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Pesquisa na quarentena

“Lembrem que vocês não estão sozinhos”

O ornitólogo Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, conta o que fez para ajudar alunos de pós-graduação a lidar com as incertezas geradas pela pandemia

Na reserva Ducke, próximo a Manaus, com participantes do programa de imersão de arte LABVERDE, em 2018

Acervo pessoal

Em meados de março, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa] suspendeu as atividades acadêmicas presenciais de seus nove cursos de pós-graduação, em que mais de 500 alunos de mestrado e doutorado fazem pesquisas em temas como ecologia, biologia evolutiva, botânica e agricultura, entre outros. Criou-se uma situação totalmente inusitada. Logo percebi sinais de estresse entre meus orientandos, que não sabiam o que esperar da situação, tinham medo de não conseguir concluir suas pesquisas no prazo combinado e ainda se exasperavam com a ameaça de corte de bolsas pelo governo federal.

Oriento alunos em diferentes fases de pesquisa. Uns estão perto de defender a dissertação ou a tese, outros ainda fazem a coleta de dados. Um deles nem foi oficializado como meu aluno, pois no Inpa não é necessário escolher o orientador no primeiro semestre do curso. Esse estudante tinha acabado de chegar a Manaus – ele é de São Paulo – e resolveu voltar para casa e cuidar dos pais, que fazem parte do grupo de risco para a doença. Eu jamais interferiria na sua situação urgente familiar. Só pedi para ele avisar o conselho do curso e que eu daria ciência. Ofereci que seguíssemos trabalhando a distância e recomendei que aproveitasse o tempo para avançar no planejamento de um projeto e mergulhasse na literatura primária sobre seu tema de interesse. Afinal, ele não conseguiu retornar, porque muitos voos para São Paulo, inclusive o dele, foram cancelados. Ainda assim, acho que ficou aliviado de saber que, da parte do professor, havia interesse e flexibilidade.

Tenho duas alunas de mestrado que fazem uma pesquisa muito interessante em colaboração internacional e tiveram de interrompê-la. Esse trabalho envolve o monitoramento de uma espécie de andorinha que se reproduz no Canadá e nos Estados Unidos e inverna na América do Sul. Um gigantesco bando dessas andorinhas se reúne toda noite para dormir em uma ilha no rio Negro, e essas alunas estavam estudando o fenômeno. Até dois meses atrás, colaboradores de várias instituições nacionais e internacionais nos acompanhavam nas observações das andorinhas e planejávamos reportagens e filmagens para a televisão e documentários, mas, com o surgimento de casos da Covid-19 em Manaus, as visitas à ilha foram suspensas para evitar o contágio da comunidade local. Uma das alunas estava monitorando a quantidade e os movimentos das andorinhas, e a outra a explosão na população de peixes e de outras espécies aquáticas causada pela presença das aves – imagine o impacto do material orgânico das fezes de centenas de milhares de pássaros lançado em um dos rios mais pobres em nutrientes do mundo. Elas tiveram de interromper a coleta de dados. Escrevi e mandei mensagens de áudio por whatsApp. Expliquei que não havia jeito, que a amostragem delas vai ter mesmo lacunas, mas que isso vai acontecer com as pesquisas de todo tipo realizadas no mundo inteiro.

Notei que essas incertezas estavam perturbando muitos estudantes que se correspondiam comigo, do Inpa e de outras instituições.  Enquanto nós, professores, tentávamos nos adaptar à situação e formular ações coordenadas, achei que os conselhos dados para os meus alunos poderiam oferecer conforto também para outras pessoas. Juntei as recomendações em uma carta, cuja frase final resume o que me motivou a escrevê-la: “Lembrem que não estão sozinhos!”.

Resolvi publicá-la no meu perfil no Facebook. Não usava essa rede social havia muito tempo, desde aquela história da manipulação da eleição dos Estados Unidos pela empresa Cambridge Analytica. O retorno foi surpreendente. Muita gente compartilhou a carta e recebi mensagens de agradecimento de alunos e colegas de todo lugar. Como o Facebook oferece tradução, até gente que não sabe português agradeceu.

Com a pandemia, eu também sofri um impacto forte na minha rotina. Sou curador da coleção de aves do Inpa e meu trabalho de pesquisa envolve ir com frequência a lugares remotos da Amazônia. O que mais faço é montar ou participar de expedições para lugares que nunca foram estudados. A última foi em dezembro, próximo a uma área indígena em Roraima, no Parque Nacional Monte Roraima. Foi uma expedição multidisciplinar biológica com mais de 50 pessoas, organizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade [ICMBio]. Posso analisar o material coletado em isolamento, sem a participação de colegas ou alunos ao mesmo tempo, mas o trabalho de campo acabou por ora. Tínhamos várias novas expedições marcadas para este ano, mas tudo foi cancelado.

Na maior parte do tempo, tenho trabalhado em casa e enfrento dificuldades para estruturar meu dia de forma produtiva. Passo de uma teleconferência para a próxima, sem mudança de cena, sem levantar da cadeira. Quando percebo, já é noite e ainda tenho mais reuniões virtuais agendadas. Se não fossem os cachorros implorando pela janta, não lembraria de parar. Sinto que estou trabalhando mais do que antes. Se por um lado o trabalho em casa pode ser mais produtivo, sem interrupções e sem as tarefas burocráticas, por outro, a mesmice do ambiente e a falta de conversa olho no olho cansam mais.

Muitos colegas estão aproveitando o cancelamento de viagens para desengavetar projetos antigos. Inicialmente, a perspectiva de rever trabalhos meio esquecidos me animava. Mas agora vejo que se somam ao que já estava agendado e assim se forma uma avalanche de trabalho. E as condições inusitadas estão estimulando iniciativas novas. Estou participando de um esforço para realizar um tradicional encontro de ornitófilos, chamado Avistar, que acontece sempre em maio e atrai milhares de pessoas. Dessa vez, não vai acontecer em um local público nem vai reunir as pessoas para observar pássaros e assistir a palestras. O coordenador do evento, Guto Carvalho, quer fazer um Avistar virtual. Temos um mês para organizar tudo. As pessoas vão ao Avistar para aprender sobre aves, encontrar colegas e ouvir sons de pássaros. Ainda não resolvemos se as palestras vão ser ao vivo ou gravadas. Mas queremos manter o espírito da reunião presencial. Esse tipo de trabalho novo e adaptado às circunstâncias atuais desafia a nossa criatividade e nos inspira a continuar.

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