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Gênero

Mães na quarentena

Isolamento social lança luz sobre desigualdade de gênero na ciência

Crédito: Stephen Schildbach/Getty Images

Enquanto muitos cientistas aproveitam o isolamento social para escrever artigos e estreitar os laços de colaboração com outros pesquisadores (ver reportagem “O desafio de fazer ciência em casa), a bióloga Fernanda Staniscuaski, do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), precisa conciliar as demandas do home office com afazeres domésticos e o cuidado com os filhos – são três, com idades de 1, 4 e 7 anos. Mesmo dividindo as tarefas com o marido, boa parte de seu tempo é dedicada a auxiliar os mais velhos nas atividades escolares. “Com o fechamento temporário das escolas, as crianças estão trancadas dentro de casa 24 horas por dia e isso nos exige atenção o tempo todo. Passo as tardes com os mais crescidos, enquanto meu marido fica com o bebê.” Em situações normais, diz Staniscuaski, as crianças ficariam em escolas, creches e com as avós, enquanto os pais trabalhavam fora.

Como consequência, ela está há semanas tentando concluir um manuscrito para submetê-lo a uma revista científica. “O texto permanece intocado”, conta Staniscuaski. Mesmo assim, ela e outras pesquisadoras reservaram algum tempo para investigar como o isolamento provocado pela Covid-19 tem impactado a rotina de trabalho de cientistas que têm filhos. O estudo, em andamento, é realizado no âmbito do projeto “Parent in Science”, criado em 2017 com o propósito de discutir a maternidade no universo acadêmico brasileiro (ver Pesquisa FAPESP nº 269).

A partir de um questionário respondido, até o momento, por mais de 5 mil alunos de mestrado e doutorado, observou-se que o período de quarentena tem um peso adicional sobre a produção científica das mulheres que são mães. Do total de respondentes, 31% são homens e 69% mulheres. Dentre os que têm filhos, 26% são homens e 74% mulheres. Quando analisado o grupo de pesquisadores que disseram ter filhos, 17,4% dos homens informaram estar conseguindo trabalhar remotamente. No caso das mulheres na mesma situação, o percentual é menor: cerca de 10% declararam ter tempo para seguir desenvolvendo seus projetos de pesquisa em casa.

Quando observado o grupo dos que não têm filhos, a diferença entre mulheres e homens é menor, mas a porcentagem de homens que conseguem se dedicar à pesquisa em home office segue sendo maior (36%) do que a de mulheres (32%). “Esses dados podem ajudar a entender melhor de que maneira a nova rotina sobrecarrega as mulheres”, avalia Staniscuaski. De acordo com ela, os resultados parciais do estudo são fortes indicativos da persistente desigualdade de gênero na ciência, especificamente a dificuldade de conciliar maternidade e formação acadêmica.

Nos últimos anos, foram contabilizados avanços envolvendo o direito à licença-maternidade e paternidade durante a vigência de bolsas de pesquisa no Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 289). Apesar disso, a decisão de ter filhos ainda é algo que leva muitas mulheres a interromper atividades de pesquisa com mais facilidade do que os homens, o que pode ter impacto na progressão da carreira, explica a bioquímica Rossana Colla Soletti, professora da UFRGS e integrante do “Parent in Science”.

“O tempo dedicado aos filhos durante a licença-maternidade precisa ser levado em consideração pelas instituições de pesquisa no momento de avaliar a produção científica de mulheres”, afirma Soletti, destacando que a prática de mencionar a maternidade no currículo acadêmico é comum em vários países, entre eles Estados Unidos e Alemanha. “Trata-se de mostrar que não é possível comparar a produtividade de um pesquisador que não pausou sua carreira com a de outro que precisou ficar um tempo afastado.”

Ela conta que no ano passado o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) se comprometeu a incluir um campo na plataforma Lattes para que pesquisadores com filhos informassem em seus currículos o período de licença maternidade ou paternidade. “Várias mulheres passaram a incluir o período da licença na descrição do Lattes, como forma de mostrar às agências de financiamento por que houve queda nas publicações durante seis meses.” No entanto, é fundamental que haja um campo específico para a inserção desse dado no sistema, observa Soletti. “Até hoje o CNPq não colocou isso em prática.”

Mãe de duas meninas, de 4 e 6 anos de idade, Soletti tem passado boa parte dos dias da quarentena tendo de cuidar sozinha das filhas. “Meu marido é médico e continua trabalhando em alguns serviços essenciais”, relata. Em meio à preocupação de ter um familiar atuando em hospitais durante a pandemia, Soletti precisa dar conta dos serviços domésticos, como limpar a casa, lavar roupa e cozinhar, e dar atenção integral às filhas, que recebem atividades escolares on-line todos os dias.

“Pouco antes do início da pandemia, eu havia começado a escrever um artigo sobre câncer, minha área de pesquisa, e um livro de divulgação científica sobre gestação”, diz Soletti. “Mas a atividade de escrita exige muita concentração, algo difícil de conseguir quando se tem duas crianças pequenas por perto.”

Há indícios de que a submissão de manuscritos por mulheres entrou em declínio desde que as medidas de isolamento social passaram a vigorar mundo afora. É o que mostrou o portal norte-americano Inside Higher Ed, que ouviu editores de revistas científicas para saber como a pandemia está interferindo na produção acadêmica. De acordo com alguns editores, a autoria individual de mulheres sofreu queda substancial, especialmente em periódicos que publicam artigos de áreas como ciências humanas, campo do conhecimento em que é mais comum a publicação de trabalhos com um único autor.

Elizabeth Hannon, editora do British Journal for Philosophy of Science, disse que a revista quase não recebeu manuscritos assinados por pesquisadoras em abril. “Nunca vi nada parecido”, escreveu no Twitter. David Samuels, coeditor da Comparative Political Studies, informou que as submissões de artigos ao periódico cresceram 25% em abril, em comparação ao ano passado. “Mas esse aumento foi inteiramente impulsionado por homens.”

No Brasil, a revista Dados, publicada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), também registrou redução das submissões de manuscritos produzidos por mulheres, em decorrência da pandemia. “Mesmo que o ano de 2020 tenha começado com a submissão de 40% de autoras, patamar próximo à média, tivemos neste segundo trimestre o menor patamar do período analisado, com apenas 28% de autoras assinando os artigos submetidos”, informou um post no blog da revista assinado por Márcia Rangel Candido e Luiz Augusto Campos, respectivamente assistente de redação e editor-chefe da publicação. Observou-se também que a média de manuscritos com as primeiras autoras mulheres entre 2016 e o primeiro trimestre de 2020 foi de 37%, mas esse patamar caiu consideravelmente para 13% no trimestre atual.

“Com o fechamento de creches e escolas, as mulheres estão se desdobrando para cuidar da educação dos filhos. Devido ao isolamento social, não é possível contar com uma rede de apoio, como avós, funcionárias domésticas e babás”, diz a biomédica Síntia Iole Belangero, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e mãe de duas meninas, de 5 e 8 anos de idade.

Envolvida em estudos que buscam entender mecanismos genéticos e epigenéticos relacionados a transtornos psiquiátricos, Belangero tem se esforçado para continuar produzindo. “Colaborei em quatro artigos científicos e já emiti pareceres sobre projetos de pesquisa, que me foram encaminhados por agências de fomento. Auxiliei colaboradores a submeter um projeto para investigar o impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a saúde mental da população e de portadores de esquizofrenia.”

Para fazer tudo isso, Belangero tem trabalhado no período noturno, muitas vezes avançando pela madrugada. “É quando minhas filhas estão dormindo”, informa ela, que também precisa dar conta de assuntos administrativos do Programa de Pós-graduação em Biologia Estrutural e Funcional que coordena na Unifesp. Durante o dia, Belangero está envolvida com as atividades escolares das filhas e tarefas domésticas, podendo dividir as atividades com o marido, quando ele, que também é médico, está em casa.

Belangero diz não conseguir muito tempo para participar de encontros virtuais, a maioria agendada para os períodos da manhã e da tarde, quando está ocupada com as filhas. “Percebi que boa parte das reuniões e dos eventos digitais está sendo organizada por homens ou pessoas sem crianças pequenas ou que tenham filhos já adolescentes ou adultos”, relata a biomédica. “Há colegas que não entendem minha situação e se mostram incomodados quando não posso participar de alguma reunião, como se cuidar de filhos pequenos fosse um pretexto para não trabalhar.”

Apesar das dificuldades profissionais, o atual momento é também uma oportunidade para valorizar a relação com as crianças. Belangero vê na rotina do isolamento social ocasião única para ficar mais perto das filhas. “Nem em momentos de férias era possível conviver tão intensamente com as crianças. Tem sido desafiador ensinar para a mais velha conteúdos de língua portuguesa e matemática. O tempo que passamos brincando e cozinhando juntas também é valioso.”

A biomédica Gabriela Nestal, pesquisadora visitante e docente do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, compartilha da mesma opinião. “Antes eu ficava em média 10 horas por dia fora de casa. Minha filha de 4 anos passava parte do dia na creche e outra parte com a avó”, conta Nestal. “Novos laços afetivos estão sendo formados entre ela e mim nesta quarentena.”

Para a pesquisadora, porém, é importante não “romantizar” a maternidade, especialmente nesse momento. “Acredito que o abismo entre homens e mulheres tende a aumentar durante o isolamento social. Por isso, é importante que cientistas com filhos não sejam agora pressionados a produzir com a mesma intensidade de antes da pandemia”, diz Nestal, que busca manter isso em mente quando está lidando com mestrandos e doutorandos que orienta no Inca. “É importante que as mulheres não se sintam menos produtivas por serem mães em período integral.”

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