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Epidemiologia

Levantamento nacional mostra queda na taxa de infecção por coronavírus

Quarta etapa de estudo sobre a Covid-19 testou 33.250 pessoas em 133 municípios brasileiros

Proporção de pessoas com anticorpos contra o vírus caiu de 3,8% em junho para 1,4% em agosto

Léo Ramos Chaves

O novo coronavírus parece começar a dar trégua aos brasileiros. Dados da quarta e mais recente etapa do Epicovid19-BR, levantamento coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que acompanha a evolução da pandemia no Brasil, indicam que o ritmo do contágio está diminuindo.

A testagem realizada no final de agosto mostrou que 1,4% da população estava infectada com o vírus Sars-CoV-2, de acordo com os resultados divulgados em 16 de setembro. Essa proporção é 63% inferior à detectada em junho, quando 3,8% dos brasileiros apresentavam infecção recente, e a mais baixa já registrada desde o início da avaliação em maio. “Essa é, de fato, uma boa notícia”, afirma o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da UFPel e coordenador-geral do Epicovid19-BR. “É o momento de começar a retomar alguns tipos de atividade econômica, mas com a devida calma e com toda a segurança possível”, diz. 

Em cada fase do levantamento, os pesquisadores aplicaram testes sorológicos a um número que variou de 25 mil a 33 mil pessoas de 133 municípios distribuídos por todas as regiões do país. Esse tipo de exame detecta a presença no sangue de dois tipos de anticorpos contra o vírus: a imunoglobulina M (IgM), indicadora de infecção ocorrida nas semanas anteriores, e a imunoglobulina G (IgG), que sugere um contato mais antigo com o agente patológico.

Inicialmente, esperava-se que esse tipo de teste permitisse conhecer o total de pessoas já infectadas pelo vírus, informação difícil de obter com base nas estatísticas oficiais, que detectam principalmente os casos graves. O modo como o organismo reage ao Sars-CoV-2, no entanto, surpreendeu os pesquisadores. Semanas depois da eliminação do vírus, os níveis de anticorpos começam a cair e podem se tornar indetectáveis – isso não significa que se perde a imunidade, uma vez que o combate ao vírus também é feito por células. “A literatura científica produzida durante a pandemia vem mostrando que os anticorpos permanecem na circulação, em média, por 45 dias”, conta Hallal.

Uma consequência da duração temporária da imunidade por anticorpos é que se torna mais complicado conhecer o total de pessoas já infectadas, algo importante para estimar quão próximo se está da chamada imunidade coletiva. “Os dados do Epicovid19-BR não vão revelar diretamente esse número. Para conhecê-lo, será preciso ter mais informações sobre a duração dessa imunidade para alimentar projeções matemáticas feitas com base nos números obtidos nos levantamentos”, explica o epidemiologista.

Na etapa mais recente do Epicovid19-BR, foram testadas 33.250 pessoas entre os dias 24 e 27 de agosto. Além de mostrar uma queda importante na proporção de infectados, o levantamento confirmou que o vírus continua se espalhando pelos municípios do interior do país e revelou que os brasileiros mais pobres, em geral pretos e pardos, correm mais risco de ser contaminados do que os mais ricos. Também mostrou que está em curso uma mudança no perfil etário dos indivíduos infectados. 

Nos três primeiros levantamentos, realizados entre maio e junho, a proporção de pessoas infectadas pelo vírus era maior na faixa etária dos 20 aos 60 anos. Agora, a prevalência caiu bem mais nesse grupo do que entre as crianças e os idosos. Duas hipóteses explicam essa alteração. No início da pandemia, os adultos em idade produtiva saíam mais de casa do que as crianças e os velhos. Como consequência, uma proporção do primeiro grupo acabou infectada. Com o relaxamento das medidas de distanciamento social, crianças e idosos, ainda vulneráveis, passaram a se expor mais.

O Epicovid19-BR acompanhará a evolução da pandemia na população brasileira por meio da realização de seis levantamentos nacionais. Os três primeiros foram realizados com apoio do Ministério da Saúde. Os três últimos estão sendo financiados pela iniciativa Todos pela Saúde, coordenada pelo Itaú Unibanco, e pela FAPESP.

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