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Tecnociência

Levando carneiro por boto-vermelho

IZENI FARIAS E TOMAS HRBEK/UFAM

Sedução: amuletos em busca de sucessoIZENI FARIAS E TOMAS HRBEK/UFAM

Na Amazônia as gestações inexplicadas costumavam ser atribuídas ao boto que, segundo a lenda, se transforma num belo rapaz branco e seduz as mulheres. Em busca desse sucesso, homens da região recorrem a amuletos vendidos nos mercados das cidades. Diz a crença que segurar um olho seco de boto-vermelho (Inia geoffrensis) torna as mulheres mais interessadas numa conversa. Acredita-se também que polvilhar a área genital com um pó feito com o pênis seco do boto e talco é receita certa para dar mais prazer às parceiras. Se não funcionar, talvez não seja falha da superstição. Pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia descobriram que há trapaça no comércio (Marine Mammal Science). Eles extraíram material genético de 43 olhos secos comprados no Mercado Ver-o-Peso de Belém, no Pará, no Mercado Central de Manaus, no Amazonas, e no Mercado Municipal de Porto Velho, em Rondônia, e nenhum era do boto-vermelho. Nos mercados de Belém e Manaus os comerciantes vendem olhos de golfinhos marinhos do gênero Sotalia. Já em Porto Velho a criatividade é maior: olhos de golfinho, porco ou ovelha são vendidos por boto. Parte do engodo pode ter origem cultural. As populações ribeirinhas respeitam o boto-vermelho como entidade mágica e resistem a matá-lo, forçando os comerciantes urbanos a procurarem alternativas.

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