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Boas práticas

Múltiplos erros

Estudo sobre o poder emagrecedor do vinagre é invalidado por falhas na metodologia e na análise estatística

Foi alvo de retratação um artigo publicado em março de 2024 na revista britânica BMJ Nutrition, Prevention & Health que atribuía ao vinagre de maçã um suposto poder emagrecedor. O periódico tornou o paper inválido porque suas conclusões não puderam ser confirmadas em novas avaliações. Múltiplos erros foram identificados, desde problemas na seleção de participantes até a obtenção de resultados estatisticamente implausíveis. Outra falha foi a ausência de registro de protocolo do ensaio clínico, o que, contudo, já era de conhecimento da revista quando aceitou publicar o estudo.

O trabalho, de autoria de três nutricionistas da Universidade do Espírito Santo de Kaslik, em Jounieh, no Líbano, recrutou 120 adolescentes e adultos jovens, na maioria mulheres, entre 12 e 25 anos, com índice de massa corpórea (IMC) entre 27 e 34 kg/m2 (IMC entre 25 e 29,9 kg/m² indica sobrepeso e acima de 30 kg/m2, obesidade). Os participantes foram divididos em dois grupos. Por 12 semanas, um dos grupos tomou diariamente, em jejum, quantidades de vinagre de maçã diluído em água que variaram entre 5, 10 e 15 mililitros, enquanto o grupo controle recebeu apenas água misturada com ácido lático, para imitar o sabor do vinagre. O resultado foi animador: o consumo diário de vinagre de maçã não apenas reduziu o peso dos voluntários, mas também pareceu regularizar taxas de glicemia, triglicérides e colesterol. “O vinagre de maçã pode ser um suplemento antiobesidade promissor que não produz efeitos colaterais”, concluiu o estudo.

Não demorou para que a fama emagrecedora do vinagre de maçã ganhasse as redes sociais. Em paralelo, a revista recebeu questionamentos sobre o desenho, a análise e os resultados do estudo. Os editores solicitaram aos autores seus dados brutos e reavaliaram o estudo, constatando as inconsistências. Os autores concordaram com a retratação, mas afirmaram que as discrepâncias resultaram de “erros honestos”, causados por arredondamentos de dados e diferenças de formatação ao transferi-los  do software de análise estatística para planilhas de relatórios.

Ao comentar a decisão de publicar o estudo apesar da falta de registro do ensaio clínico, Martin Kohlmeier, editor-chefe do BMJ Nutrition, Prevention & Health, fez o mea culpa. “Em retrospectiva, foi uma decisão errada”, disse, segundo o site ScienceDaily. Já Helen Macdonald, coordenadora de ética e integridade de conteúdo do grupo BMJ, afirmou em nota à imprensa que, “por mais tentador que seja apresentar aos leitores um recurso aparentemente simples e útil para perda de peso, os resultados do estudo não se mostraram confiáveis, e jornalistas e outros profissionais não devem fazer mais referência a ele”.

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