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fitoterapia

Na batida natural

Em laboratório, composto de plantas medicinais pára arritmia que mata infartado do miocárdio

EDUARDO CESARGuaranáEDUARDO CESAR

No final do ano passado, a pesquisadora Vera Pontieri, do Laboratório de Emergências Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), se surpreendeu ao ver que o emprego de um fitoterápico nacional, um composto de quatro plantas medicinais vendido com o nome comercial de Catuama, conseguiu deter um tipo de arritmia que acometia um coração de coelho durante um experimento, prevenindo assim uma iminente parada cardíaca. O espanto foi tamanho que o teste foi repetido várias vezes em situações mais controladas, com uma monitoração detalhada dos batimentos cardíacos dos animais. O resultado foi sempre o mesmo. “Em dois minutos, os corações paravam de fibrilar”, diz o médico Augusto Scalabrini Neto, outro pesquisador do laboratório. “Não se conhece droga que faça isso.”

A fibrilação ventricular é um tipo de arritmia na qual as diversas fibras cardíacas contraem-se desordenadamente, impedindo que o sangue seja bombeado eficazmente pelo coração. Essa arritmia é a responsável por 90% das mortes imediatas após o infarto agudo do miocárdio em humanos. O único tratamento conhecido para corrigi-la, com cerca de 30% de sucesso se adotado até cinco minutos após o infarto, é aplicar no tórax do paciente um choque elétrico com um aparelho conhecido como desfibrilador. Os cientistas paulistas ainda julgam muito prematuro fazer alguma previsão sobre o uso potencial do fitoterápico, hoje vendido na forma de xarope ou cápsula como um tipo de energético sexual, para prevenir esse tipo de arritmias. “Mas vamos continuar as pesquisas com o produto”, garante Irineu Velasco, diretor da Faculdade de Medicina e também envolvido no estudo.

Produzida pelo Laboratório Catarinense, uma indústria nacional sediada em Joinville, a Catuama é um composto natural inventado há mais de 15 anos. Em sua formulação, entram quatro plantas encontradas nas matas nacionais: o guaraná (Paullinia cupana), a muirapuama (Ptychopetalum olacoides), o gengibre (Zingiber officinale) e uma espécie particular de catuaba (Trichilia catigua). Por se tratar de um fitoterápico, com um número indeterminado de substâncias agindo e interagindo em sua formulação, os pesquisadores não almejam encontrar o princípio ativo da mistura de ervas que parece atuar sobre a fibrilação. “Não sabemos o que está agindo na arritmia e a chance de descobrirmos isso é pequena”, comenta Scalabrini.

Estudos recentes feitos por João Batista Calixto, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em fitoterápicos, mostram que o produto é seguro, não-tóxico e realmente proporciona alguns benefícios. “A Catuama produz vasodilatação, sendo esse efeito mediado pela liberação de óxido nítrico”, afirma Calixto. “Ela também possui ação analgésica de longa duração e causa relaxamento na região do corpo cavernoso do pênis em animais e em humanos.” Até o momento,foram depositadas quatro patentes do produto, uma delas já aceita no Brasil e nos Estados Unidos. Outras pesquisas de Calixto levantaram ainda indícios de que o preparado natural pode ter efeitos antidepressivos e antioxidantes, além de prevenir a agregação de plaquetas nas artérias.

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