
Caetano SoaresRepresentação artística de Sauropia macrorhinus juvenil, que seria menor que uma lagartixaCaetano Soares
Um pedregulho aparentemente insignificante revelou-se bastante precioso, com a ajuda de tecnologia inovadora. Ele continha o crânio fossilizado de um animal semelhante a um lagarto, o menor tetrápode – vertebrado com quatro membros – já descrito na América do Sul entre animais que viveram no Triássico Médio, um período anterior ao surgimento dos dinossauros. No caso, cerca de 240 milhões de anos atrás, conforme descrito em artigo publicado nesta semana (28/1) na revista científica Scientific Reports.
“Parecia uma concreção”, diz o paleontólogo Rodrigo Temp Müller, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), referindo-se a um aglomerado de pequenos grãos rochosos. “Mas o colega Lúcio Roberto da Silva, que estava com o exemplar, reconheceu a ponta de uma mandíbula e nos entregou para estudo.” Para conseguir examinar o fóssil que cabia na ponta do dedo, ainda por cima parcialmente oculto no sedimento (difícil de enxergar mesmo com a poderosa lupa de laboratório), o grupo gaúcho lançou mão de duas técnicas. Uma foi a microtomografia por raios X, técnica muito usada que permite enxergar a parte interna do fóssil e estudar seus detalhes, sem o uso de técnicas invasivas. Mas esse recurso não foi o mais produtivo, no caso. “Os minerais presentes não permitiram uma boa definição”, explica Müller.
Uma ferramenta mais recente forneceu mais informações. O pesquisador explica que se trata de um aplicativo de celular que usa inteligência artificial para filtrar a informação relevante e gerar um modelo tridimensional do osso a partir de uma série de fotografias. “Pusemos o fóssil em uma plataforma giratória e fotografamos de todos os ângulos”, conta o paleontólogo. Em três posições diferentes, chegaram a um total de uma centena de imagens. Com a ajuda do aplicativo, em menos de 15 minutos tinham um modelo detalhado que podia ser impresso em impressora 3D em tamanho maior, mais fácil de ser examinado.

Rodrigo Temp Müller/UFSMIntegrado à rocha, o crânio menor do que uma unha era difícil de ser examinadoRodrigo Temp Müller/UFSM
Com isso, puderam descrever o crânio com menos de 1 centímetro (cm) de comprimento que deve ter pertencido a um animal parecido com uma lagartixa, que não passava de 6 cm. Pelas proporções da cabeça, quase tão larga quanto longa, e em comparação com espécies semelhantes, seria um indivíduo juvenil. A espécie foi, por isso, batizada como Sauropia macrorhinus – em tradução livre, lagarto moleque narigudo. “Piá”, a única parte do nome que não vem do latim, é a forma gaúcha de referir-se a um menino.
Fora a cabeça larga e o tamanho pequeno, o animal chama a atenção pelas aberturas alongadas das narinas, o que inspirou o nome da espécie, e o focinho com uma inclinação incomum. Ele provavelmente comia pequenos insetos, conforme indicam a forma dos dentes e as dimensões do crânio. “É um fóssil difícil de trabalhar, não muito bonito, mas eles fizeram um trabalho convincente de caracterizar e mostrar que é uma espécie nova”, avalia o paleontólogo Felipe Pinheiro, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), que não participou do estudo. “É diferente dos outros procolofonídeos da América do Sul e da África.”
Para ele, o mais importante é que o material preenche um intervalo temporal em que são raros no continente os registros desse grupo conhecido como Parareptilia, uma linhagem semelhante aos répteis que não deixou descendentes. No Brasil foram encontradas apenas outras duas espécies desse grupo para o Triássico Médio, representantes de duas famílias diferentes: um procolofonídeo e um owenetídeo, todos bem maiores do que o tamanho estimado para o novo espécime.

André Fonseca / UFSMSítio de Novo Cabrais: para encontrar pequenos fósseis, Rodrigo Müller precisa deitar no chão e revirar cada pedraAndré Fonseca / UFSM
A análise que consta no artigo recém-publicado conclui que S. macrorhinus era um procolofonídeo, embora exibisse características consideradas exclusivas de owenetídeos. Esses achados vão permitindo que os paleontólogos revejam quais características teriam surgido em determinadas linhagens e entendam melhor as trajetórias evolutivas. “Mas ainda estamos tratando com cautela a classificação dessa espécie, por causa de suas características juvenis”, afirma o pesquisador.
Pinheiro explica que os pararrépteis são um grupo muito importante por terem sobrevivido à extinção permo-triássica, o maior evento de extinção em massa acontecido no planeta, pouco mais de 250 milhões de anos atrás. “Eles se diversificaram muito depois disso, temos como um exemplo de recuperação em seguida a um evento catastrófico”, diz o pesquisador da Unipampa. “Há indícios de espécies cavando tocas, talvez entrando em dormência para sobreviver, que se tornaram abundantes em outros continentes.” Mas aqui é diferente: existem fósseis do início do Triássico – onde se concentram os estudos de Pinheiro – e do fim desse período. Encontrar um representante do Triássico Médio indica a continuidade da existência desses animais.
Müller reconhece que soa como um clichê dizer que é preciso encontrar outros exemplares aparentados para entender melhor esse grupo anterior aos dinossauros, mas é verdade. Acostumado a procurar por animais maiores, comuns nos sítios que estuda no Rio Grande do Sul – no caso do estudo recente, no município de Novo Cabrais –, ele já reajustou o olhar para enxergar pedregulhos enganosamente insignificantes. “É preciso deitar no chão e ir revirando cada pedrinha”, conta ele. “Os fósseis existem, temos chance de encontrar outros.”
Artigo científico
MÜLLER, R. T. et al. The smallest tetrapod from the Middle Triassic of South America: A new procolophonoid parareptile from the Ladinian of Southern Brazil. Scientific Reports. v. 16, 866. 28 jan. 2026.