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Produção científica

O desafio de fazer ciência em casa

Estudos avaliam como o isolamento social está mudando a rotina de trabalho de pesquisadores em todo o mundo

Alexandre Affonso

É cantando que o músico e cientista social Victor Kinjo inicia, de sua casa na zona rural de Mogi das Cruzes (SP), reunião on-line para apresentar reflexões sobre possíveis interferências da epidemia do novo coronavírus nas iniciativas de revitalização de rios paulistas. A letra da música, composta por ele, fala em “abrir novos caminhos” e vem a calhar com o período de isolamento social, que obriga muitos cientistas a pensar alternativas para atenuar o impacto desse distanciamento em suas vidas e atividades de pesquisa. “A pandemia tem evidenciado a urgência de algumas questões ligadas aos rios, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, assentamentos precários e, por fim, as desigualdades sociais. Portanto, estou enfrentando desafios metodológicos, uma vez que a quarentena limita encontros e pesquisa de campo”, explica Kinjo, que investiga práticas de governança de rios urbanos durante estágio de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).

Apesar das restrições, a quarentena não significa uma interrupção completa da produção científica, diz Kinjo. “Estou procurando estreitar laços de colaboração e dialogar com áreas do conhecimento com as quais não costumava lidar, como ciências médicas e da saúde.” Para ele, os encontros virtuais, realizados por meio de ferramentas como Skype e Zoom, podem ampliar as possibilidades de investigação, mas não substituem atividades presenciais. “Tenho experimentado novos modos de fazer pesquisa, como a etnografia digital e entrevistas a distância. No entanto, as observações de campo e ações de mobilização tiveram que ser adiadas.”

Mudanças na rotina de trabalho dos pesquisadores têm sido relatadas em depoimentos colhidos por Pesquisa FAPESP e publicados na seção Pesquisa na Quarentena desde o fim de março. O desafio de se adaptar à nova realidade é enfrentado por toda a comunidade científica. O isolamento social, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a disseminação do vírus Sars-CoV-2, limitou a área de atuação de cientistas que dependem de estudos de campo ou equipamentos de pesquisa para dar continuidade a seus projetos. Ao mesmo tempo, afastados de tarefas administrativas, muitos pesquisadores relatam ter agora mais tempo para planejar novos projetos. “Não há como negar que a situação atual está provocando transformações no modo como os cientistas trabalham e na percepção da importância da pesquisa científica pela sociedade. Resta saber se as mudanças serão permanentes”, observa Kinjo.

Com o objetivo de sistematizar uma análise quantitativa do impacto da pandemia na comunidade acadêmica, o portal ResearchGate – mídia social voltada para pesquisadores – aplicou um questionário a aproximadamente 3 mil cientistas de várias áreas do conhecimento de todos os continentes. Observou-se que, para 82% dos participantes, as medidas de isolamento impactam diretamente seus trabalhos. Desse total, 67% declararam conseguir trabalhar remotamente.

O estudo também avaliou como o trabalho em home office é aproveitado pelos cientistas. Cerca de 43% disseram estar conseguindo dedicar mais tempo para fortalecer parcerias ou firmar novas colaborações do que antes do isolamento social. Outros 43% informaram ter tido mais tempo para escrever e submeter manuscritos para revistas científicas, enquanto 45% declararam estar colocando em dia a leitura de trabalhos acadêmicos e fazendo pesquisas bibliográficas. Para 46%, a quarentena tem propiciado a busca por novas ofertas de trabalho.

A pesquisa mostra que a atividade científica não está declinando nesse período, mas passa por mudanças. “Os pesquisadores focam em atividades que não dependem de reuniões presenciais ou da utilização de equipamentos laboratoriais”, disse o engenheiro neozelandês Darren Alvares, chefe de Produtos do ResearchGate, durante transmissão ao vivo pela internet para apresentar os resultados do estudo. De acordo com o engenheiro, à medida que a comunidade científica se adapta a essa nova realidade temporária, mídias sociais e ferramentas digitais tendem a ganhar mais espaço no cotidiano dos pesquisadores. “Muitos relatam que a comunicação agora está mais ágil e direta e que conseguem participar de mais reuniões do que antes da pandemia. Pode ser que um novo padrão de colaboração entre grupos de pesquisa esteja emergindo”, avalia Alvares.

Um dado que corrobora essa hipótese é que os usuários do ResearchGate passam mais tempo navegando na plataforma, que atualmente reúne mais de 16 milhões de perfis. “Identificamos um aumento de 4,4% no tempo médio gasto no site em comparação com o mesmo período em 2019”, disse a Pesquisa FAPESP a norte-americana Abigail Mela, diretora de Marketing do ResearchGate Scientific Recruitment e responsável pelo estudo. “Isso indica que os cientistas estão passando mais tempo on-line, fazendo mais conexões digitais e dando margem para novas colaborações.” Para Victor Kinjo, a Covid-19 evidencia a importância de uma abordagem interdisciplinar para enfrentar grandes problemas que atingem a sociedade como um todo. “Espero que o espírito colaborativo reverbere com mais força a partir de agora, na superação de outros obstáculos, como mudanças climáticas e desigualdade social.”

Impactos na pós-graduação
No Brasil, um grupo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) investiga os efeitos da pandemia em pós-graduandos de todas as regiões do país. Dados preliminares indicam que 80% dos alunos de mestrado e doutorado estão sendo, de alguma forma, prejudicados pelas restrições do isolamento social. Até o término desta reportagem, mais de 4.800 estudantes de todos os campos do conhecimento haviam respondido ao questionário eletrônico.

Perguntados se a pandemia pode impactar no cumprimento dos prazos para concluir os trabalhos, 34% responderam que é possível haver atrasos. Entre aqueles que devem defender tese ou dissertação entre julho e dezembro de 2020, quase 44% sinalizaram intenção de solicitar o adiamento da data para conclusão dos trabalhos. “Essa é uma questão que preocupa a maioria dos pós-graduandos, principalmente aqueles que recebem bolsa de pesquisa e não sabem se o financiamento dos projetos será prorrogado”, diz a bióloga Fernanda Staniscuaski, do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS e coordenadora do estudo.

De acordo com Staniscuaski, os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de mudanças nos editais de apoio à pesquisa diante da situação emergencial instaurada pela pandemia de coronavírus. Em uma portaria publicada no dia 2 de abril, a FAPESP se comprometeu a prorrogar por até 60 dias o prazo de vigência de bolsas comprovadamente afetadas pela interrupção de atividades das instituições de pesquisa devido à pandemia de Covid-19. Já a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), responsável por manter a maior parte de bolsas de mestrado e doutorado do país, também autorizou a prorrogação de até três meses dos prazos de vigência das bolsas de estudo de mestrado e doutorado.

“O momento atual exige mudanças não apenas na forma de pensar e fazer ciência, mas também na relação que estabelecemos com nossos orientandos”, afirma a física Márcia Barbosa, professora do Instituto de Física da UFRGS. Ela lembra que a dinâmica da pós-graduação e dos estágios de pós-doutorado já é marcada por prazos apertados, pressão para publicar papers, trabalho excessivo e alto nível de cobrança (ver Pesquisa FAPESP nº 262). “Agora, junto a isso, se somam a preocupação em atrasar a entrega de trabalhos e o desgaste emocional gerado pela própria situação de isolamento”, diz Barbosa, que tem levado esse fator em consideração ao orientar mestrandos e doutorandos durante a pandemia. “Muitos me procuram aflitos, relatando dificuldade para se concentrar e produzir. Busco tranquilizá-los, respeitando o limite de cada um. De uma forma geral, ninguém está psicologicamente preparado para lidar com tanta pressão, ainda mais com o medo de não conseguir concluir suas pesquisas no prazo combinado.”

Não é por acaso, portanto, que a pesquisa conduzida por Staniscuaski esteja se deparando frequentemente com relatos de pós-graduandos estressados e emocionalmente esgotados. Cerca de 30% disseram que não conseguem trabalhar remotamente porque dependem de laboratórios ou estudos de campo. Outros 43% enfrentam dificuldades para executar tarefas de pesquisa em casa, porque estão envolvidos no cuidado de parentes idosos e/ou dos filhos, que agora passam 24 horas por dia em casa por conta do fechamento das escolas.

“Além disso, chama a atenção que 12% dos respondentes apontam problemas de saúde mental, agravados pela situação atual, entre os fatores que atrapalham o trabalho de casa. O termo ‘ansiedade’ aparece muito nas respostas”, informa Staniscuaski. Nas últimas semanas, a OMS e investigadores da área da saúde mental alertaram para a necessidade de estratégias para lidar com o estresse ocasionado pela pandemia de coronavírus (ver reportagem “Desafios do isolamento).

Repensando o “produtivismo”
Há relatos de pesquisadores que vão no sentido contrário ao do estresse indicado por participantes da pesquisa. “Antes da pandemia, havia dias que eu chegava em casa e me perguntava: que ciência eu fiz hoje?”. O comentário é da astrônoma Tânia Dominici, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), no Rio de Janeiro, que diz estar conseguindo se dedicar com mais calma a atividades puramente científicas durante a quarentena. Para ela, o momento tem sido propício para repensar o que considera “produtivismo exagerado” do ambiente acadêmico e excesso de burocracia no cotidiano da pesquisa brasileira. “Sinto que agora estou cumprindo mais meu papel como cientista”, afirma.

De acordo com Dominici, o isolamento tem permitido manter distância de questões institucionais, que geralmente tomam muitas horas do dia. Ela conta que em 2019, por exemplo, precisou se desdobrar em inúmeras atividades administrativas para tentar garantir que a deterioração do orçamento federal para ciência e tecnologia não afetasse os projetos de que participa (ver Pesquisa FAPESP nº 289). A astrônoma gerencia, no Brasil, a construção de componentes do radiotelescópio Llama (Grande Arranjo Milimétrico Latino-americano), previsto para ser instalado nos Andes argentinos. A montagem do sistema óptico do equipamento, desenvolvido em parceria com uma empresa em Araraquara (SP), foi paralisada por conta da pandemia. Fruto de convênio entre instituições brasileiras e argentinas, o observatório será utilizado em estudos sobre buracos negros, astrobiologia e estruturas moleculares em nuvens interestelares.

“Estou aproveitando o tempo para propor ajustes no projeto e pensar estratégias a fim de otimizar recursos para quando as atividades forem retomadas”, comenta Dominici. Além de planejar os próximos passos com a equipe do Llama, ela tem se ocupado com a leitura de artigos publicados em sua área e voltou a estudar programação computacional. O estudo feito pelo ResearchGate mostra que boa parte dos cientistas (46%) tem usado a quarentena para se atualizar profissionalmente, fazendo, por exemplo, cursos de capacitação ou participando de debates científicos a distância.

A disseminação de webinários, lives e encontros on-line (ver reportagem “Ciência a distância) dão a sensação de que muitas reuniões, que até então eram presenciais, de fato podem ser apenas virtuais – isso quando o assunto não puder ser resolvido por e-mail. “Não é bem assim”, ressalva o arqueólogo Flávio Calippo, da Universidade Federal do Piauí (UFPI).“As ferramentas digitais facilitam o diálogo entre pesquisadores, mas podem perder sua eficácia se utilizadas de forma excessiva” Para ele, encontros presenciais têm dimensões que nem sempre podem ser substituídas pelas reuniões on-line.

“É naquele cafezinho no intervalo de um congresso, por exemplo, que muitas vezes temos as conversas mais interessantes e que podem resultar em parcerias promissoras”, diz Calippo, reconhecendo, porém, que ferramentas virtuais podem expandir o alcance de iniciativas anteriores ao isolamento social. Como exemplo, ele cita projeto internacional liderado pelo Instituto de Arqueologia Náutica da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, que ganhou fôlego nas últimas semanas. “Estamos abastecendo uma biblioteca virtual com informações sobre navios naufragados. Os dados foram coletados por pesquisadores especializados em arqueologia subaquática, que agora estão com tempo para analisar os dados e atualizar a plataforma.”

Para a geóloga Carolina Monteiro de Carvalho, pesquisadora do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, o uso de ferramentas digitais será cada vez mais intenso em estudos que envolvem a participação do público. “Por conta do isolamento, vários grupos que trabalham com mapeamento participativo estão se capacitando para utilizar sistemas computacionais e, assim, manter seus projetos ativos”, diz Carvalho, que nos últimos anos investigou o acesso à água, à energia elétrica e a alimentos frescos em comunidades vulneráveis, como o bairro Novo Recreio, em Guarulhos, na Grande São Paulo.

“O mapeamento participativo consiste em identificar áreas problemáticas com a ajuda de quem vive naquele território. Ninguém melhor do que a população local para saber de sua realidade e auxiliar os pesquisadores na tarefa de gerar dados que possam subsidiar tomadas de decisão”, explica Carvalho. De acordo com ela, essa abordagem exige que os cientistas se desloquem para as áreas analisadas, tanto para conhecer de perto as dificuldades quanto para contactar moradores que não têm acesso à internet. Em tempos de pandemia, tem sido um desafio colocar em prática esse tipo de pesquisa, observa. Uma alternativa, diz a geóloga, tem sido elaborar questionários on-line e divulgá-los nas mídias sociais. As respostas podem ser trabalhadas utilizando ferramentas como a Maptionnaire, uma plataforma de geoprocessamento.

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