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Resenha

Em busca da imagem perdida

Livro do sociólogo José de Souza Martins resgata a estética das sombras

José de Souza Martins. Edusp 184 páginas R$ 65,00

Vivemos a ilusão otimista de uma história de contínuo progresso e nos esquecemos, muitas vezes, de olhar para trás e perceber a realidade das ruínas, palavra que, sintomaticamente, nos causa, em geral, uma sensação incômoda. Em “Une Charogne”, de As flores do mal, Baudelaire foi direto ao nos alertar desse falso futuro feliz: “Então, querida, dize à carne que se arruína,/ Ao verme que te beija o rosto,/ Que eu preservarei a forma e a substância divina/ De meu amor já decomposto!”. Com um forte conceitual social e sociológico, o novo livro de fotografias de José de Souza Martins, lançado agora pela Edusp, traz, na sua capa, despojada, a imagem ideal do que se propõe essa belíssima reunião de fotografias do sociólogo e fotógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Sobre um fundo branco vê-se, envolto em névoas, o “portal do tempo”, imagem capturada por Souza Martins na Vila de Paranapiacaba. O autor, na introdução ao definir seu livro, vai igualmente direto ao ponto: “… é um livro de imagens recolhidas nos trajetos da decadência, nas emoções da finitude do que um dia pareceu inacabável e irreversível, nos monturos do muito”. De imediato, torna-se evidente a sua visão, sábia, de ver a fotografia como um meio de compreensão imaginária da sociedade, o que nos leva a abrir mão da ilusão de que o meio é um documento socialmente realista e objetivo. Aqui, trata-se de diálogos, conversas entre imagem e espectador, entre fotógrafo e objeto, entre passado e presente, entre sombras e luzes, entre silêncio e falas que colocam em xeque o positivismo otimista do capitalismo brasileiro triunfante.

José de Souza Martins vai em busca dos vestígios de uma era de esplendor industrial e nos mostra as ruínas que dela restaram. Isso, é claro, não significa que se trata de imagens de “coisas mortas”. Longe disso. Em cada imagem pulsa o sentimento da vida e o trabalho braçal que ali existiu e se extinguiu: “… pessoas invisíveis nos cenários vazios que me pediam a palavra”. São crônicas imagéticas às quais o sociólogo acrescentou textos seus em partes muito particulares. “As crônicas que acompanham estas fotografias nasceram no próprio instante em que fotografava, textos quase sempre no formato final. Como se o fotografar fosse bem mais do que mera artesania de produção da imagem. Os objetos não se propunham como puros objetos. Propunham-se também como fala potencial da coisa carente de múltiplas interpretações, negando-se ao fechamento interpretativo da leitura linear para propor-se no aberto do dramático de tudo que perece.” São imagens da Vila de Paranapiacaba decadente, da desativação da Fábrica de Linhas Pavão e a Cerâmica São Caetano, “ancião” arquitetônico que foi demolido após 90 anos.

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