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Física

Laboratório de bolso

CMDMC inova na difusão de trabalhos e informações científicas pelo telefone celular

Pesquisadores trabalharam na capacitação da mão-de-obra em Pedreira (SP)

EDUARDO CESARPesquisadores trabalharam na capacitação da mão-de-obra em Pedreira (SP)EDUARDO CESAR

O mais novo instrumento de divulgação das pesquisas e inovações geradas no Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC) cabe na palma da mão. No final de março, o centro colocou no ar um portal dinâmico e interativo voltado exclusivamente para telefones celulares com mais de 1.700 publicações científicas, notícias de ciência e tecnologia atualizadas todos os dias, vídeos, animações em 3D e fotos obtidas por meio de microscópio de varredura eletrônica (MEV) – além, é claro, do conteúdo institucional do próprio CMDMC. “Nosso objetivo foi criar uma espécie de laboratório de bolso. Com ele, estudantes, pesquisadores e o público em geral podem acessar remotamente as informações que desejarem e necessitarem”, destaca Elson Longo, diretor do CMDMC e pesquisador do Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara. “Somos o primeiro grupo de pesquisa que possui uma ferramenta educacional como essa. Até onde sabemos, nenhuma universidade brasileira dispõe de algo igual. A inovação deve sempre ser buscada, inclusive na difusão, e ótimos ganhos podem ser conseguidos com o emprego de novas mídias.”

A idéia de desenvolver um portal para telefones celulares surgiu a partir da constatação de que essa ferramenta tecnológica, por suas características próprias, poderia ser muito útil para a divulgação dos conhecimentos produzidos nos laboratórios do CMDMC. “O número de celulares no país ultrapassou a marca de 100 milhões no início deste ano e é seis vezes maior do que o de usuários da internet. A mobilidade proporcionada pelos aparelhos é uma grande vantagem comparativa ante os microcomputadores. Sem falar no custo de acesso de dados, mais barato do que uma ligação normal. O usuário não paga por tempo, mas por dado acessado”, explica Tiago Jabur, gerente da Aptor Software, uma spin-off do CMDMC, que ficou responsável pelo desenvolvimento da tecnologia.

Para ter acesso às informações do CMDMC pelo celular, o requisito mínimo é que o aparelho contenha um navegador WAP. O sistema também pode ser utilizado em dispositivos móveis mais avançados, como smart cards e pdas. Um dos pontos altos do portal é a possibilidade de conexão a uma ampla rede formada por mais de 200 pesquisadores e materiais inseridos por eles, batizada de Rede de Pesquisas CMDMC. Nela podem ser acessados fóruns de discussão em tempo real, enquetes, apostilas e feito o envio de mensagens aos demais participantes. Outro diferencial é a integração de seu conteúdo com a base de dados cadastrada na Plataforma Lattes, o que visa, segundo Longo, “manter uma maior consistência das informações”.

Todos os dados do portal também estão disponíveis no site do CMDMC, que conta ainda com um blog para discussão de assuntos científicos – um dos poucos do país. O sucesso do site pode ser medido por números: por mês, ele registra mais de 35 mil acessos, inclusive de internautas de outros países, como Japão, Itália, Portugal, Índia e México. Apenas a Rede de Pesquisas CMDMC, criada em outubro do ano passado, conta com mais de 25 mil acessos no período, sendo que 90% deles são externos, o que dá a dimensão da importância e da utilidade do conteúdo disponibilizado.

A ampliação do acesso e o compartilhamento das informações que produz com a sociedade são duas das grandes preocupações do CMDMC, cujo foco principal é o desenvolvimento de novos materiais cerâmicos, tecnologias de síntese e processamento. O núcleo conta também com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que já destinou R$156 mil ao centro. Sua estrutura básica é o Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) do Instituto de Química da Unesp de Araraquara, mas o centro é composto também por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade de São Paulo (USP), de São Carlos, e Instituto e Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). A equipe tem ao todo 204 pesquisadores, entre professores e alunos. Entre as várias linhas de pesquisa do centro, destacam-se o desenvolvimento de catalisadores para uso em células combustíveis e o tratamento de gases poluentes, a pesquisa de novos sensores cerâmicos capazes de detectar a presença de gases tóxicos, o estudo do efeito de diferentes princípios ativos de cosméticos sobre o cabelo para formulação de produtos mais eficazes e a síntese e o processamento de materiais nanoestruturados com potencialidade para aplicações tecnológicas.

Na televisão
Além do pioneirismo no uso do celular como plataforma de difusão científica, o CMDMC também foi um dos primeiros grupos de pesquisa do país a utilizar DVDs e programas de TV para divulgar conteúdos científicos diversos. O DVD Nanotecnologia e cosméticos, lançado no começo deste ano, traça um painel das pesquisas que estão sendo realizadas na área, especialmente as inovações tecnológicas em produtos para coloração, relaxamento e alisamento de cabelos. Este é o segundo DVD de uma série sobre nanotecnologia. O primeiro abordou o assunto de forma geral e os próximos irão focar nanofios, nanotubos e outros assuntos nanotecnológicos.

Para a televisão, o centro produz um programa de 15 a 20 minutos, que vai ao ar diariamente pelo canal 25 da NET em São Carlos. “Nele abordamos temas variados, como filmes finos, nanotubos de carbono, reciclagem de resíduos sólidos e sensores cerâmicos. Estamos sempre atentos para apresentar a ciência com uma linguagem popular, de forma que todos possam entender”, afirma Kleber Jorge Savio Chicrala, assessor de imprensa do CMDMC e responsável pela produção dos programas. O sucesso do programa foi tanto que o centro decidiu lançar uma coleção em DVD, intitulada Da Cerâmica Clássica à Nanotecnologia, com os vários episódios levados ao ar, e distribuí-la gratuitamente para escolas de ensino médio e fundamental, instituições de ensino superior e órgãos públicos da área de ciência e tecnologia. Até o momento já foram produzidos seis DVDs, com 20 programas, e outros seis, com a mesma quantidade de episódios, estão em processo de finalização.

Produção de utensílios cerâmicos feitos em Pedreira (SP): aumento da produtividade das empresas da região

EDUARDO CESARProdução de utensílios cerâmicos feitos em Pedreira (SP): aumento da produtividade das empresas da regiãoEDUARDO CESAR

Para facilitar a divulgação de suas inovações junto às emissoras de televisão, o centro decidiu criar um núcleo de computação gráfica para desenvolver imagens e animações tridimensionais explicando processos físicos e químicos envolvidos em suas pesquisas. “Como a televisão é um veículo que exige imagens, não nos restou outra alternativa senão criar o núcleo para ter acesso a essa mídia”, afirma Longo. A estratégia deu resultado. Desde que foi criado, em 2000, o núcleo produziu 22 animações, sendo que 19 delas já foram veiculadas por emissoras comerciais, principalmente a EPTV Central, que é a filiada da Rede Globo na região. Uma das principais vantagens da utilização de animações tridimensionais na difusão das informações do centro, diz Longo, é a possibilidade de criar modelos para apresentação de processos científicos que não são visíveis a olho nu. Esses modelos fazem com que o público leigo possa compreender o processo científico envolvido em uma pesquisa e a importância dela para o seu cotidiano.

Nos últimos sete anos foram ao ar animações em 3D tão diversas quanto uma que mostra a composição molecular de um grafite e como ele interage com o papel, a formação de um nanotubo de carbono ou o processo de absorção de um determinado corante por um fio de cabelo. Boa parte dos processos é mostrada em escala nanométrica. “As imagens de computação gráfica produzidas pelo CMDMC são de alta qualidade. Como o público de uma TV aberta é muito amplo, indo do professor universitário à dona-de-casa, precisamos adotar nas reportagens sobre avanços científicos e tecnológicos uma linguagem ao mesmo tempo criativa e didática para conquistar sua atenção e facilitar a compreensão da informação que está sendo transmitida”, diz Pedro Varoni, gerente de jornalismo da EPTV Central. Todas as animações estão disponíveis também no site do centro, que usa a mesma tecnologia de visualização do You Tube, o maior portal de compartilhamento de vídeos da internet.

Além da televisão, emissoras de rádio e jornais também são utilizados pelo CMDMC como veículos para divulgação de conceitos e popularização da ciência. “Semanalmente, nossos pesquisadores concedem duas ou três entrevistas para estações de rádio de Araraquara e região. E um jornal de São Carlos tem um espaço voltado exclusivamente à divulgação de notícias do centro”, diz Chicrala.

Cartilhas educativas
Outra iniciativa do CMDMC visando à multiplicação dos conhecimentos gerados por seus pesquisadores é a transferência de tecnologia para o setor produtivo. Um dos instrumentos desse trabalho é uma cartilha com informações sobre as técnicas de preparação e modelagem de peças cerâmicas, seus diversos tipos de matéria-prima e dicas para prevenir imperfeições na hora de levar a argila ao forno. Intitulado de Técnica e arte em cerâmica: artesão, o manual, lançado em 2002, é escrito em linguagem leiga e busca ajudar artesãos profissionais a se atualizar. “A idéia de fazer a cartilha surgiu há cerca de sete anos a partir do trabalho que desenvolvíamos junto às indústrias de cerâmica de Porto Ferreira e Pedreira, municípios próximos a São Carlos”, conta a pesquisadora Graziela Pereira Casali, do CMDMC. “Queríamos dar informações que ajudassem na capacitação da mão-de-obra e no aumento de produtividade das empresas. E achamos que um dos caminhos seria a confecção de uma cartilha.”

A ação foi bem-sucedida e acabou sendo ampliada para outros municípios do pólo ceramista da região, como Santa Gertrudes. Coube ao Centro Cerâmico Brasileiro (CCB) fazer a ponte entre o CMDMC e as 40 indústrias de cerâmica instaladas na cidade, responsáveis por 60% dos 600 milhões de metros quadrados de produtos cerâmicos fabricados no Brasil. Além de capacitar os trabalhadores de chão-de-fábrica, os pesquisadores do CMDMC e do CCB também atentaram para a necessidade de dar informações para a ponta da cadeia, no caso os assentadores, profissionais responsáveis pela colocação de pisos e azulejos para revestimento.

“Montamos uma palestra de duas horas de duração para a equipe de venda das lojas especializadas e para os assentadores. Foi um sucesso”, afirma José Octávio Armani Pascoal, presidente do CCB. “Julgo que esse trabalho de difusão é de grande importância para a indústria da cerâmica, que sofre carência em termos de atualização dos sistemas de gestão de qualidade e de produtos, que nem sempre estão em conformidade com as normas técnicas”, diz ele.

Objeto de cerâmica é esmaltado: CMDMC deu dicas aos artesãos para prevenir imperfeições nos produtos

EDUARDO CESARObjeto de cerâmica é esmaltado: CMDMC deu dicas aos artesãos para prevenir imperfeições nos produtosEDUARDO CESAR

Gincanas e olimpíada
As cartilhas também são distribuídas em escolas da rede pública de ensino para despertar o interesse dos estudantes pelo vasto universo representado pelos materiais cerâmicos. “Na cabeça da maioria dos alunos, a cerâmica é usada apenas para fazer vasos, pisos e azulejos. Queremos mostrar que esse material também é empregado na fabricação de produtos altamente sofisticados, como chips para computadores, e está fortemente presente no nosso dia-a-dia”, ressalta o físico Antonio Carlos Hernandes, diretor de Difusão do CMDMC e pesquisador da USP de São Carlos. O manual já foi encaminhado para dezenas de escolas públicas de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás. “Estimamos que nosso programa de difusão para estudantes e professores do ensino médio tenha atingido, nos últimos seis anos, cerca de 41 mil pessoas”, diz Hernandes.

As atividades junto às escolas abrangem todos os níveis de ensino, da pré-escola ao ensino médio, e não se restringem à distribuição dos manuais. Além de teatro de fantoches para os alunos das séries iniciais, gincanas científicas e palestras relacionando o estudo de química aos processos de fabricação de materiais cerâmicos, os alunos de mestrado e doutorado do CMDMC também organizam cursos de atualização para professores de ciência. “Na maioria das vezes, o professor se formou há dez ou 20 anos e não se renovou. Além da atualização do conteúdo, apresentamos também as novas tecnologias que surgiram na área”, destaca Francini Cristiani Picon, aluna de doutorado do Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Unesp de Araraquara. Docentes de escolas públicas de 20 cidades paulistas já participaram desse curso de atualização.

O CMDMC também promove, há dois anos, uma olimpíada de Matemática, Química e Física que tem por finalidade estimular o interesse de jovens pelas áreas científicas e tecnológicas, contribuir para a integração das escolas públicas com a universidade e despertar a atenção dos alunos pela atividade universitária. “Sempre gostei de exatas e, ao participar da olimpíada, vi que essa é mesmo a área que tem a ver comigo. Pretendo prestar vestibular no final deste ano para engenharia da computação”, diz Guilherme Rigo Ricio, vencedor da primeira edição da olimpíada, em 2005, e aluno do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Professor José Juliano Neto, de São Carlos.

Segundo a professora Nilcéia de Fátima Baglio, coordenadora da escola, vários estudantes do ensino médio que participaram da olimpíada organizada pelo CMDMC decidiram seguir a carreira de físico. “Essa aproximação entre a universidade e a escola é muito positiva. Além de estimular nossos alunos para o estudo da ciência, projetos como o da Olimpíada de Matemática, Química e Física ajudam os jovens a entender o porquê das coisas. Sem falar que ter um vencedor entre nossos estudantes melhora a imagem da escola na comunidade, que passa a admirá-la”, diz Nilcéia.

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