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Pesquisa na quarentena

“Nosso objeto de estudo é a sociedade e o resultado precisa ser apresentado a ela”

A biomédica Jaqueline Goes faz parte do grupo que sequenciou o primeiro genoma do vírus Sars-CoV-2 no Brasil

No laboratório, a atividade de sequenciamento de DNA é intensa para o monitoramento genômico da Covid-19

Arquivo pessoal

A técnica que utilizamos para realizar o sequenciamento do genoma do vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, foi trazida para o Brasil para um projeto com o vírus zika, em uma colaboração entre o grupo da médica Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo [IMT-FM-USP], o do virologista Luiz Alcântara, da Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] na Bahia, do qual eu fazia parte, e mais dois grupos no Reino Unido: do geneticista Nicholas Loman, da Universidade de Birmingham, e o dos biólogos Nuno Faria e Oliver Pybus, da Universidade de Oxford. Naquela época da epidemia de zika, em 2017, viajamos em um laboratório móvel pelo Nordeste e fui treinada, junto com o resto da equipe. A biomédica Ingra Claro, que era estudante de especialização e atualmente é estudante de doutorado no grupo de Ester Sabino, foi uma das primeiras a serem treinadas. 

Me tornei referência no grupo da Fiocruz na Bahia para fazer esse tipo de sequenciamento. Trabalhamos com zika, chikungunya e dengue. Meu doutorado acabou sendo sobre vigilância genômica utilizando o sequenciamento feito pelo MinIon, um dispositivo portátil. De lá para cá, continuei trabalhando com a mesma técnica, que permite análise em tempo real. 

De certa forma, o trabalho com o Sars-CoV-2 é um desdobramento desse treinamento. Quando finalizei o doutorado, o grupo da Bahia se dissolveu e migrou para Minas Gerais e Rio de Janeiro. Eu preferi vir para São Paulo e prestei seleção de pós-doutorado no grupo da Ester Sabino. Mudei de cidade, mas de certa forma o trabalho em grupo continuou o mesmo.

Minha missão era tocar projetos que estavam parados – como febre amarela e dengue – além do meu estudo principal, que também é sobre dengue. Nos primeiros seis meses de pós-doutorado (de julho até o fim do ano passado), comecei a organizar e assumir a coordenação desses projetos. Me envolvi no treinamento de quatro estudantes, o que fiz até o fim do ano.

No recesso de final de ano fui visitar a família em Salvador. Já se falava de casos de uma pneumonia  desconhecida na China, mas não parecia muito importante porque lá epidemias de infecções respiratórias são comuns. Mas no início de janeiro a Ester me mandou uma mensagem: “Precisamos correr para nos organizar, porque essa doença vai chegar ao Brasil”. Antecipei minha volta para realizar esse preparo do laboratório junto com as colegas – Ingra Claro, Flavia Sales e Erika Manuli.

Nos articulamos com os colaboradores do Reino Unido, que já estavam trabalhando com o Sars-CoV-2. Eles desenharam os primers [segmentos de ácidos nucleicos necessários à replicação de RNA/DNA] que usamos nas reações específicas para sequenciar o vírus e nos encaminharam. Em paralelo, começamos a solicitar os reagentes necessários para toda essa estrutura. Janeiro foi um mês de preparo, na aquisição do material e no treinamento das pessoas. Pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz foram ao nosso laboratório para discutir os protocolos diagnósticos e treinar a técnica de sequenciamento. A partir disso, ficamos na expectativa da chegada do vírus e continuei os trabalhos com dengue, inclusive com o grupo do Adolfo Lutz.

Como tínhamos essa proximidade, estávamos sempre informados sobre possíveis casos que chegavam a eles. Durante o Carnaval, o primeiro diagnóstico positivo foi feito – no hospital Albert Einstein, com a contraprova no Adolfo Lutz. Eles então nos convidaram para sequenciar o genoma do vírus com eles. Era uma tecnologia que dominávamos, e eles deram apoio com espaço e colaboração. Nossa tecnologia principal é o MinIon. Por ser pequeno e portátil, temos flexibilidade para, se necessário, analisar apenas uma amostra e já dar uma resposta sobre um paciente grave que esteja na UTI, por exemplo. No Adolfo Lutz usam o Ion Torrent, que é semelhante, mas demanda um esforço laboratorial maior, com ao menos 96 amostras a cada leva. 

Sequenciamos os dois primeiros genomas e eles fizeram mais quatro, que compuseram o primeiro artigo que publicamos. Chegamos a algumas conclusões, mas seis genomas é muito pouco para acompanhar uma epidemia. Então continuamos recebendo amostras e sequenciando, o que rendeu o artigo maior, na Science, com 427 genomas. 

De lá para cá, continuamos a sequenciar na medida do possível. Estamos com dificuldade de receber material, porque as importações seguem uma rota longa, passando por Miami para esperar autorização. Nossa última importação de células de fluxo, um componente do sequenciador, demorou dois meses para chegar e os produtos vieram danificados pelo transporte. Solicitamos a substituição, mas já estamos com quatro meses de atraso, sem poder trabalhar no nosso ritmo de costume. Normalmente conseguiríamos produzir bastante, porque temos uma equipe grande e bem treinada.

A ideia é continuar sequenciando, agora com foco em oito cidades que apresentam maior número de casos, para entender como a epidemia se dispersou nelas. Não depende só do vírus, mas também do comportamento da população. Algumas cidades conseguiram manter a quarentena, conter o vírus de forma mais efetiva do que outras. Isso vai ser incluído na análise para entendermos a influência do comportamento populacional para além da interação com o vírus. 

Por causa da pandemia, vamos trabalhar com envio de amostras em vez de viajar, que poderia ser arriscado. Temos parceria com alguns laboratórios, como na Universidade Federal de Minas Gerais, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na própria Fiocruz da Bahia e no Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará. Em São Paulo contamos com o Hospital das Clínicas e a Secretaria de Vigilância em Saúde. São órgãos que, em parceria, têm contribuído para que possamos analisar dados epidemiológicos e os genomas que são necessários para podermos inferir algo em relação à dispersão da doença.

Recebemos muitos pedidos de treinamento e cursos, que durante a pandemia ficaram em uma caixinha do aguardo. Estamos tentando retomar na modalidade on-line, para o Brasil inteiro, para continuar a multiplicar esse conhecimento. Enquanto a vacina não ficar pronta, temos que nos adaptar.

Conseguimos produzir bastante no laboratório antes da quarentena, em março. Quando começou, fizemos uma escala de utilização: só ia para o laboratório quem morava próximo e tinha condições de ir caminhando ou tinha veículo próprio. Isso evitava que pegassem transporte público, que em São Paulo é uma grande fonte de infecção. A ventilação nas estações de metrô, por exemplo, é insuficiente para inibir a circulação do vírus se houver pessoas infectadas. Ficamos com cerca de seis pessoas, de um grupo de 20, habilitadas a frequentar o laboratório, para fazer tudo. Foi um período de trabalho árduo, chegávamos a ficar 18 horas dentro do laboratório. Até as refeições fazíamos lá, para ganhar tempo.

Agora a equipe toda voltou a trabalhar e seguimos um protocolo internacional. Todos os que frequentam o laboratório precisam responder a um questionário falando sobre sintomas e a possibilidade de ter entrado em contato com alguém com sintomas. Uma equipe médica – voluntários que trabalham em colaboração com a Ester – nos atende quando há algum sintoma ou é necessário fazer algum pedido. Têm sido feitos testes uma vez por mês em todos os que frequentam o laboratório. 

Para cada grupo, temos quatro a cinco pessoas por turno de trabalho. Os ambientes também têm capacidade máxima. Algumas salas, por exemplo, só comportam três pessoas de cada vez. Tem também o distanciamento de 2 metros entre as pessoas, as cadeiras estão bloqueadas. Além disso, usamos avental, máscara o tempo inteiro, face shield [protetor transparente para o rosto] e luvas. É a forma que encontramos de trabalhar. É preciso fazer a reserva da utilização do espaço no sistema on-line por no máximo seis horas, então é preciso realizar o trabalho rapidamente. Ninguém se infectou no laboratório ou na rota para o trabalho. Tivemos alguns casos na equipe, mas de pessoas que estavam afastadas.

Passei seis meses treinando as estudantes no ano passado, e agora a parte laboratorial é em grande parte tocada por elas, tenho ficado mais em casa. Para mim é difícil, porque gosto da ação do laboratório, mas é preciso evitar aglomeração de pessoas no ambiente do laboratório. Posso estudar, fazer cursos relacionados à análise de dados, me concentrar na escrita de projetos. Toda semana temos duas a três reuniões com o pessoal do Reino Unido, fazemos idealizações de projetos, planejamento de artigos. 

Quando concluímos o sequenciamento do Sars-CoV-2, chegamos a parar o laboratório por alguns dias para atender a imprensa. A Ester entende que é importante mostrar o trabalho que estamos fazendo, principalmente para que a população veja que as pesquisas realizadas no Brasil têm importância, que precisamos de financiamento e recursos, que as coisas não acontecem como em um passe de mágica. Sofremos muitas críticas de colegas por nossa exposição. Um dos grandes erros dos pesquisadores no Brasil é achar que pesquisa deve ser feita só para pesquisadores. Nosso objeto de estudo é a sociedade e o resultado precisa ser apresentado e ela. Pagamos um preço muito alto no Brasil por não termos nos comunicado com a população por muitos anos. Sofremos cortes com o apoio dela. Na minha opinião, a culpa também é nossa, porque enquanto cientistas nos distanciamos, não conseguimos nos comunicar com linguagem simples. 

No final de outubro fui convidada pela ONU [Organização das Nações Unidas] para participar de um projeto de popularização da ciência. Se chama equipe Halo, pensando na questão da iluminação da ciência. A ideia é usar plataformas digitais – principalmente o tik tok – para divulgação de trabalho que contribua de alguma maneira para o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19. Tem gente do mundo todo, no Brasil somos seis. Cada um mostra sua atividade de pesquisa e tira dúvidas do público. Recentemente postei umas breves tomadas de cenas do laboratório. Foi algo muito simples – e o vídeo já tem mais de 600 mil visualizações. As pessoas perguntam, querem saber do que se trata, o que tem dentro dos tubinhos. Tenho me esforçado para responder. Já é um processo educativo. Uma das perguntas mais frequentes que recebo é: “Que profissão faz isso?”. 

De vez em quando aparecem haters, que afirmam que cientistas estão mancomunados para obrigar as pessoas a tomarem vacinas que vão causar alterações no DNA delas. Quando vejo esse tipo de comentário, penso que é nisso que preciso trabalhar. Se a pessoa diz isso, é porque não tem conhecimento de como as coisas são. Dá trabalho, mas tenho essa veia da docência. Fui professora em uma faculdade de Salvador durante cinco anos durante o doutorado – ministrava uma disciplina considerada das mais difíceis, biofísica. Para ensinar é preciso trazer uma linguagem diferente, e isso forjou minha capacidade de me comunicar com as pessoas, estar diante de uma câmera. 

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