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Medicina

Na clínica, no laboratório, na rua

Rubens Belfort Júnior une pesquisa e ensino em oftalmologia a mutirões de cirurgia de catarata pelo país

Belfort Júnior: além do avô e do pai, o filho também é oftalmologista

LÉO RAMOSBelfort Júnior: além do avô e do pai, o filho também é oftalmologistaLÉO RAMOS

O oftalmologista paulistano Rubens Belfort Júnior é facilmente encontrado nas salas de aula e nos laboratórios da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), atendendo pacientes da rede pública no Hospital São Paulo ou na clínica privada da família. Quando passa algum tempo sem ser visto nesses lugares, pode-se apostar que ele está muito distante – provavelmente em congressos internacionais ou comandando mutirões de cirurgia de catarata em localidades do país onde os médicos são raros, como o interior da Amazônia.

Aos 70 anos, Belfort é presidente do Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa em Oftalmologia, faz pesquisa, ensina e participa das atividades de extensão sem pensar em parar. O pesquisador vem de uma família de médicos oftalmologistas. Waldemar Belfort Mattos, o avô, era ativo membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e foi o fundador da Clínica Belfort, em 1933. Rubens Belfort Mattos, o pai, foi professor da EPM e tinha amplo círculo de amigos célebres, como o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), o médico Noel Nutels (1913-1973) e os irmãos indigenistas Orlando (1914-2002) e Claudio Villas-Bôas (1916-1998), fruto de suas pesquisas para livre-docência quando estudou a visão dos índios brasileiros, em 1955.

O interesse pela pesquisa científica vem desde o bisavô, o engenheiro civil José Nunes Belfort Mattos, conhecido por ter dirigido o Observatório Astronômico e Meteorológico, instalado em 1912 na sua residência na avenida Paulista, ao lado de onde fica hoje o Museu de Arte de São Paulo (Masp). “Talvez por causa das lentes do meu bisavô, meu avô tenha se interessado por oftalmologia”, presume o pesquisador, que já tem um sucessor, o filho Rubens Belfort Mattos Neto, chefe do Setor de Oncologia Ocular da Escola Paulista de Medicina. Os dois trabalham parte do tempo juntos na Clínica Belfort e na universidade. Ele tem outro filho, economista, e duas filhas, administradoras de empresa.

Com um dos então chamados índios gigantes, em Mato Grosso (1971)...

ARQUIVO PESSOAL Com um dos então chamados índios gigantes, em Mato Grosso (1971)…ARQUIVO PESSOAL

Belfort Júnior completou a graduação em medicina na EPM em 1970, onde participou de atividades políticas contra a ditadura militar e também de trabalhos sociais como os no Parque do Xingu. Nesse período, integrou uma expedição de 30 dias ao interior de Mato Grosso com os irmãos Villas-Bôas. “Quando eles fizeram contato com os chamados índios gigantes, que de gigantes não tinham nada, eu era o médico da expedição”, conta, com satisfação. Daquela época ele guarda belas fotos que fez durante a estadia na selva, depois publicadas no Brasil e na França. Ainda hoje tem por hábito levar a câmera nas viagens.

O médico decidiu pela especialização em oftalmologia e em 10 anos, entre 1976 e 1985, fez um mestrado (na Unifesp) e dois doutorados, o primeiro em oftalmologia na Universidade Federal de Minas Gerais e o segundo em imunologia na EPM. Em meados dos anos 1980, as pesquisas sobre toxoplasmose ocular com o oftalmologista gaúcho Cláudio Silveira, na cidade de Erechim (RS), e Miguel Burnier, na EPM, mudaram o conhecimento sobre a doença. “Antes desses estudos, pensava-se que a toxoplasmose ocular era sempre congênita, ou seja, a criança já nascia com ela”, explica Ana Luisa Hofling de Lima, professora titular da Unifesp e responsável pelo Laboratório de Microbiologia do Departamento de Oftalmologia. “Eles investigaram e descobriram os fatores de risco, inclusive os relacionados à ingestão de linguiça caseira, contaminada pelo protozoário Toxoplasma gondii.” Perceberam também que a doença ocular adquirida poderia não apenas ser tratada, mas prevenida. “Quando começaram a falar disso nos congressos, ninguém acreditava, mas depois vieram a confirmação e o reconhecimento da comunidade nacional e internacional”, conta a pesquisadora. Hoje, as infecções oculares continuam como objeto de estudo de Belfort – no momento, ele trabalha para saber como o vírus zika pode afetar o sistema ocular.

...foto feita pelo pesquisador na mesma expedição

ARQUIVO PESSOAL …foto feita pelo pesquisador na mesma expediçãoARQUIVO PESSOAL

Outros pesquisadores conhecem bem o trabalho de Belfort Júnior tanto na universidade quanto nos mutirões realizados na Amazônia. Walton Nosé, professor livre-docente da EPM-Unifesp, é um deles. “Além do conhecimento científico, ele tem liderança e sabe agir em prol da medicina de modo político e social”, atesta o médico. “Em suas ações, sempre se mostra agregador.” Por causa da atuação de Belfort Júnior na academia e em projetos sociais, a oftalmologista Andrea Zin, do Rio de Janeiro, o considera “uma unanimidade”. “Quando participo de congressos fora do país e percebem que sou oftalmologista brasileira, outros pesquisadores e médicos me perguntam se conheço o Rubens”, informa ela, uma das fundadoras do Instituto Catarata Infantil, do Rio, e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Os mutirões para cirurgias de catarata começaram em meados dos anos 1980. O pioneiro foi o oftalmologista Newton Kara José, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Belfort Júnior logo aderiu à ideia e passou a montar suas próprias expedições. Os dois sempre foram amigos e conseguiram atender em seus mutirões dezenas de milhares de pessoas com catarata e diabetes ocular, pelo país inteiro, da periferia de São Paulo às cidades ribeirinhas amazônicas.  “Trabalhando com equipes de diferentes profissionais de saúde fica mais fácil atender muitos pacientes em um único dia”, afirma Belfort.

Nos mutirões, a equipe de médicos da Unifesp procura sempre levar os melhores equipamentos, seguindo a determinação imposta por Belfort: “Não dá para usar apenas aquilo que é mais barato em quem tem menos recursos”. Acompanhar o pós-operatório é sempre complicado em localidades distantes, o que faz os médicos terem de trabalhar com tecnologias de rápida e alta efetividade. Os exames prévios e, se necessário, a cirurgia são feitos no mesmo dia, sempre associados a protocolos de pesquisa.

O oftalmologista no Xingu, em 2003, aplicando teste em um indígena

ARQUIVO PESSOAL O oftalmologista no Xingu, em 2003, aplicando teste em um indígenaARQUIVO PESSOAL

O médico, parceiro e pesquisador Jacob Cohen, da Universidade Federal do Amazonas, elogia o espírito empreendedor do colega. “No interior do estado do Amazonas até hoje não existem médicos oftalmologistas capacitados para a realização de cirurgias de catarata. Nesses últimos anos, graças à parceria com a Unifesp e o Instituto da Visão, foram realizadas mais de 2 mil cirurgias, com tecnologia de ponta e cirurgiões capacitados”, conta.

A idade não diminuiu o ânimo de Belfort pelas expedições. “As pessoas ainda se surpreendem ao ver um professor de 70 anos passar 20 horas em um barco no interior da Amazônia, dormindo em rede para chegar até a população de interesse para pesquisa ou assistência médica”, conta o filho Belfort Neto, atual presidente da Sociedade Pan-americana de Oncologia Ocular. Na capital paulista também ocorrem mutirões – e o processo não é tão diferente daqueles realizados em outras partes do país. Segundo Belfort Júnior, em um dia no Hospital São Paulo, um grupo de 100 profissionais chegou a atender 8 mil pessoas.

Para o médico, o equilíbrio entre a vida de pesquisa e o ensino na universidade e a atuação no consultório privado é igualmente importante. “O consultório privado é necessário para o médico não só do ponto de vista econômico – serve também como um contraponto clínico e cirúrgico porque os pacientes têm perfis muito diferentes”, explica.

Turma da Escola Paulista de Medicina, em 1973. Belfort é o primeiro à direita na segunda fila

ARQUIVO PESSOAL Turma da Escola Paulista de Medicina, em 1973. Belfort é o primeiro à direita na segunda filaARQUIVO PESSOAL

Os problemas mais comuns encontrados pelo oftalmologista no interior do Brasil são catarata e diabetes ocular, doenças que causam cegueira. Ambos afetam principalmente os idosos. Além desses, há outra questão importante: a falta de óculos para a população carente. “No Brasil, a maior causa de má visão acima dos 40 anos é a falta de óculos”, afirma. Se a catarata diminuir drasticamente no país e houver óculos disponíveis para todos, mais de 90% dos problemas oculares estarão resolvidos, avalia Belfort Júnior.

Para o especialista, óculos para perto deveriam ser vendidos em farmácias e lojas, como ocorre nos Estados Unidos e em muitos outros países. “Não é preciso ir ao ortopedista para comprar sapatos”, compara ele. Sua maior satisfação durante os mutirões nem são as cirurgias de catarata feitas em um único dia, mas as centenas de óculos dados para a população carente, muitas vezes professoras e equipes locais de saúde. Em boa parte dos casos, a receita é simples. “Basta dar dois ou três óculos ao paciente e perguntar: com qual consegue enxergar as horas no relógio?” Testes simples como esse poderiam ser feitos sem necessidade de consulta com oftalmologista, defende o médico, ciente de que sua opinião não é unanimidade.

Ao lado do pai durante um congresso em Houston, nos Estados Unidos, em 1972

ARQUIVO PESSOAL Ao lado do pai durante um congresso em Houston, nos Estados Unidos, em 1972ARQUIVO PESSOAL

Em 2000, Belfort Júnior desenvolveu um programa-piloto com o Ministério da Saúde com o objetivo de distribuir óculos durante consulta do Sistema Único de Saúde (SUS). “Mas a ideia de criar óculos genéricos para distribuí-los em grande quantidade não deu certo”, conta. O ministério chegou a atender 10 mil pacientes nas cidades de São Paulo, Manaus e Recife, e, no momento de o projeto ganhar escala e atingir 100 mil pessoas, houve troca de governo e a proposta não foi adiante.

No momento, Belfort Júnior pensa nos desafios que ainda terá pela frente. Um deles é trabalhar cada vez mais com os jovens. “O indivíduo velho precisa continuar a publicar e saber aprender com o novo”, afirma. Ele explica sua tese: no começo da carreira, os jovens aprendem com os mais velhos e, algum tempo depois, ambos passam a trabalhar juntos. Por fim, o mais experiente é que, dentro de uma equipe, deve colaborar para apenas ajudar a compor resultados para o trabalho principal de quem é mais novo. “O processo é longo, pode ser difícil, mas natural.”

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