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CAPA

O apoio da FAPESP à edição de livros acadêmicos

Os títulos nas livrarias, a atuação mais marcante de algumas editoras universitárias e a presença significativa de resenhas na imprensa indicam que a publicação de livros acadêmicos está despertando maior interesse de pesquisadores de todas as áreas. A vontade dos autores, entretanto, contrasta com as dificuldades tradicionais desse segmento do mercado editorial, em que o risco comercial não é apenas um componente dos negócios, pois chega a inviabilizar muitas edições.

Os fatores que inibem o desenvolvimento do setor são variados, incluindo o poder aquisitivo de pesquisadores e estudantes, incompatível com o preço dos livros, a prática de cópias reprográficas durante anos, a estrutura deficiente das editoras para a divulgação e distribuição dos livros, a reduzida aquisição de exemplares por bibliotecas e a dificuldades dos pesquisadores com os padrões de edição de livros e para se comunicar com um público não especializado, além de um aspecto de âmbito geral: o ainda limitado espaço dedicado pela mídia à produção científica brasileira.

A FAPESP, sem qualquer pretensão a exercer o papel das editoras, tem contribuído para amenizar um pouco esse quadro por meio da concessão de recursos para a publicação de livros, resultantes de pesquisa financiada pela instituição ou não. Os livros vão de especialidades médicas (como o Tratado de Otologia ou o Scanning Electron Microscopy Atlas of Cells and Tissues of the Oral Cavity) à literatura (caso do Poetas de França Hoje e Uma Memória do Mundo: Ficção, Memória e História em Jorge Luis Borges), passando por temas da antropologia (Índios no Brasil), zoologia (Manual dos Brachyura), teatro (Gerald Thomas em Cena, Teatro de Animação e As Trombetas de Jericó: Teatro das Vanguardas Históricas) e psicanálise (Conceito de Amor em Psicanálise, Lacan e a Clínica da Interpretação).

O auxílio concedido pela FAPESP cobre parte dos custos gráficos para a primeira edição da obra. Sem essa participação, a maioria dos livros beneficiados certamente não seria publicada, devido às dificuldades que esse tipo de obra encontra para atingir o “ponto de equilíbrio” (no jargão editorial, número de exemplares vendidos que recupera o investimento da editora). Outra conseqüência do auxílio é reduzir o preço de venda do livro, prática adotada pelas editoras que contam com o apoio.

Se até o início da década o número de auxílios a livros se situava abaixo de 10% do total de auxílios a publicações (que também incluem artigos, revistas especializadas e anais), atingiu 10% (14 livros para um total de 140 auxílios) em 1995, chegou a 20% (39 livros em 191 auxílios) em 1996 e terminou 1997 com uma participação de 41% (98 livros em 238 auxílios a publicações). O crescimento no número de livros entre 1995 e 1997 foide 600%, mas o valor médio do auxílio caiu de US$ 8.160 para US$ 4.887. Essa ampliação do número de auxílios, mas com valores individuais menores, indica que a qualidade dos livros, aliada a um público leitor um pouco maior, tem estimulado as editoras a correr mais riscos na área acadêmica. Sinal que o setor começa a entrar em outra fase.

Amadurecimento
Segundo o professor José Fernando Perez, diretor científico da FAPESP, esse aumento no número de livros acadêmicos editados é uma conseqüência natural do crescimento do sistema de pesquisa como um todo. “Nos últimos 15 anos, a pesquisa brasileira cresceu duas vezes mais rápido que a média mundial. Apesar de o Brasil representar apenas 1% dessa produção internacional, o ritmo de crescimento foi bastante elevado, ainda mais se considerarmos que esse foi um período em que a produção internacional cresceu muito.

No caso da FAPESP, o número de processos relativos a pedidos de auxílios à pesquisa e bolsas passou de 5 mil, em 1995, para 15 mil, em 1997.” Não há como prever se a tendência de crescimento no número de auxílios à publicação de livros terá o mesmo ritmo dos últimos anos, “pois ainda não se sabe que ponto da curva de crescimento já foi atingido”, avalia Perez. De todo modo, só continuaremos apoiando “livros de excelente qualidade, conforme avaliação da assessoria da Fundação”, completa ele.

Para Raul Wassermann, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), o apoio da FAPESP é essencial para a existência no mercado de livros acadêmicos. “Tempos atrás, havia editoras especializadas na publicação de teses. Hoje, não há mais, sobretudo devido à propagação das cópias reprográficas, prática que lesa o direito autoral e inibiu a atividade no setor de livros científicos e universitários.”

Para que o setor se revigore e cresça, Wassermann destaca não só os auxílios como o da FAPESP como também a necessidade do incremento das atividades das editoras universitárias em parceria com editoras privadas. A possibilidade de publicar um livro com preço de capa reduzido possibilita “a própria existência do livro como produto no mercado, em vez de cópias reprográficas”, argumenta Wassermann. O problema da cópia tende a ser minimizado com a nova Lei de Direito Autoral, em vigor desde junho.

Divulgação científica
Ao contrário do vice-presidente da CBL, Maurício Tuffani, editor assistente de Ciência do jornal Folha de S. Paulo, considera que a existência das cópias ilegais prejudica apenas uma fatia do mercado das editoras: “Não é algo relevante, que as editoras não possam suportar”. Para Tuffani, um problema sério é o das bibliografias de muitos cursos, montadas a partir de capítulos de livros. “Nesse caso, seria preciso uma mudança na cultura docente.” Ele avalia como de grande importância o incentivo à produção de novas traduções de textos científicos clássicos – “para suprir as deficiências das que foram mal traduzidas” – e o apoio a obras de divulgação científica, opinião compartilhada por Caetano Plastino, do Departamento de Filosofia da USP e um dos coordenadores do caderno Jornal de Resenhas.

Tuffani não considera que a divulgação científica esteja tão reduzida no Brasil, mas acredita que falta visibilidade aos livros acadêmicos: “Se fossem mais divulgados, isso impulsionaria o mercado do setor”. Plastino, ao contrário, avalia que realmente a divulgação científica no Brasil ainda é pequena, mas que isso não interfere no mercado de livros acadêmicos mais especializados, que se destinam a um público reduzido. Na sua opinião, uma divulgação científica maior ajudaria na difusão de obras que tracem um painel de uma área científica para não especialistas. “É importante o lançamento desse tipo de obra, inclusive para a complementação científica de pesquisadores em geral ou de um público com formação superior. Se alguém de direito ou filosofia quer discutir bioética, por exemplo, tem de entender o suficiente de biologia, e uma obra de referência sobre o assunto pode ajudar.”

O diretor científico da FAPESP costuma citar uma frase do jurista Miguel Reale, que define jurídica e filosoficamente a instituição, aplicando-se inclusive à concessão ou não de um auxílio: “O imperativo teleológico da FAPESP é a pesquisa”. “O aspecto relevante para o apoio à publicação não é se uma obra tem ou não qualidades editoriais ou mesmo literárias, mas sim, se é resultado de uma pesquisa ou serve de instrumental para os pesquisadores.” Todavia, concorda com Plastino e Tuffani sobre a importância da divulgação científica. Perez destaca o interesse da Fundação em colaborar com a produção de material de qualidade para o ensino médio, obras abrangentes destinadas ao público acadêmico e mesmo contribuir para o aprimoramento do jornalismo científico no país.

Exploração do mercado
Claudinei Ferreira, um dos produtores e apresentadores do programa Certas Palavras, da rádio CBN, especializado em livros e mercado editorial, considera o apoio da FAPESP primordial, mas diz que um dos problemas do segmento de livros acadêmicos é sua má exploração: “Durante a última Bienal do Livro de São Paulo, editoras estrangeiras ficaram impressionadas com a receptividade que encontraram seus livros nas áreas de engenharia, medicina e direito”.

Um dos problemas do setor, para Ferreira, são as deficiências do trabalho de divulgação dos livros acadêmicos: “As editoras contam com poucos profissionais para esse trabalho e o material enviado à imprensa não é bem produzido”. Ele também faz reparos às dificuldades dos autores em produzir obras em formato e linguagem adequados para a apresentação em livro. Tuffani também é crítico em relação à habilidade dos pesquisadores brasileiros em se comunicar com um público maior, “com algumas exceções, como a do autor de A Dança do Universo, Marcelo Gleiser”.

Ferreira destaca que as áreas que encontram maior espaço de divulgação na imprensa atualmente são história do Brasil, urbanismo e antropologia. “O mercado é receptivo a obras que discutam a sociedade brasileira.” De um modo geral, considera que a imprensa tem dado um bom destaque a obras científicas, “naturalmente que em espaços tradicionalmente dedicados a isso”. Lembra, inclusive, que vários livros que contaram com apoio da FAPESP foram tema de seu programa.

“Os critérios estreitos de avaliação acadêmica acabam por desestimular a produção de livros”, no entender de Tuffani. Quanto a isso, Plastino afirma que, realmente, nas ciências biológicas e exatas, um artigo numa revista conceituada tem maior importância do que um livro, “mas mesmo nas ciências humanas, em que tradicionalmente os pesquisadores se expressam através de livros, a publicação de artigos vem crescendo”. Pode-se dizer, portanto, que as publicações – livros e artigos – têm crescido de modo geral em todas as áreas.

O próprio setor editorial tem reconhecido a qualidade e a importância doslivros com o auxílio da FAPESP. Isso fica demonstrado pelas quatro obras que ganharam o Prêmio Jabuti, concedido pela CBL, nos últimos dois anos. Em 1996, foram Empresariado e Estado na Transformação Brasileira, de Sebastião Velasco e Cruz (Unicamp), na categoria Economia, Administração e Negócios; e Os Espirituais Franciscanos, de Nachman Falbel (Edusp/Perspectiva), na categoria Ciências Humanas.

Na premiação referente aos lançamentos de 1997, foram agraciados: Poetas de França Hoje. 1945-1995, de Mario Laranjeira (Edusp), categoria Tradução; e História das Mulheres no Brasil (Editora Unesp/Editora Contexto), organizado por Mary del Priori, na categoria Ciências Humanas.

Uma garantia para as editoras
O auxílio da FAPESP funciona como “um lastro para a editora que aposta no trabalho de um autor”, segundo Rodrigo Lacerda, editor assistente da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). “Nos Estados Unidos, essa garantia é a compra de exemplares pelas bibliotecas públicas e universitárias em grande quantidade. De alguma forma, auxílios como o da FAPESP suprem em parte essa falta de compra por bibliotecas, no Brasil”, comenta.

Assim como outras editoras, a Edusp pratica a redução do preço de venda de livros apoiados. Lacerda informa que tem havido crescimento no número de livros com o auxílio da Fundação e que nos últimos anos a editora vem publicando uma média de dez livros por ano com esse suporte. Flávio George Aderaldo, diretor da Editora Hucitec, salienta que o apoio da FAPESP, além de propiciar um risco comercial assimilável pelas editoras e baratear o preço do livro, até permite que uma obra seja melhor editada, com o acabamento gráfico mais sofisticado que muitas vezes o conteúdo exige.

Entre as causas da retração do mercado, Aderaldo destaca a redução do poder aquisitivo de professores e estudantes. “A disseminação das cópias reprográficas também era um problema sério, mas tende a diminuir com a nova legislação de direito autoral.” Lembra que as editoras acadêmicas são pequenas, com poucos recursos financeiros e de pessoal para fazer a divulgação dos livros: “Muito da publicidade dessas obras acaba ocorrendo devido as relações pessoais entre acadêmicos e jornalistas”.

“Há 20 anos, muitas teses eram disputadas pelas editoras. As teses vendiam bem. Hoje em dia, grande parte delas não seria editada sem esse tipo de auxílio e patrocínios”, explica Túlio Kawata, editor executivo da Editora Unesp. Para ele, um dos principais problemas para a ampliação do mercado é a carência de maior divulgação científica, “apesar de haver alguns ótimos jornalistas especializados e algumas publicações essenciais, como a revista Ciência Hoje, da SBPC”.

Quanto à redução do preço do livro, Kawata explica que “o próprio consumidor espera que o livro seja mais barato quando depara com um volume que contenha o logotipo da FAPESP na capa”. A Editora Unesp tem lançado uma média de quatro livros por ano com o apoio da Fundação. Entre eles figura História das Mulheres no Brasil, organizado por Mary del Priori, da USP, ganhador do Prêmio Jabuti em 97 e já em sua segunda edição.

A Editora Estação Liberdade possui em seu catálogo cinco livros que contaram com o auxílio. Angel Bojadsen, seu editor executivo, não concorda que a divulgação do livro na mídia seja tão relevante: “O problema é conseguir uma distribuição que atinja todo o país. Um fato grave é o fechamento de pequenas livrarias em várias regiões do país. Nas grandes livrarias, geralmente voltadas para a venda debest-sellers e tendências esporádicas, as obras acadêmicas não encontram espaço adequado”.

Bojadsen não acredita que o auxílio possa ser utilizado como tábua de salvação por pequenas editoras, pois “nenhuma editora conseguiria sobreviver apenas lançando livros com auxílio da FAPESP”. Ressalta ainda que as obras acadêmicas são de difícil edição, por isso gostaria que a Fundação contemplasse não só parte dos custos gráficos mas também parte dos custos editoriais, como a preparação e revisão de originais e o projeto gráfico.

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