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Especial Einstein

Mauro Almeida: O relativo se espraia

A leitura popular das idéias do cientista alemão resultou num equívoco

Almeida: relativismo pop influenciou ciências humanas

marcia minilloAlmeida: relativismo pop influenciou ciências humanasmarcia minillo

Mesmo que a maior parte das pessoas não entenda a física de Albert Einstein, Mauro Almeida mostrou que a terminologia entrou para o vocabulário popular. “A idéia de abolição de um espaço e um tempo absolutos pela teoria da relatividade teve um efeito extremamente forte na visão de mundo, na visão das sociedades e, em particular, entre os antropólogos que estudavam outros modos de vida”, contou o antropólogo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no dia 25 de outubro, na palestra “Pluralismo e relativismo nas sociedades humanas: o impacto das idéias de Einstein”. É essa leitura, de que tudo é relativo, que ele chama de relativismo pop.

O mundo relativístico foi descrito pelo historiador Paul Johnson, que afirmou no livro Tempos modernos, de 1983, que o mundo moderno nasceu no Brasil. Foi em 1919, quando as fotografias de um eclipse solar feitas na África Ocidental e em Sobral, no Brasil, comprovaram a teoria da relatividade geral. Foi um momento de grande impacto para a ciência, mas sobretudo para a sociedade, que passou a ver tudo como relativo: não havia mais tempo e espaço, bem e mal, conhecimentos nem valores. Pode parecer exagero, mas para Almeida a influência foi mesmo grande e chegou à antropologia profissional, em publicações a partir de 1920.

Almeida mostrou que alguns antropólogos não escaparam da divulgação errônea da teoria da relatividade. De acordo com a física, observadores em diferentes sistemas de referência descrevem o mundo de maneira diferente, medindo distâncias e tempos de forma distinta, mas as leis da natureza serão sempre as mesmas e todos medirão da mesma maneira a velocidade da luz. Bem diferente do que prega a visão pop, que só reteve a idéia de que diferentes observadores vêem fenômenos diferentes, mas concluiu disso que não existem leis válidas para todos. “O relativismo pop é uma espécie de niilismo”, resume Almeida. Aplicado à antropologia, esse conceito leva à idéia de que cada sociedade tem seus princípios e eles são incompatíveis entre si, como se cada grupo humano fosse um mundo isolado dos demais sem constantes que os unissem.

Antropologia relativa
O início da etnografia moderna, segundo ele, coincidiu com a comprovação da teoria da relatividade. A partir dos anos 1920, antropólogos passaram a viajar mundo afora para estudar diferentes sociedades e tentar comprovar a idéia de que diferentes povos teriam sistemas equivalentes de vida. Aquilo que Almeida descreve como o experimento de Sobral da antropologia aconteceu numa aldeia da ilha de Nova Guiné, em que o antropólogo polonês Bronislaw Malinowski procurou mostrar que a sociedade que estudou funciona tão bem quanto a nossa, mas com instituições e costumes diferentes.

Mas foi o lingüista Benjamin Lee Whorf quem propôs um princípio que chamou de princípio da relatividade lingüística ou princípio da relatividade cultural, em que a percepção dos fenômenos por uma sociedade depende da estrutura lingüística que adota. O exemplo maior apresentado por ele eram os hopis, uma tribo indígena norte-americana que percebe o tempo e o espaço de maneira completamente diferente da visão ocidental moderna – não há antes, agora e depois –, algo que estaria embutido na linguagem deles. “Einstein, coitado, estava alimentando uma visão liberada de antropólogos que se sentiam perfeitamente à vontade para dizer que os povos primitivos estavam além do pensamento ocidental moderno. Encontravam-se, de certa maneira, com as idéias mais avançadas da física.

E a idéia se estendia para usos e costumes. A norte-americana Margaret Mead catalogou papéis sociais em diferentes sociedades da Nova Guiné, que vivem isoladas umas das outras por montanhas íngremes. Conforme a cultura local, marido e mulher podiam ambos desempenhar papéis femininos, ou masculinos ou adotar comportamentos invertidos em relação ao esperado. E nos Estados Unidos tudo seria relativo: tudo o que se pode imaginar acontece, vale tudo. A idéia era usar outras culturas como exemplos de tolerância e convivência com os quais norte-americanos deveriam aprender.

Essa moda levou, disse Almeida, a um beco-sem-saída em que no final do século XX a antropologia ficou desacreditada. “Como se não fosse capaz de fazer juízo nenhum e recusar-se àquilo que seria obrigação do cientista, que é de alguma maneira subsidiar a ação e a conduta.” O papel moderador do antropólogo foi discutido numa polêmica recente sobre infanticídio em indígenas: grupos religiosos acusaram antropólogos de omissão, pois deveriam intervir impedindo essa prática, para alguns comparável ao aborto.

Almeida também apresentou exceções ao relativismo antropológico que expôs em sua palestra. Claude Lévi-Strauss, o antropólogo francês que está completando 100 anos de idade e fez seu experimento etnográfico no Brasil nos anos 1930, foi influenciado por uma teoria da relatividade mais próxima daquela formulada por Einstein. Ele fez uma análise mais refinada do que a de Margaret Mead, separando as relações sociais em categorias, como relações conjugais, entre gerações ou entre irmãos. Com isso, pôde concluir que, embora haja diferenças profundas em como as sociedades funcionam, elas compartilham princípios comuns: as relações entre consangüíneos, por exemplo, são acompanhadas por atitudes opostas às das relações de afinidade.

Mais recentemente, os indígenas brasileiros têm sido estudados pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que desenvolveu o que chamou de perspectivismo ameríndio. Essa concepção diz que sujeitos humanos e não-humanos apreendem o mundo a partir de pontos de vista distintos – os animais, por exemplo, se veriam como gente, conforme a visão de mundo dos índios: para uma onça, uma pessoa é uma presa. “A forma que cada espécie ocupa é, no fundo, um envoltório; é uma espécie de roupa da qual você pode entrar e sair”, explicou. Os índios dizem que essas roupas são como referenciais; ao adotar a roupa dos animais, nos vemos como humanos. Só os xamãs conseguem transitar entre os diferentes corpos e trazer para as pessoas os efeitos de mudar a perspectiva. O perspectivismo indígena sugere um humanismo generalizado. “A lição desse humanismo é que nós, que acreditamos que apenas nós somos humanos, somos os verdadeiros animais.” Ao tratarmos animais como presas, nos comportamos também como animais.

Mudam as interpretações, mas, sem querer, Einstein até hoje permeia áreas do conhecimento para as quais provavelmente nunca imaginou contribuir.

O tempo nas sociedades humanas
Mauro William Barbosa de Almeida, antropólogo e professor-doutor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp

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