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Primeiro Telescópio

Noites Galileanas

Entre 22 e 24 deste mês, milhares de pessoas de 140 países, inclusive o Brasil, irão observar o céu como fez o mestre italiano há 400 anos com sua luneta

Há quatro séculos, Galileu estava concentrado em fabricar um instrumento que teve um profundo impacto na história, o telescópio

Há quatro séculos, Galileu estava concentrado em fabricar um instrumento que teve um profundo impacto na história, o telescópio

Neste mês de outubro, há 400 anos, Galileu estava concentrado em fabricar um instrumento que teve um profundo impacto na história. Não que fosse um objeto conceitualmente novo. A luneta já havia sido inventada antes, na Holanda, e o próprio Galileu já tinha vendido um exemplar a alto preço para o Doge de Veneza. A vantagem da luneta em “ver o inimigo antes que ele nos veja” já havia sido consagrada em seu uso militar a partir da demonstração feita em 25 de agosto de 1609. Com a paz de um salário melhor e mais tempo para pesquisa, em outubro daquele ano, Galileu já estava completando uma pequena maravilha, um telescópio capaz de aumentar 20 vezes o tamanho aparente de um objeto. Mas, estranhamente, agora ele a usava de noite, apontando acima do horizonte. Uma excentricidade sem nenhuma utilidade perceptível, como muitas das pesquisas científicas de nossos dias. Em dezembro, Galileu começou a desenhar freneticamente mapas da Lua, depois das Plêiades, Órion, Via Láctea, Júpiter e suas luas, Vênus, Saturno, Marte e as manchas solares. Muitas coisas não se encaixavam na visão tradicional de perfeição celeste. Depois dessas noites que Galileu passou em claro, o mundo nunca mais seria o mesmo. Novos horizontes e uma nova maneira de olhar a natureza se inauguravam.

É claro que a glória não é do instrumento, mas de como ele foi usado. Thomas Harriot, na Inglaterra já havia feito mapas da Lua (6 meses) antes de Galileu e continuou fazendo depois, sem causar o menor impacto. Galileu tinha objetivos muito mais amplos que simplesmente registrar e relatar. Queria trabalhar uma nova forma de relacionamento com a natureza que não se submetesse ao crivo da autoridade, ao contrário do hábito da época. Precisava de apoio, e descreveu tudo o que via e pensava no famoso livrinho: Mensageiro das Estrelas. Ao mesmo tempo, na Polônia, Johannes Kepler, em seu livro Astronomia Nova, abolia os círculos como forma de repesentar os movimentos dos astros, introduzindo as elipses. Acabava a perfeição do céu e ele precisava ser redescoberto.

É curioso que tanto Galileu quanto Kepler haviam admitido, por muito tempo, uma concepção clássica onde o círculo era a figura fundamental para os corpos celestes e representava o movimento natural, sem força (inercial). A geometria se aplicava ao céu, mas a física se restringia à Terra, onde os movimentos era tidos como forçados. A adesão ao heliocentrimo os levou a romper com essa tradição, mas sem conseguir formular uma alternativa. Cerca de 80 anos mais tarde, o livro de Newton Princípios Matemáticos da Filosofia Natural juntava as órbitas keplerianas e o princípio inercial de Galileu para construir a primeira teoria científica da história. Tanto o céu quanto a Terra passavam a fazer parte de uma mesma natureza. No fundo, a colocação da Terra em órbita em torno do Sol, feita por Copérnico, não era tão inocente quanto parecia. A própria Igreja Católica a tolerou como artifício de cálculo, mas ela trazia escondida a entrada da morte no céu. E isso é o que lhe deu vida, como pode se ver pelos temas de “nascimento” e “morte”, que tiveram grandes desdobramentos depois disso, especialmente na astrofísica moderna.

Essa temática de transformação (mudança, dessacralização) apareceu no Renascentismo, ao mesmo tempo, na ciência e na pintura. Num paralelo à entrada da Terra (como lugar da morte) no céu, podemos ver na pintura uma valorização gradativa do humano nas cenas sacras e uma espécie de humanização dos deuses, em sofrimento, com corpos desnudos. A eliminação dos limites entre o céu e a Terra, o sacro e o profano foi um grande movimento nos anos 1500-1600, cuja causa não está completamente explicada. Entretanto, essa dicotomia ainda se mantém até hoje no imaginário de nossos cidadãos, para quem céu e Terra são coisas antagônicas, mesmo sabendo que vivemos num astro, que os planetas são outras terras e que a energia e a matéria de nossos corpos vieram do céu, que muitos produtos e técnicas foram criados para entender os astros.

Isso é explicável quando notamos que poucas pessoas tiveram, de fato, acesso a essas revoluções. Quantas pessoas ainda não tiveram a oportunidade de ver o que Galileu viu através de sua luneta, quatro séculos atrás? É para aproximar as pessoas dessa realidade cósmica em que vivemos que a rede do Ano Internacional da Astronomia está realizando o programa mundial Noites Galileanas, em 140 países, nos dias 22, 23 e 24 de outubro. Procure no “Calendário de Eventos” do site www.astronomia2009.org.br a programação para a sua cidade. No mesmo site, você encontrar textos e outros aplicativos que ajudam a compreender e a programar as observações. Note que Júpiter (cujas 4 luas por si só já seriam suficientes para garantir a fama de Galileu) pode ser visto como um astro brilhante bem alto no céu, na primeira parte da noite. Para participar desse evento mundial, saia para fora e localize-o no céu, mesmo que somente a olho nu.

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