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carta do editor | 363

Meninas-mães

A reportagem de capa desta edição se debruça sobre os mais recentes estudos que tratam da gravidez de adolescentes. Neste século, a gestação de mulheres entre 10 e 19 anos vem diminuindo no Brasil, embora persista com maior intensidade nas regiões mais carentes de educação e renda. O tema deixa de ser mais uma mazela social retratada por estatísticas quando os pesquisadores da área nos lembram que os corpos femininos são capazes de conceber nessa idade, mas não estão totalmente preparados para gestar e parir – em particular, no caso das meninas que têm entre 10 e 14 anos. Depois, há ainda que criar o bebê. Como escreveu o autor do texto, o editor de Ciências Biomédicas, Ricardo Zorzetto, são crianças cuidando de crianças.

O problema não se limita às questões de saúde. Ter filhos cedo tem impacto na vida adulta. Estudos feitos no Brasil e no exterior relacionam a gravidez na adolescência à manutenção da pobreza. Para quem se torna mãe muito jovem, fica mais difícil completar a formação escolar, cursar universidade e obter emprego com boa remuneração. Os filhos gerados por essas mulheres podem ser expostos à mesma situação, com menos acesso à educação e aos serviços de saúde, repetindo o ciclo de privação de orientação adequada que faltou às mães.

A complexidade da passagem para a vida adulta tem também dimensões que são menos notadas. Quando se está imersa em um ambiente que não oferece perspectivas educacionais e profissionais, tornar-se mãe cedo pode levar a um ganho de status desejado pela mulher. Mas quando se trata da classe média e alta, a escolha pela maternidade costuma demorar mais, em prol da estabilidade na vida financeira. Todas essas condições são abordadas na reportagem de capa.

Ainda na área da saúde, um movimento ligado à agricultura vem, aos poucos, ganhando terreno no estado de São Paulo. Hospitais vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) recebem desde 2024 alimentos provenientes da agricultura familiar e da agroecologia – um sistema em que os alimentos são produzidos de forma ambientalmente sustentável, sem agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos, respeitando os ecossistemas e as comunidades implicadas. Por enquanto, apenas quatro hospitais fazem parte da rede; este ano outros oito serão incorporados. Segundo seus idealizadores, o projeto é uma interação entre ciência, territórios de agricultura familiar e políticas públicas. Os editores Yuri Vasconcelos (Tecnologia) e Carlos Fioravanti (Ciências da Terra) contam como se chegou a esse arranjo em que todos ganham.

Das coisas da terra para o espaço. Ainda que de forma discreta, a celebrada missão Artemis II, da Nasa, mostrou que há oportunidades para a pesquisa brasileira se inserir nos projetos que envolvem o retorno do homem à Lua. Os quatro astronautas usaram no pulso um actígrafo desenvolvido por biólogos da Universidade de São Paulo (USP) e da empresa Condor. O dispositivo registra dados sobre os níveis de atividade física, o sono, o funcionamento do organismo em ambientes extremos, entre várias informações coletadas. Há outros projetos em andamento no Brasil relacionados à pesquisa espacial que podem dar frutos no futuro. A colaboradora Mariana Ceci detalha o que vem sendo estudado nessa área.

Por fim, dois assuntos díspares enriquecem esta edição. O que leva algumas empresas inovadoras a fazer negócios no exterior enquanto a maioria se contenta com o mercado nacional? A reportagem do editor de Política Científica e Tecnológica, Fabrício Marques, responde a essa pergunta. Outro tipo de inovação é esmiuçado pelo colaborador Eduardo Magossi, que nos conta como o jazz, criado nos Estados Unidos, passou a influenciar e a interagir com a música feita no Brasil a partir dos anos 1920.

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