópia e, portanto, não têm a inovação como prioridade.

Como assim?
Muitos donos de grandes laboratórios nacionais vendiam medicamentos e se tornaram empresários. Hoje, faturam alto com genéricos e biossimilares. Somos o sétimo maior mercado farmacêutico e, como a renda do brasileiro ainda é baixa, há espaço para crescer. A maioria das multinacionais farmacêuticas está aqui e o governo, por meio do SUS, é o maior comprador. O empresário brasileiro não sente necessidade de inovar e, por isso, fica limitado ao mercado local. Esse cenário só vai mudar quando surgirem inovadores jovens. Seria bom termos um unicórnio [startup com valor igual ou superior a US$ 1 bilhão] na área farmacêutica.

O que falta para isso?
O ambiente de inovação nessa área ainda não está sedimentado no Brasil. Os poucos que investem em empresas nascentes no país nem sempre sabem das dificuldades para colocar uma nova droga no mercado. Há problemas também no sistema regulatório, embora ele venha evoluindo. E os pesquisadores em geral não conhecem as exigências legais necessárias para lançar um produto novo no mercado. Com isso, perdem tempo e dinheiro com testes desnecessários. Mesmo assim, temos bons projetos, embora a maioria seja de inovação incremental, que é a melhoria de um produto já existente.

Algumas farmacêuticas brasileiras estão abrindo unidades de P&D fora do país, onde o ambiente de inovação é mais amigável

O que faz o CIEnP?
O CIEnP foi inaugurado em 2014 para fazer ensaios in vitro [em células] e estudos pré-clínicos [em modelos animais] de novas moléculas, duas das fases do desenvolvimento de fármacos e cosméticos. Financiado pelos ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações e pelo governo de Santa Catarina, o centro faz parcerias com universidades, institutos de pesquisa, start-ups e empresas. Temos várias colaborações focadas em inovação incremental, mas a inovação radical, aquela que custa US$ 1 bilhão, é difícil de fazer. Aqui não fazemos pesquisa acadêmica, só inovação. Temos um biotério de roedores de padrão internacional e 35 funcionários, sendo 12 com doutorado e cinco com mestrado. A montagem do CIEnP custou por volta de R$ 30 milhões. O governo federal nos financia desde o início por não sermos ainda autossustentáveis – no melhor momento, o que faturamos correspondeu a 28% do orçamento. Nosso custo anual é de cerca de R$ 6 milhões. Em razão das dificuldades econômicas do país, houve uma redução brutal na procura pelos nossos serviços em 2019.

Que estratégia adotaram quando as encomendas caíram?
Quando caiu a procura por nossos serviços, basicamente ensaios farmacocinéticos [que determinam como a droga é absorvida e metabolizada pelo organismo], de segurança e eficácia de novas drogas e compostos, revimos nosso escopo de atuação e decidimos dar um passo atrás. Passamos a desenvolver nossos próprios produtos para depois transferi-los para alguma empresa farmacêutica do Brasil ou do exterior. No momento estamos negociando dois produtos, um fitoterápico e um cosmético. Se o acordo for fechado, receberemos royalties pela primeira vez. Também trabalhamos para a organização não governamental DNDi [Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas]. Há dois anos fazemos estudos pré-clínicos de várias moléculas. Tem também um produto inovador obtido da casca da catuaba [Trichilia catigua], estudado por nosso grupo na UFSC há mais de 15 anos. É um trabalho com o Catarinense Pharma, antigo Laboratório Catarinense, parceiro de longa data. Destina-se a tratar depressão leve e moderada e está na fase final de estudo clínico. Se os ensaios transcorrerem bem, o medicamento deverá ser lançado nos próximos anos.

Como foi sua participação no desenvolvimento do fitoterápico Acheflan?
Quando vim para Santa Catarina, em 1976, praticamente não havia no estado uma visão de ciência nem mesmo uma fundação de apoio à pesquisa. Com isso, resolvi fazer parcerias com a iniciativa privada. A primeira foi com o então Laboratório Catarinense, especializado em fitoterápicos, e rendeu frutos e patentes. No fim da década de 1990, começou no país a onda dos genéricos. O laboratório Aché decidiu que não iria fazer genéricos, mas, sim, um projeto de inovação com base em plantas da nossa biodiversidade. Por causa da minha experiência com o Catarinense Pharma, fui convidado a fazer parte do grupo. Começamos a trabalhar com 10 plantas brasileiras, entre elas a Cordia verbenacea, conhecida popularmente como erva-baleeira, da qual são extraídos os princípios ativos com ações analgésicas e anti-inflamatórias do Acheflan. Era a planta em que a empresa depositava mais esperanças e foi a primeira a dar resultados. Fizemos os estudos pré-clínicos. Em 2005, após 7,5 anos de trabalho, US$ 7,5 milhões em investimentos e aprovação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], o produto foi lançado. Foi o primeiro medicamento totalmente feito no Brasil, considerando todas as etapas de desenvolvimento. Desde que foi lançado, o Acheflan tornou-se a droga mais vendida no país em sua especialidade, a de analgésicos e anti-inflamatórios de uso tópico. Em dois anos e meio, a receita gerada pela venda pagou o investimento feito nas 10 plantas estudadas.

Como explica esses resultados?
Só aconteceram por causa da paixão de um dos donos do Aché, Victor Siaulys, pela inovação. Ele falava abertamente que não queria morrer sem criar um medicamento inovador. Costumava dizer que, apesar de ter criado um grande laboratório, um dos produtos que ele mais vendia, o descongestionante nasal Sorine, era muito simples. Seu princípio ativo é cloreto de sódio [sal].

Além desse, fez outros produtos que chegaram ao mercado?
Sim, outros dois. Um deles foi um cosmético para a Natura. Em 2005, a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] lançou um edital para financiar medicamentos inovadores. A Natura havia acabado de comprar o laboratório Flora Medicinal, fabricante de fitoterápicos, e chamou nosso grupo da UFSC para estudar melhor um calmante cuja licença da Anvisa estava vencida. O produto era uma mistura de duas plantas, sendo uma delas da família dos maracujás. Tentamos por um tempo, mas não achamos o efeito tranquilizante esperado. No decorrer do estudo, porém, vimos efeitos importantes em uma dessas plantas e sugerimos que tentássemos criar um cosmético, em vez de um remédio. O trabalho resultou em um creme da linha Chronos, o Flavonoides de Passiflora. Esse cosmético rendeu uma patente na Europa e vendeu muito no Brasil. Foi a primeira vez que a UFSC recebeu royalties de um projeto de transferência de tecnologia.

E o outro?
Foi um calmante criado pelo Aché a partir daquela lista de 10 plantas com as quais começamos a trabalhar nos anos 1990. Esse fitoterápico, chamado Sintocalmy, foi feito a partir de outra espécie de maracujá, Passiflora incarnata. Estudamos a planta, desenvolvemos o produto e o apresentamos na forma de comprimido. O Aché fez um estudo clínico comparativo com o calmante e ansiolítico Diazepam e os resultados foram bons. O fitoterápico foi registrado em 2010 pela Anvisa e hoje vende tanto quanto o Acheflan. Desde que foram lançados, os dois já renderam mais de US$ 500 milhões. Novamente, com minha equipe do Laboratório de Farmacologia Experimental da UFSC, coordenei os estudos pré-clínicos.

Como fez os ensaios pré-clínicos desses fármacos?
Com muita dificuldade. A universidade não tinha laboratórios apropriados, profissionais totalmente qualificados nem animais de qualidade. Essa experiência fez com que eu fosse convidado pelo governo federal a montar o CIEnP. Mas é preciso deixar claro que só fizemos essas inovações porque tínhamos feito muita ciência básica e publicado muitos artigos científicos e dominado tecnologias de fronteira na área.

Os testes para aprovação de fitoterápicos são mais simples do que os exigidos para registro de moléculas sintéticas? 
As etapas de desenvolvimento são basicamente as mesmas, mas o processo para criar um fitoterápico é, sim, mais simples – e a taxa de sucesso é maior. Em grande parte das vezes, a planta que origina o medicamento já é usada pela população há muito tempo. Você não começa do acaso, mas de um conhecimento acumulado. Já as novas moléculas sintéticas nunca foram testadas. As chances de um produto feito de plantas ser mais seguro também são superiores. Muitas moléculas químicas não resultam em novas drogas por serem tóxicas e não por serem ineficazes. As plantas também podem ser tóxicas, mas é menos frequente.

Eduardo Cesar Erva-baleeira, planta que serviu de base para o desenvolvimento do Acheflan, primeiro medicamento totalmente feito no paísEduardo Cesar

Qual é o papel dos produtos naturais em meio às estratégias de desenvolvimento de medicamentos?
São muito importantes. Cerca de 35% do mercado global de medicamentos, estimado em mais de US$ 1,2 trilhão por ano, resulta direta ou indiretamente de produtos naturais – plantas, animais e microrganismos. Todos os antibióticos foram produzidos inicialmente a partir de fungos e outros microrganismos. Por volta de 60% dos remédios para tratar câncer são derivados de produtos naturais. Daí a importância deles. Fala-se muito do potencial da biodiversidade da Amazônia, mas não podemos esquecer da Mata Atlântica e do Cerrado. A biodiversidade é uma das poucas áreas em que o Brasil leva vantagem em relação ao resto do mundo. Temos uma rica biodiversidade, água em abundância e espaço para plantar.

Quais são as vantagens e dificuldades de trabalhar com as empresas no desenvolvimento de novas moléculas com potencial terapêutico?
As empresas dessa área raramente contratam doutores ou contratam muito pouco. A maioria não tem um núcleo de pesquisa e desenvolvimento [P&D] forte. Com isso, durante o desenvolvimento de uma nova droga, é preciso negociar com o dono da empresa ou, eventualmente, com o diretor clínico. Boa parte das decisões sobre o projeto passa pelo dono do laboratório. Além de atrasar o processo, a qualquer momento ele pode decidir interromper o trabalho. Além disso, os laboratórios nacionais não têm um portfólio constante de inovação. Isso não é uma prioridade para eles – nem os culpo, pois há poucos estímulos à inovação no país e as dificuldades são muitas. Algumas farmacêuticas estão abrindo unidades de P&D fora do país, onde o ambiente de inovação é mais amigável.

Que balanço faz de sua vida profissional?
Em 2013, quando estava no auge da minha carreira acadêmica, aposentei-me da UFSC – onde ainda venho atuando como colaborador – para montar o CIEnP. Continuo lutando para ajudar o país a se desenvolver. Esse é o meu objetivo. Já recebi convites para trabalhar na indústria, mas recusei, porque montar um lugar como o CIEnP sempre foi um sonho. Desenvolver medicamentos e ajudar a inovação nas empresas é uma paixão. Sei que é possível. Já provamos isso.

Como vê as atuais dificuldades da ciência brasileira?
Os cortes orçamentários foram grandes e sem precedentes, mas sou otimista. Nessas horas, devemos focar no que realmente importa. O momento atual vai com certeza mudar nossa forma de pensar e fazer ciência. A inovação tecnológica muitas vezes ocorre em momentos de grandes dificuldades sociais e econômicas. Vamos sair dessa crise mais humildes, com mais capacidade de colaborar e apostando na qualidade em detrimento da quantidade.

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