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Carta do editor | 45

Múltiplos caminhos para compreender as mudanças do fim do século

As ciências humanas não têm fornecido com a freqüência que desejaríamos material para as capas do Notícias FAPESP. Seria talvez porque, fiéis à natureza deste produto – que, sendo institucional, é essencialmente jornalístico, fruto de um jornalismo especializado, científico -, temos buscado imprimir sempre nesse elemento de tão ricas possibilidades que é a capa de uma revista, por meio de uma frase sintética e de uma imagem, uma informação nova e significativa da pesquisa científica e tecnológica feita no Estado de São Paulo. As ciências humanas talvez se prestem pouco a essa redução jornalística. Aparentemente, mais adequada às suas traduções simplificadas, seriam as ciências biológicas e as ciências da saúde, com seus resultados que, mesmo quando parciais, meramente incrementais, falam tão de perto à nossa vida, à nossa sobrevivência e aos nossos temores mais fundamentais. Ou as ciências exatas, com suas descobertas que fascinam porque, parecendo tão precisas, propõem a cada passo um alargamento vertiginoso do mundo físico em que estamos imersos. Ou ainda as inovações tecnológicas, que de certo modo nos prometem sempre um mundo mais confortável, mais manipulável, mais rico. Isso para ficar apenas em poucos campos sobre os quais a pesquisa investe.

Mas será mesmo isso? Ou, em nossa parcimônia em conceder espaço na capa da revista aos projetos da área de humanas, estamos involuntariamente refletindo um fenômeno que se passa no âmbito da pesquisa paulista? Questão para refletir. Afinal, as ciências humanas constituem a quarta área que mais recebe bolsas e auxílios da FAPESP (investimento de R$ 33,5 milhões, em 1998, correspondendo a pouco mais de 12% do total de recursos distribuídos por área de conhecimento), mas têm, por exemplo, uma presença pouco expressiva nos temáticos da Fundação, que são projetos maiores, com objetivos mais ambiciosos, quase sempre interdisciplinares e com metas de pesquisa muito claramente definidas. Dentro desses projetos, que têm desempenhado um papel crucial para empurrar a pesquisa paulista até um patamar próximo dos países mais desenvolvidos, a participação das ciências humanas e sociais foi de apenas 4,5% dos R$ 26,7 milhões que lhes foram destinados em 1998.

Sejam quais forem, no entanto, as reflexões que esses números possam suscitar, nesta edição as ciências humanas nos deram uma capa forte – e bela, apesar da dureza do tema. Uma nova compreensão sobre como moradores de rua, de cidades tão díspares como São Paulo, Los Angeles e Tóquio, aproveitam materiais descartados pela sociedade de consumo para construir seus abrigos que nomeiam casas; uma constatação espantada, depois de criteriosa investigação, de como conseguem extrair do que para nós se afigura uma situação limite uma dimensão última de dignidade humana, são, sem sombra de dúvida, contribuições para entendermos mais no cerne as mudanças políticas, econômicas e sociais deste final de século e, por que não?, alguma coisa mais da extrema plasticidade da natureza humana.

Do olhar científico sobre os sem-teto, que resultou inclusive numa exposição fotográfica no Museu de História Cultural da Universidade da Califórnia (onde permanecerá até 2 de janeiro de 2000), o leitor desta edição do Notícias FAPESP poderá saltar para algo tão completamente diverso como “o diálogo entre as máquinas“. Trata-se de uma matéria sobre um projeto de inovação tecnológica desenvolvido em parceria por pesquisadores da empresa Perrotti Informática e da Escola Politécnica da USP, cujo resultado é um software de segurança que permite a troca de informações entre computadores de qualquer tipo. E o que é melhor: com a possibilidade de gerar já este ano negócios de US$ 4 milhões.

A diversidade dos campos científicos e tecnológicos apoiados pela FAPESP permite também a esta edição passar pela paleontologia, mostrando os resultados de uma pesquisa fascinante que envolve o achado de fósseis em São Paulo, e suas revelações sobre o mar que cobria o Sudeste brasileiro, muito antes do tempo dos dinossauros, e desembocar na física de partículas. Aí, um grupo de jovens pesquisadores trabalha com a hipótese instigante de que os neutrinos, essas ainda mal definidas e misteriosas partículas, que não necessariamente precisam ter massa, podem interagir com a Terra muito mais do que se pensa.

Para concluir de forma circular, vamos voltar ao jornalismo científico, cuja busca paciente, incansável, é trazer os resultados da pesquisa científica ou tecnológica, mesmo a mais complexa, para a linguagem do senso comum. E isso porque a FAPESP, entendendo que bons jornalistas nesse campo podem melhor explicar aos contribuintes para que serve e em que se investem parcelas do seu dinheiro em ciência e tecnologia, está dando início ao Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, que também é objeto de matéria desta edição.

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