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Resenha

O colecionador de ossos

Um esqueleto incomoda muita gente... | Walter A. Neves | Editora da Unicamp, 160 páginas, R$ 30,00

Eduardo CesarA julgar pelo título bem-humorado, Um esqueleto incomoda muita gente… poderia ser mais uma provocação escrita pelo antropólogo físico e arqueólogo Walter A. Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Autor de uma ousada teoria sobre o processo de povoamento das Américas – o modelo dos dois componentes biológicos, formulado nas últimas duas décadas a partir de análises feitas em mais de 80 esqueletos humanos resgatados na região mineira de Lagoa Santa, entre os quais se destaca a famosa Luzia, um crânio de 11 mil anos que é o mais antigo encontrado no continente –, Neves não costuma fugir de uma boa briga acadêmica. Mas o livro não tem como objetivo defender sua teoria a respeito da entrada do Homo sapiens em nosso continente. Seu foco é explicar o trabalho de um antropólogo físico ou bioantropólogo, especialista que “estuda a evolução e a diversidade humanas através de caracteres biológicos”, fundamentalmente os ossos de populações do passado ou da atualidade.

Em um texto leve, didático e recheado de exemplos, Neves mostra como a bioantropologia se insere no contexto maior da arqueologia pré-histórica, que busca reconstruir como era o comportamento de sociedades extintas por meio do estudo dos lugares em que viveram esses antigos habitantes e das características exibidas por seus objetos. Além de destacar os cuidados adotados pelos antropólogos físicos em seu delicado trabalho de campo de desenterrar o passado, o autor traça um panorama dos diferentes tipos de dados que podem ser obtidos a partir de distintas análises efetuadas em crânios e ossadas. Sexo, idade aproximada, tipo de dieta, presença de doenças, estilo de vida, causa provável da morte – essas e outras informações podem ser extraídas, com uma pitada de sorte e uma boa dose de conhecimento técnico, de ossos mantidos em bom estado de preservação. Um esqueleto incomoda muita gente, pois, como diz o título do livro, oferece material para ser estudado por vários (tipos de) pesquisadores, às vezes por anos a fio.

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