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João Carlos de Souza Meirelles

O agronegócio e os homens da pesquisa

Somente expandindo-o, o Brasil voltará a crescer com consistência

O melhor do fracasso da assembléia da Organização Mundial do Comércio, que terminou inconclusiva, no último mês de 1999 – em meio a inesperadas e violentas manifestações de rua e à muito previsível nova demonstração de arrogância dos países mais ricos – foi ter colocado em pauta a importância do agronegócio para a imensa maioria dos países. Quem, do ponto de vista do Brasil, analisa friamente o que ocorreu antes, durante e depois dessa reunião de representantes de 134 países percebe ter soado, afinal, o derradeiro sinal da alerta para a necessária revisão da política de desenvolvimento econômico, que resolva, definitivamente, os problemas estruturais e conjunturais do desemprego e de seu corolário, a fome.

Está aí, para quem quiser ver: só expandindo o agronegócio e a exportação de seus produtos o Brasil voltará a crescer com consistência. Tome-se o agronegócio no seu conceito mais justo, que é processo e produto da ação integrada dos agentes sociais e econômicos incluídos nas cadeias produtivas de origem rural. Nesse sentido, é o agronegócio a única fronteira capaz de gerar trabalho e renda para todos – desde trabalhadores analfabetos a pesquisadores científicos.É bom repetir que São Paulo, o Estado mais industrializado do país, tem no agronegócio 34% de seu Produto Interno Bruto.

Sua produção agropecuária, em valores não agregados, somou R$ 11,3 bilhões em 1998 e, considerando o conjunto do agronegócio, mais que decuplica, passando de R$ 121 bilhões. No Brasil, 17 milhões de pessoas (25% da População Economicamente Ativa) trabalham no campo e produzem 8% do Produto Interno Bruto. Em São Paulo, estão no campo 1 milhão de pessoas; na cadeia do agronegócio, 3 milhões.

O agronegócio é, também, a grande fronteira tecnológica a exigir a participação integrada de todos os setores da atividade econômica, a partir da pesquisa, traduzida para o trabalhador mais simples de modo a resultar em ferramenta operacional, capaz de resultar em produtos de alta qualidade, e de qualidade certificada, destinada aos mercados mais exigentes, o interno e o externo.Basta fazer algumas contas para entender o raciocínio: 40% das exportações brasileiras são de produtos do agronegócio, que em 1998 somaram US$ 20,3 bilhões dos US$ 51 bilhões do total exportado pelo Brasil, garantindo uma balança comercial do setor superavitária em US$ 10,4 bilhões. De janeiro a outubro de 1999, o saldo já é de US$ 9,8 bilhões.

Para ampliar sua faixa no mercado mundial, de US$ 5,4 trilhões por ano, o Brasil precisa aperfeiçoar seu comércio e, para isso, deve ser feito um grande chamamento aos homens das ciências. Mais que nunca o pesquisador deve pautar-se pela ótica mais moderna da produção, que é a visão do mercado.É hora de buscar novos nichos de mercado e aperfeiçoar produtos, conferindo-lhes qualidade certificada, para evitar uma outra forma de barreira comercial, a das barreiras sanitárias.

Exatamente nesse quadro é que se faz necessária atuação mais firme da pesquisa: ela deve apoiar a produção, que já prima pela quantidade, garantindo a certificação da qualidade. A pesquisa e a inovação tecnológica nos capacitaram a produzir bem e bastante, com qualidade suficiente para vencer qualquer tentativa de barreira sanitária ou fitossanitária. O que o Brasil precisa, agora, é de profissionalismo de mercado, criatividade e percepção da relevância do comércio internacional.

João Carlos de Souza Meirelles é secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

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