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ARQUEOLOGIA

Muito antes da chegada de Cabral

Sambaquis revelam a vida dos primeiros habitantes do nosso litoral

imagem_05Há 500 anos, quando Cabral aportou na Terra de Santa Cruz, encontrou nativos mui “fremosos”, populações de língua Tupi e Jê do sul (tupi, tupinambá, carijó, caingangue e outros), mas esse povos não foram os primeiros a povoar a nova terra descoberta. Muito antes deles (e ainda mais anteriores aos navegadores lusitanos), e por milhares de anos, outros povos dominavam o litoral do Brasil: os sambaquieiros, os construtores dos sambaquis, pequenos morros de conchas presentes em quase toda a costa do país.

Até o final dos anos 80, para os arqueólogos o sambaqui seria produto de grupos nômades que, após comerem moluscos, ostras e mariscos, teriam deixado os restos amontoados. Mas estudos e análises mais recentes estão desfazendo essa idéia. A população sambaquieira era sedentária, demograficamente expressiva, estável no território em que vivia, com tecnologia e conhecimento muito grandes e com uma complexidade de organização social suficiente para justificar cemitérios comunais e alguma rede de troca regional. Os sambaquis, assim, não seriam obra do acaso, mas, ao contrário, construções propositais.

Essas são algumas das importantes conclusões do arqueólogo Paulo De Blasis, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), um dos coordenadores do Projeto Arqueológico Camacho: Padrões de Assentamento e Formação de Sambaquis em Santa Catarina, que contou com apoio da FAPESP e que pretende desvendar os hábitos, organização social e cultura desses povoadores pioneiros do Brasil. O trabalho é co-coordenado pela antropóloga Maria Dulce Gaspar e contou também com o apoio financeiro das fundações Wenner-Gren e Heinz e da Universidade do Arizona, dos Estados Unidos.

Os sambaquis – de tambá (conchas) e ki (amontoado), em tupi – se concentram em regiões lagunares. Sua presença é marcante entre o litoral sul de São Paulo e Santa Catarina (a maior concentração global de sambaquis, o querevela a importância desse estudo), na região de Cabo Frio (Rio de Janeiro) e no Recôncavo Baiano. No caso específico desse projeto, é estudado um conjunto de sambaquis instalado em uma área entre os municípios de Jaguaruna, Laguna e Tubarão, no litoral meridional catarinense, tendo seu epicentro na Lagoa de Camacho. Trata-se de um projeto interdisciplinar, envolvendo arqueólogos, biólogos, zoólogos e geólogos brasileiros e norte-americanos.

Monumentos
“Trabalhamos os sambaquis com uma perspectiva mais antropológica e passamos a considerá-los como monumentos propositais, não como área de descarte; sendo monumentos grandiosos, não poderiam ser trabalho de uma população nômade”, comenta De Blasis. “É muito difícil lidar com as características estruturais dos sambaquis e explicá-las como restos de comida, pois restos de comida formam montículos em volta das cabanas; logo, deveriam existir restos de carvão e outros tipos de lixo de caráter doméstico. E isso nem sempre acontece.”

Um exame zooarqueológico detalhado dos restos da fauna consegue identificar, por exemplo, espécies, número de animais e proporção de cada espécie em cada camada do sambaqui. Com isso, pode-se fazer um cálculo de quanto os detritos representam de massa alimentar consumida: “Apesar de também consumidas, as conchas eram na verdade usadas como material de construção”, diz o pesquisador. Os estudos zooarqueológicos também podem revelar como era a biodiversidade na época e, assim, os sambaquis se revelam importantes para trabalhos paleoambientais.

Outro braço interdisciplinar do projeto é a bioantropologia, para a análise dos esqueletos: “Além de os sepultamentos serem importantes pelas informações culturais que carregam, os esqueletos poderão informar muito sobre as populações: estatura, alimentação, hábitos, doenças e número aproximado de filhos”, observa o professor.

A hipótese sobre a construção do sambaqui Jaboticabeira II e de outros da região de estudo em Santa Catarina é de que tenham sido monumentos funerários, mas nem todos os sambaquis brasileiros tiveram esse objetivo. Uma estimativa preliminar sugere que o Jaboticabeira II tenha até 43 mil pessoas enterradas. Os sepultamentos aconteceram desde o início da formação do sambaqui, há 2.800 anos, e duraram 1.000 anos. “Isso nos fala de demografia, de uso contínuo do sítio durante esse período, o que significa estabilidade territorial”, explica De Blasis.

Descarnados
Os sepultamentos eram elaborados e cerimoniais, individuais e em grupo. Em geral, os corpos ficavam deitados e fletidos (com os membros dobrados e próximos ao tronco), algumas vezes estendidos. Possivelmente, eram descarnados, dada a posição do fêmur, muito próximo ao tórax. É também comum esqueletos que têm adornos e instrumentos. De Blasis explica que depois de o corpo ser enterrado havia um banquete, pois há muitos restos de comida. Isso ocorria na superfície do sambaqui, onde uma estrutura de madeira marcava o túmulo. Iniciava-se então, possivelmente com um intervalo de tempo, outra fase de deposição de conchas naquela parte do sambaqui, até que esse fosse utilizado novamente para sepultamentos. “Na medida em que se tem cemitérios coletivos, isso traz indicações sobre estabilidade regional, com a integração de várias aldeias.”

Evidências de epidemia
Outra evidência de densidade demográfica é encontrada pela paleopatologia. Têm sido encontradas sistematicamente evidências de epidemias, que causaram lesões nos ossos, características de doenças infecciosas. Essas doenças são típicas de adensamentos humanos. “Populações com grande mobilidade territorial e baixa densidade demográfica são muito mais resistentes a doenças endêmicas. Teremos condição de avaliar a demografia da região, mas isso ainda não pode ser feito antes de um estudo cronológico de camadas de vários sambaquis, para sabermos quantos estavam ativos ao mesmo tempo.”

Há indícios de que, no final do período da ocupação, os sambaquieiros estavam começando a ter um controle da alimentação vegetal: “É provável que tenha começado o que é chamado de ‘garden agriculture ‘, isto é, os indivíduos acabam por conhecer bem a mata e a trazer mudas para plantá-las próximo da habitação. Começam a aparecer mais cáries, por causa do consumo de carboidratos. Os sambaquieiros clássicos tinham pouca cárie, pois tinham baixo consumo de carboidratos.”

“Estamos digerindo as informações coletadas. Cada mês de trabalho de campo exige seis ou sete meses de trabalho de laboratório. Há trabalhos a sair sobre a indústria lítica, óssea e sobre os esqueletos humanos. Pretendemos transformar o sítio de Jaboticabeira II num canteiro de exploração sistemática. O objetivo passa a ser agora o estudo dos processos de sepultamento e a própria população esqueletal. Vamos investir também no estudo de possíveis níveis de hierarquização social dos sepultamentos e estudar as características da própria população, além fazer a cronoestratigrafia de cada um dos sítios, para poder compará-los. Os trabalhos até agora desenvolvidos já resultaram em nove artigos: quatro já impressos, dois no prelo e três em gestação.”

Os sambaquis foram muito destruídos até o começo dos anos 80, pois eram minerados para fazer cal. Atualmente acontecem depredações casuais, como a prática de motocross, mas é necessária vigilância constante para a preservação desses monumentos. Além dos dois coordenadores, a equipe do projeto conta com a participação de Paul Fish e Suzanne Fish, arqueólogos da Universidade do Arizona, EUA, Levy Figuti, zooarqueólogo do MAE/USP, encarregado da zooarqueologia do projeto, Sabine Eggers, bióloga do Instituto de Biociências da USP, que trabalha com a parte de bioantropologia, e Marisa C. Afonso, geoarqueóloga também do MAE/USP, especialista no período Quarternário.

A Arqueologia brasileira e os sambaquis

Maria Dulce Gaspar, co-coordenadora do projeto, lançou recentemente um livro destinado à divulgação científica, Sambaqui: Arqueologia do Litoral Brasileiro (Jorge Zahar Editor, 2000). Nele pode-se acompanhar a história do desenvolvimento dos estudos arqueológicos no Brasil referentes aos sambaquis nos últimos 130 anos e também o estágio atual das pesquisas da autora sobre sítios no Rio de Janeiro e na área do Projeto Arqueológico Camacho.

No início da arqueologia brasileira, no período de 1870 a 1930, o debate foi acalorado entres os que viam os sambaquis como fenômeno natural e os que os consideravam produto de povos pré-históricos. O livro da arqueóloga cita o fato de D. Pedro II ter acompanhado escavações realizadas em São Vicente e assistido à retirada de esqueletos de um sambaqui.

Diante das descobertas de muitos indícios de atividade humana, a corrente que via os sambaquis como produto da natureza perdeu sua força. De acordo com a autora, a corrente “artificialista” – que vê os sítios como obra de seres humanos – reúne duas vertentes que norteiam as pesquisas até hoje: uma os considera resultado da acumulação casual de restos de comida e, portanto, os vê como local de moradia; e outra, que os vê como construções propositais e, inclusive, devido à existência de muitos sepultamentos, os considera em parte monumentos funerários. Independentemente das características que assumem em cada região, Maria Dulce e os demais pesquisadores do projeto consideram os sambaquis fruto de um trabalho social ordenado visando à construção de “imponentes marcos paisagísticos”.

De acordo com a arqueóloga, até a década de 1950, a pesquisa em sambaquis consistia de trabalhos pontuais que não permitiam compreender a ocupação do litoral: “Nessa década começaram pesquisas arqueológicas consideradas modernas, quando foram obtidas as primeiras datações radiocarbônicas e feitas as primeiras análises sistemáticas dos sítios.”

Renovação
A partir de 1965, a arqueologia brasileira passou por uma renovação significativa, com a criação do Programa Nacional de Pesquisa (Pronapa), cujos pesquisadores dedicaram-se sobretudo aos sítios cerâmicos, e depois com a Missão Franco-Brasileira, instituída em 1973, voltada para o estudo sistemático de regiões de Minas Gerais e do Piauí. Segundo Maria Dulce, esses projetos foram essenciais na estruturação institucional e intelectual dos arqueólogos brasileiros, mas os sambaquis ficaram de certa forma à margem das pesquisas no período.

Os trabalhos realizados até o final dos anos 80 seguiram um esquema de referência, de acordo com as informações presentes no livro: os sambaquis teriam sido ocupados por bandos de coletores de moluscos e as alterações ambientais causadas pela mudança no nível do mar e/ou pelo esgotamento dos bancos de moluscos teriam feitos com que se tornassem pescadores.

Entre o final dos anos 80 e início dos anos 90 a arqueologia brasileira passou a sofrer transformações significativas, graças ao contato com debates e arqueólogos dos grandes pólos internacionais de pesquisa. Os sambaquis voltaram a receber atenção e os próprios sambaquieiros passaram a ser vistos de outra forma, não mais como bandos nômades de coletores de moluscos: “Busca-se analisar sua complexidade social, a possibilidade da existência de chefes e de especialistas na produção de esculturas de pedra e ossos e destaca-se a grandiosidade dos sítios como resultado de um trabalho social.”

Perfis:
Paulo De Blasis
, 45 anos, pesquisador e professor de arqueologia e história pré-colonial do Brasil no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, é graduado em História pela USP, onde fez o mestrado em Antropologia Social e o doutorado em Arqueologia.

Maria Dulce Gaspar, 45 anos, arqueóloga do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é doutora em Arqueologia pela USP, com pós-doutorado em Arqueologia na Universidade do Arizona, EUA

Projeto
Projeto Arqueólogico Camacho: Padrões de Assentamento e Formação de Sambaquis em Santa Catarina
Investimento
R$ 48.000,00

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