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CONGRESSO

O apoio da genética à história dos brasileiros

O estudo do DNA revela o alcance da miscigenação e aproxima especialistas de áreas distintas

A genética não entrou apenas para a história, com o seqüenciamento do genoma de pragas da agricultura e o contínuo esclarecimento das estruturas moleculares de animais e plantas. Entrou também na História, ao explicar ou confirmar fenômenos que permaneciam nebulosos sobre a origem, a composição e os movimentos migratórios da população brasileira e mundial. No 46º Congresso Nacional de Genética, realizado dos dias 19 a 23 de setembro em Águas de Lindóia (SP) especialistas de diversas áreas abdicaram das linguagens próprias de suas atividades e, em conjunto, decidiram encontrar respostas para problemas comuns. Havia ali, além de geneticistas e historiadores, geógrafos, lingüistas, engenheiros agrônomos, ecologistas, botânicos, médicos, arqueólogos e mesmo arquitetos. Mas deu certo.

O geneticista Lynn Jorde, da Universidade de Utah, dos Estados Unidos, exemplificou o alcance dessa interação entre os campos da ciência já na primeira conferência do Congresso. “A origem do homem encontra-se, mesmo, na África”, sentenciou, como resultado de suas análises do cromossomo Y (associado à descendência paterna) e do DNA mitocondrial (ligado à linhagem materna) de asiáticos, europeus e africanos. Naturalmente, não faltaram debates e palestras sobre o estado da arte da própria genética, da biologia molecular, da evolução, da conservação de florestas, da ética em pesquisas e de patentes.

Na abertura do Congresso, José Fernando Perez – um físico doutorado em engenharia eletrônica que ali, gentilmente, ganhou o título (ainda que informal) de geneticista – relatou a repercussão internacional do Projeto Genoma Xylella, do qual ele foi um dos formuladores, como diretor científico da FAPESP. Foi uma experiência que, a seu ver, consolidou a competência científica nacional e confirmou uma antiga impressão: a melhor estratégia para formar pesquisadores é mesmo em instituições brasileiras. “Formar doutores no exterior é caro e demorado”, disse.

Dois dias depois, o oncologista José Cláudio da Rocha, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, instituição-irmã do Instituto Ludwig, anunciava um avanço no conhecimento do genoma humano: a descoberta de quatro mutações genéticas associadas ao câncer de mama hereditário. Segundo ele, não basta analisar regiões especificas dos três genes associados à doença, o BRCA 1, BRCA 2 e P53. A prática tem mostrado que é preciso examinar o gene inteiro em busca de alterações. A seu ver, o estudo das características genéticas da população brasileira, marcada por intensa miscigenação, deve facilitar a prevenção e o tratamento dos problemas de saúde em geral.

Sob o tema 500 Anos de Mistura Gênica, o congresso contou com a participação de cerca de 3 mil estudantes, que trouxeram um pouco mais de agitação à cidade serrana de 18 mil habitantes. Este ano, a personalidade homenageada foi o geneticista Warwick Estevam Kerr, por sua contribuição científica e pela capacidade de formar equipes.

Numa demonstração de que os biólogos procuram agora alargar suas interpretações, sem olhar apenas ao microscópio, o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reconheceu: “Quando não entendemos algum resultado das pesquisas, vamos aos livros de História”. Pena se considera um dos primeiros leitores de O Povo Brasileiro, que saiu em 1995 – não apenas por ser conterrâneo do autor, o etnólogo Darcy Ribeiro (ambos são mineiros), mas porque o livro oferece uma interpretação da mistura de raças no país, sobre a qual também ele trabalha. No ano passado, Pena concluiu um estudo com 200 brasileiros brancos mostrando que o ancestral paterno é predominantemente europeu, e o materno, africano ou ameríndio.

No congresso, Pena anunciou que os resultados obtidos por sua equipe – antes restritos às classes média e média alta – ganharam a confirmação de um estudo realizado este ano com 180 moradores da área rural do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do Brasil, situada no norte de Minas Gerais e ocupada antigamente por índios aimorés. “A cor da pele, no Brasil, diz muito pouco sobre o genoma”, afirmou Pena, ele próprio descendente de índios.

O primeiro censo oficial no país, realizado em 1872, refletia claramente essa miscigenação. De uma população total de 9,9 milhões de pessoas, os pardos eram a maioria (4,2 milhões). Seguiam-se os brancos (3,8 milhões), os negros (1,9 milhão) e os ameríndios (440 mil). A mistura gênica – ou hibridização, diriam os geneticistas – prossegue de modo intenso. No censo de 1991, os pardos formavam 42% e os negros 5% da população que apresentava apenas uma leve superioridade numérica dos autodenominados brancos (52%). Mas que conseqüências esse fato pode ter?

A constituição genética original dos brancos, índios e negros tende a se perder. “Do ponto de vista genético, não há mais negros como os africanos que chegaram ao Brasi”, observou o médico hematologista Marco Antonio Zago, da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto. Desde 1992, Zago coordena uma equipe que analisa a herança genética de um grupo de mais de 400 negros. Um estudo inicial envolveu negros urbanos de Ribeirão Preto, por meio de marcadores genéticos associados à origem da mutação de um dos genes da globina, uma proteína formada a partir de uma região do cromossomo 11 que leva à anemia falciforme.

Esse estudo confirmou o que os historiadores já sabiam: os negros brasileiros são predominantemente bantos (sul e sudoeste da África). Mas inicialmente alguns dados não batiam. Em Belém do Pará, por exemplo, havia menos bantos do que o esperado. Zago foi outro que teve de consultar os livros de História até descobrir que muitos escravos de outras origens foram comprados dos portos do Rio de Janeiro e levados para o Norte. Outra conclusão: os negros brasileiros têm características genéticas próprias, sem equivalente em outras partes da América.

A genética apurou também traços invisíveis de miscigenação. “Mesmo negros urbanos que asseguram ter os quatro avós negros têm uma contribuição considerável de outros povos”, comentou Zago, com base nos dados das pesquisas conduzidas por Wilson Araújo Silva Junior e Kiyoko Abe Sandes, sob sua orientação. Havia marcas genéticas de europeus (22%) e ameríndios (6%). Um estudo em andamento em duas comunidades mais fechadas que os negros urbanos, em Serra e São Gonçalo (BA), também tem registrado esse tipo de entrosamento genético. “Podem-se notar indícios de miscigenação mesmo selecionando negros aleatoriamente”, afirmou Zago.

O respaldo à sua tese vem agora da História. “A miscigenação foi muito mais intensa no Brasil do que nos Estados Unidos”, disse o historiador norte-americano Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, cuja conferência sobre tráfico de escravos manteve os biólogos da platéia de olhos bem abertos. “A genética”, comentou, “é um bom começo para a História, por mostrar as origens e as misturas de raças.” Já é certo que há pelo menos dois cuidados a serem tomados quando se trata de sobrepor especialidades. O primeiro é lembrar que a genética tem limites: só pode estudar as populações atuais, sem condições de analisar as extintas.

Outro cuidado é o enfoque. “Qualquer tentativa de encontrar normas genéticas com base em padrões europeus ou norte-americanos não vai dar certo”, alertou Francisco Mauro Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que estuda a origem e os riscos de doenças genéticas em populações indígenas da América. Para ele, ainda é preciso muito esforço para estabelecer claramente o que se chama de retrato genético do brasileiro. “E o ideal”, recomendou, “é que os retratistas sejam brasileiros.”

De modo mais amplo, a genética tem permitido reconstituir a trajetória dos seres vivos sobre a Terra. “Foi necessário 1 bilhão de anos para surgirem e se aperfeiçoarem os organismos unicelulares e cerca de 3 bilhões de anos até aparecerem os primeiros vestígios de pluricelulares”, anunciou Antonio Rodrigues Cordeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em evolução, ele adotou um exemplo contundente para dar forma às ideias: os olhos, originados de modo independente em diferentes linhagens de animais. “Seriam necessárias 400 mil etapas para que as células sensíveis à luz desenvolvessem um órgão completo, com um progresso de 1% por geração”, disse.

Segundo Cordeiro, “é extraordinária” a semelhança entre a estrutura dos olhos, digamos, de uma lula e de um vertebrado. “Os genes que fazem os olhos são os mesmos”, comunicou. Em outras palavras: a natureza das proteínas é a mesma, a função é que é diferente. Um exemplo são as cristalins, como são chamadas as proteínas do cristalino, a parte branca do olho. Com funções originais modificadas, não se atraem e servem como enchimento inerte e transparente do olho – resultado da transferência de promotores e inibidores genéticos. Em microrganismos, as mesmas proteínas estão relacionadas à formação de estruturas reprodutivas, os esporos. Nos crocodilos, atuam como enzimas. O acúmulo de evidências levou Cordeiro a formular uma teoria complementar ao darwinismo. “O organismo não é um joguete da evolução natural, mas tem suas próprias regras e restrições”, disse. “Não estamos mais sujeitos às mesmas forças evolutivas originais.”

Na Universidade Federal de Viçosa (UFV), os médicos veterinários Simone Guimarães e Paulo Sávio Lopes desenvolvem o Programa de Identificação Genômica em Suínos (Pigs). Até o próximo ano, pretendem identificar genes responsáveis pelo crescimento, pela maciez da carne e de resistência a doenças, também com o objetivo de acelerar o melhoramento genético e elevara produtividade.

Mas se há uma pesquisa que de certo modo resume as tendências do congresso deste ano é o doutoramento de Fábio de Oliveira Freitas na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. Ele trabalhou com amostras arqueológicas de milho (Zea mays mays ), encontradas nas cavernas do Vale do Peruaçu, entre as cidades de Januária e Itacarambi, no noroeste de Minas Gerais. Essas cavernas serviram de abrigos humanos de 10 mil anos atrás até a chegada dos europeus.

Ali dentro, sabugos e grãos de milho – com 500 a 1.100 anos de idade – estavam enterrados dentro de cestas junto com feijão (Phaseolus sp), mandioca (Manihot esculenta), algodão (Gossypium), amendoim (Arachis hypogea) e pimenta (Capsicum). Para entender como aquele material chegou até lá, Freitas obteve amostras modernas de milho, no banco de germoplasma da Embrapa de Sete Lagoas (MG), e coletou variedades ainda utilizadas pelos índios waura, no Parque do Xingu, e xavantes (MT). No ano passado, foi à Universidade de Manchester, na Inglaterra, para extrair e examinar o DNA de todas.

Freitas identificou uma região com três trechos distintos (alelos) que permitiram traçar a rota do milho até Januária. Até então, cogitava-se que o milho brasileiro teria vindo provavelmente dos Andes. Mas ele verificou que essa planta deve ter saído das terras altas do México e da Guatemala e chegado aos Andes há cerca de 5 mil anos, sem ter se expandido para as terras baixas da América do Sul. Apenas há 2 mil anos é que deve ter chegado a Januária, vindo diretamente da América Central.

As leituras de Arqueologia, cultivadas desde a graduação, clarearam a situação. O fluxo de sementes pode ser explicado por meio de levas migratórias humanas, pela troca de variedades entre populações antigas das Américas ou por guerras e conquistas territoriais. “Houve pouco contato entre as populações do norte da Bolívia e do Peru com os antigos povos do Brasil, pelo menos em relação ao milho”, diz o pesquisador.

O padrão genético do passado se manteve: na maioria das amostras atuais, permanecem distantes os marcadores genéticos das variedades das terras altas e os das terras baixas. Explica-se agora o resultado pela colonização da América do Sul, de um lado ocupada pelos espanhóis e de outro pelos portugueses, que mantiveram esse isolamento. Persiste também uma preocupação a respeito dos estudos genéticos, expressos por João Stenghel Morgante, presidente da Sociedade Brasileira de Genética e organizador do evento: “Os descobrimentos da genética, adequadamente aplicados em uma sociedade ética e justa, devem permanecer como um dos objetivos supremos da humanidade”.

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