guia do novo coronavirus
Imprimir Republicar

Saúde animal

Mais de 500 espécies de anfíbios foram dizimadas por fungo quitrídio

Altitude, temperatura, hábitat, distribuição geográfica e tamanho do corpo são fatores de risco que se mantêm mundo afora para doença que teve pico global nos anos 1980

Espécie amazônica do gênero Atelopus, ainda não estudada

Luís Felipe Toledo/Unicamp

A pior doença de todos os tempos no que diz respeito à vida selvagem já registrada por pesquisadores passa despercebida pela maior parte das pessoas. É a quitridiomicose, causada por um fungo microscópio que afeta rãs e outros anfíbios. A consequência pode ser uma dramática mortalidade, atrás apenas daquela provocada pelo desmatamento em termos de capacidade letal. Uma colaboração entre pesquisadores de 16 países reuniu dados coletados no mundo todo e detectou fatores de risco que se mantêm geograficamente, causando um impacto em termos de extinções que é o dobro do que se estimava até agora. O fungo Batrachochytrium dendrobatidis, ou quitrídio, é responsável por uma significativa queda populacional em 501 espécies de anfíbios ao longo dos últimos 50 anos, o que inclui 90 prováveis extinções. A empreitada foi liderada pelo ecólogo australiano Benjamin Scheele, atualmente em estágio de pós-doutorado na Universidade Nacional da Austrália, e publicada na edição desta semana (29/3) da revista Science, 20 anos depois da descoberta do fungo.

Em quase todos os continentes – com exceção da Ásia e da Antártida, onde não há registro de danos causados pelo fungo ­– correm mais risco as espécies com distribuição geográfica restrita, as mais aquáticas, as que vivem em altitudes intermediárias e em temperaturas amenas. Essas condições favorecem a sobrevivência do fungo. Sapos e rãs grandes também são mais suscetíveis, não se sabe ainda a razão.

“É a primeira vez que uma compilação de dados tão abrangente é feita”, ressalta o biólogo Luís Felipe Toledo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que estuda a doença desde o doutorado, com a primeira publicação sobre o tema em 2005. “Agora pudemos dimensionar a escala de impacto e qualificar como a maior causa de perda de biodiversidade atribuída a um único organismo patógeno.” Ele e sua aluna de doutorado Tamilie Carvalho participaram do esforço internacional e ampliaram as análises que publicaram há dois anos na revista Proceedings of the Royal Society B. Nesse trabalho, que fez parte do mestrado da estudante, eles identificaram 65 espécies afetadas pelo quitrídio, com 49 extinções locais e o provável desaparecimento de 15 espécies, apenas no Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 253).

“A falta de um levantamento global e abrangente foi o motivo de iniciarmos o projeto”, conta Scheele, que escreveu a pesquisadores de todos os países onde foi identificada mortalidade causada pelo fungo, propondo colaboração. “O momento era ideal por se terem passado duas décadas desde a descoberta do fungo quitrídio e por muita pesquisa importante já ter sido feita para documentar aspectos de sua ecologia e dispersão.” Ele conta que estimativas anteriores sugeriam o declínio de cerca de 200 espécies em consequência da doença, entre aproximadamente 5 mil existentes. “Em vez disso, a descoberta de 501 espécies em declínio foi surpreendente e triste.” O destaque maior vai para as Américas Central e do Sul, onde vivem quase 400 das espécies afetadas.

Luís Felipe Toledo/Unicamp Na natureza restam poucos sobreviventes de Atelopus zeteki, da América Central; a espécie tem sido mantida por um intenso programa de criação em cativeiroLuís Felipe Toledo/Unicamp

O Brasil, com sua respeitável diversidade anfíbia e presença disseminada do fungo, foi tratado com destaque no artigo, com 50 espécies incluídas – nem todas as que compuseram o estudo anterior da dupla brasileira. Por algum motivo os sapos do gênero Atelopus, disseminado em vários países da América Latina incluindo a Amazônia brasileira, são especialmente afetados. “Não se trata apenas do modo de vida, pois outros anfíbios igualmente aquáticos são menos suscetíveis”, pondera Toledo. Outros gêneros da mesma família, como o dos sapos-cururus do gênero Rhinella, presentes em todos os biomas do país, parecem pouco sensíveis ao quitrídio. Falta entender por quê.

O interessante é que o padrão detectado por Tamilie Carvalho se reflete na escala global, com um pico de declínio populacional nos anos 1980. Como o quitrídio só foi identificado em 1998, muito do efeito que causou em anfíbios precisou ser inferido de forma retroativa, com base em métodos genéticos e análise de espécimes depositados em coleções zoológicas. Depois do morticínio dos anos 1980, o trabalho mostra que por volta de 12% das espécies conseguiu alguma recuperação e quase 40% continua a declinar, sofrendo os efeitos do fungo. Na Austrália, onde Scheele concentrou seu trabalho até aqui, o fungo foi responsabilizado pelo declínio de 43 espécies de anfíbios, sete delas extintas. “Hoje, seis das espécies em declínio estão em alto risco de extinção devido ao quitrídio”, afirma ele.

Ivan Sazima/Unicamp; Gualter A. Lutz Os brasileiros Holoaden bradei (à esq.) e Phrynomedusa appendiculata (à dir.) têm sua extinção atribuída ao quitrídioIvan Sazima/Unicamp; Gualter A. Lutz

Além dos sapos, rãs e pererecas, recentemente se descobriu que salamandras – anfíbios com formato de lagartos – também podem sofrer. “Encontramos declínios associados ao primeiro fungo descrito [B. dendrobatidis] na América Central, e uma espécie na Europa afetada por uma segunda espécie de quitrídio [B. salamandrivorans]”, explica o pesquisador da Austrália.

Um dos enigmas é entender as causas do impacto no mundo todo nos anos 1980. “Poderia ser efeito de alguma alteração climática global”, sugere Toledo. De qualquer maneira, parece que nessa época uma linhagem mais virulenta do fungo se espalhou a partir da África, provavelmente de carona na moda de fazer cultivo de rãs comestíveis do gênero Lithobates, que frequentemente fugiam ou eram soltas pelos criadores. De acordo com Toledo, elas são resistentes ao fungo e por isso podem ser portadoras eficazes, contaminando ambientes. “Precisamos melhorar a biossegurança e minimizar o comércio de animais de estimação, o que provavelmente age como mecanismo de dispersão para doenças que ameaçam a biodiversidade”, propõe.

Projeto
O fungo quitrídio no Brasil: da sua origem às suas consequências (nº 16/25358-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Luís Felipe Toledo (Unicamp); Investimento R$ 1.617.721,96.

Artigo científico
SCHEELE, B. C. et al. Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity. Science. 29 mar. 2019.

Republicar