Guia Covid-19
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Pesquisa na quarentena

“Não dar andamento aos projetos de pesquisa estava me consumindo”

Na pandemia, o biólogo Hugo Fernandes teve trabalho de campo paralisado, buscou maneiras de dar aulas práticas de forma remota, acompanhou incêndios no Pantanal e voltou a estudar para fazer divulgação científica

Com a necessidade de difundir informação sobre a Covid-19, biólogo precisou aumentar sua ação em redes sociais

Cecília Licarião

Minha vida virou de cabeça para baixo quando a pandemia chegou. Sou pesquisador e professor de universidade pública. Estava terminando meu estágio probatório na Uece [Universidade Estadual do Ceará] dando aulas, coordenando dois laboratórios (o Converte [Laboratório de Conservação de Vertebrados Terrestres] e o Ciente [Núcleo de Divulgação Científica da Uece]), projetos de extensão e pesquisas que envolviam trabalho de campo e, de repente, tudo parou. Eu trabalhava com divulgação científica sobre zoologia e conservação em rádio, televisão e nas redes sociais, com apoio do Instituto Serrapilheira, e precisei ir para a linha de frente da comunicação sobre Covid-19.

No meu perfil, até então voltado para conservação, as pessoas passaram a perguntar sobre a pandemia. Queriam saber o que fazer, se precisavam usar máscara, o que iria acontecer e o que era esse vírus, tudo com muita urgência. Apareceram 90 mil novos seguidores no Instagram e isso tomou proporções muito grandes no meu trabalho. Tive que voltar a estudar toda a parte de saúde e tomei cuidado para não me colocar como uma fonte, mas como um mensageiro da informação, já que não é minha área de pesquisa.

Montei uma equipe com infectologista, médico, estatístico e ecólogo, para falar da parte de epidemiologia. Recebíamos fake news e tentávamos desmontá-las em questão de horas. Por conta disso, sofri ataques: foram 54 tentativas de hackear meu e-mail, Instagram, Facebook e WhatsApp. Senti um nível de estresse como poucas vezes experimentei na vida. De entrega, de dormir pouco.

Entre os projetos que ficaram praticamente paralisados até novembro de 2020, se destacou a criação da Lista Vermelha de Fauna Ameaçada do Ceará, da qual sou coordenador científico e da parte de mamíferos. São 1.285 espécies ao todo – nem esse número era conhecido. O levantamento da fauna do estado foi lançado no começo deste ano, depois de dois anos de trabalho. Quando veio a quarentena, levamos um tempo para entender a situação e planejar como continuar e organizar o trabalho de uma equipe com mais de 120 pessoas. Retomamos com tudo remoto e funcionou. A lista deve ser publicada no meio de 2022.

As pesquisas de campo de monitoramento de mamíferos também pararam. Nosso trabalho envolve acompanhar como populações reagem a pressões como caça, atropelamentos e mudanças na alimentação, para pensar em estratégias de conservação que mitiguem o impacto humano. Muito embora eu use tecnologia de câmera automática e gravadores, é preciso se deslocar para instalar os equipamentos, fazer manutenção e recolher os dados.

Lawrence Wahba Ação de combate a incêndio e resgate de animais no Pantanal, em 2020, envolveu organizar uma brigada civilLawrence Wahba

Observamos mamíferos de médio e grande porte, difíceis de serem capturados. Nossos olhos na natureza são essas armadilhas fotográficas. Assim, fazemos análises da comunidade de animais de determinada região com informações preciosas sobre qualidade do ambiente, dinâmica populacional, dispersão de sementes, serviços ecossistêmicos e ambientais. Aqui no Ceará, monitoramos populações de mamíferos na serra de Baturité e, na Reserva Natural Serra das Almas, incluindo a onça-parda, espécie muito rara no estado. Em Quixadá, temos monitorado a densidade e a estrutura populacional de jaguatiricas. Aos poucos voltamos ao trabalho de campo.

Quando aconteceu o incêndio no Pantanal, no ano passado, eu estava concentrado na comunicação sobre a pandemia e tive que escolher qual das duas tragédias ajudaria a mitigar. Fui para lá em agosto, junto com o Lawrence Wahba [documentarista de vida selvagem], para documentar e mostrar às pessoas pelas redes sociais o que estava acontecendo. Com a ONG [organização não governamental] Instituto Homem Pantaneiro, surgiu a ideia de criar uma brigada civil. Conseguimos o apoio de algumas celebridades e, antes mesmo de chegar ao Pantanal, lançamos a ideia e a campanha. Deu certo. Por meio de doações de pessoas e de empresas, arrecadamos mais de R$ 1 milhão para montar a Brigada Alto Pantanal. Deu para comprar equipamentos de primeira linha, como carro-pipa, bomba-d’água, trator, equipamentos de proteção individual, e para contratar 14 brigadistas.

Rodamos mais de 2 mil quilômetros [km] do sul ao norte em mais de 20 dias. Começamos na parte sul, para mostrar um Pantanal resiliente, que estava se recuperando do fogo que atingiu a região em 2019. Já na expedição à serra do Amolar, mais ao norte, vimos o inferno. É um cenário de guerra, animais mortos, esturricados, fugindo com a pata queimada. Vi coisas que jamais vou esquecer, traumas humanos, como um dos brigadistas que perdeu um filho que caiu no rio. Uma série de situações que são muito difíceis de colocar para fora. Como pesquisador, eu conseguia passar para a imprensa o que estava acontecendo e dei 60 entrevistas para diversos veículos só sobre o Pantanal.

Durante a pandemia, muita coisa mudou também nas aulas. No Programa de Pós-graduação em Sistemática, Uso e Conservação da Biodiversidade da UFC [Universidade Federal do Ceará], onde também sou professor, dou uma disciplina de taxonomia de campo. Ela consiste em ficar 10 dias no mato com os alunos, um desafio para conseguir adaptar à modalidade remota. Dei aula usando slides e mostrando como montar armadilhas, o que eu faço quando coleto o animal e quais são os procedimentos. Eles veriam tudo isso na prática, inclusive os macetes que usamos, mas infelizmente isso se perde quando se faz remotamente. Quando as aulas presenciais voltarem, defendo fazer duas turmas de uma só vez: a atual, que não foi a campo, e a próxima, que deverá ir. Será um jeito de ensinar diretamente na natureza.

Cecília Licarião Trabalho de campo na serra do Baturité, no Ceará, envolve monitorar populações de mamíferosCecília Licarião

Na graduação, na Uece, é ainda mais complicado. A biologia tem uma parte prática que é muito necessária. Dar aula de zoologia e morfologia usando imagens não tem o mesmo resultado. Além disso, os alunos do campus do Sertão Central, em Quixadá, onde dou aula, estão em uma zona rural. As aulas só começaram em setembro de 2020, depois que a universidade montou uma logística para distribuir chips de internet móvel. Mesmo assim, o sinal é ruim.

Tenho aluno que sai de casa de manhã cedo e percorre 15 km em estrada de terra para usar um computador na cidade, ou que precisou trabalhar mais para enfrentar a piora da situação econômica. Não dá para cobrá-los como se não existissem a pandemia e todas essas dificuldades. Gastamos muita energia para entregar algo razoável, vamos ter que olhar para essa defasagem depois.

Durante o primeiro semestre de 2021 decidi ficar menos ativo nas redes sociais e passei a tocar a divulgação científica de forma tranquila. Divulgadores especialistas na área foram preenchendo os nichos sobre a Covid-19 e consegui focar mais no lado acadêmico. Não dar andamento aos projetos de pesquisa estava me consumindo. Oriento quatro alunos de mestrado e um de doutorado. Agora as coisas estão entrando nos eixos.

No ano passado, perdi minha avó e alguns amigos de infância e de faculdade para a Covid-19. Agora meus pais estão vacinados e isso me dá um pouco mais de tranquilidade. Hoje, com a máscara mais correta, com uma noção melhor da infecção e de como me portar em um ambiente aberto, ando de bicicleta.

Passei boa parte do pior período da pandemia isolado com a minha esposa, com exceção das saídas para trabalho de campo que foram retornando e das idas ao Pantanal. Chegamos no apartamento em que moramos, em Fortaleza, no dia 7 de janeiro de 2020, às 9h da manhã. No mesmo dia, à meia-noite, ela pegou um avião para a Irlanda, a trabalho. Veio a pandemia e ela teve que voltar, chegou no dia 14 de março, dois dias antes de os aeroportos fecharem. Nós dois nunca tínhamos morado com alguém antes, e de repente ficamos em um apartamento 24 horas por dia, sete dias por semana. Foi difícil para os dois. No dia 26 de agosto vamos oficializar a união no papel. Se conseguimos sobreviver a tudo isso, vai dar certo. Estou feliz.

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