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Obituário

O estudioso das políticas econômicas

Carlos Lessa, professor da UFRJ e ex-presidente do BNDES, morre no Rio aos 83 anos, vítima da Covid-19

Carlos Lessa no jardim de sua casa, no Rio de Janeiro, em 2007

Giuseppe Bizzarri/Folhapress

O economista carioca Carlos Lessa, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), morreu na sexta-feira (5), aos 83 anos, em decorrência de complicações causadas pela Covid-19. A partir do início dos anos 1960, ao lado de economistas do Rio de Janeiro como Antonio Barros de Castro (1938-2011) e Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa ajudou a disseminar e a reinterpretar para a realidade brasileira as concepções de desenvolvimento formuladas nos anos 1950 pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), que, entre outras estratégias, estabelecia a industrialização como foco para superar as desigualdades e a dependência externa e enfatizava a importância do papel do Estado nesse processo.

Além de lecionar na UFRJ, Lessa ministrou nos anos 1960 cursos para a Cepal, no Brasil e, entre as décadas de 1970 e 1980, foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – nessa época, passou a integrar o grupo de economistas que assessorou o deputado Ulysses Guimarães, presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), agremiação de oposição do governo militar a que foi filiado. Em 2002, tornou-se reitor da UFRJ, mas deixou o cargo após alguns meses para assumir o BNDES.

Os alunos o descrevem como um intelectual de grande erudição e um mestre bem-humorado e provocador em sala de aula. “Tinha uma cabeça multidisciplinar e, embora sua seara fosse a economia, fazia grandes viagens sociológicas em suas aulas e conversas e pensava em política o tempo todo”, recorda-se Ricardo Bielschowsky, professor do Instituto de Economia da UFRJ. Em um artigo sobre a trajetória de Lessa publicado em 2010 na Revista de Economia Contemporânea, o economista Fábio Sá Earp, também professor da UFRJ, explica que a trajetória intelectual de Lessa esteve mesclada com sua participação política e na gestão pública e privada de forma incomum para um professor universitário. “Em decorrência dessa experiência diversificada, uma característica de Lessa é o fato de que sua contribuição mais importante para o debate político e econômico no Brasil não se deu por meio da obra escrita, mas das aulas e dos milhares de conferências que ministrou a partir da década de 1960”, escreveu Sá Earp. “É difícil aos olhos de hoje em dia entender a importância da conferência em um mundo que não dispunha de internet e no qual parte da informação vinha censurada e as reuniões públicas eram pautadas pelo medo da repressão.” O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp, classifica Lessa como um “homem universal”. “Não foi um economista convencional, que reproduzia o que já era conhecido. Na verdade, ele usava a economia como forma de convencimento, para a dissuasão das pessoas. E, também por isso, foi um professor extraordinário”, disse ao jornal Valor Econômico.

A produção acadêmica de Lessa foi dedicada principalmente à análise das políticas econômicas do Brasil, em especial ao processo de industrialização e desenvolvimento, e exerceu influência sobre gerações de economistas nas últimas cinco décadas. Em 1964, produziu um relatório para a Cepal sobre a industrialização brasileira no pós-guerra e as estratégias do governo nesse período, marcado pela criação da Petrobras e do então BNDE, e, principalmente, o Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1960). Intitulado “Quinze anos de política econômica”, o relatório por anos circulou entre pesquisadores e estudantes de economia em cópias mimeografadas, até finalmente ser lançado em livro, em 1981. Lessa voltaria a se debruçar sobre o tema em sua tese de doutorado “O conceito de política econômica: Ciência e/ou ideologia?”, defendida na Unicamp em 1976 sob orientação de Jorge Miglioli. O trabalho, observou Sá Earp no artigo de 2010, trazia uma crítica a seus pares da Cepal. Segundo ele, Lessa “consolidou a convicção de que a Cepal não tinha uma noção clara da importância da política econômica”. Em 1978, analisou as políticas econômicas do governo Ernesto Geisel (1974-1979), com destaque para o II Plano Nacional de Desenvolvimento, em um trabalho que apresentou no concurso de professor titular da UFRJ em 1978, “A estratégia de desenvolvimento 1974-1976. Sonho e fracasso”, também transformado em livro.

De acordo com o economista Júlio Gomes de Almeida, que teve Lessa como orientador de mestrado na Unicamp e depois foi seu colega no Instituto de Economia da UFRJ, sua concepção de política econômica era bastante abrangente. “Ele não separava política econômica de política de desenvolvimento. Entendia a política econômica não apenas como as ações em relação a juros ou à política fiscal, mas como um conjunto de estratégias capazes de conduzir o país e promover o desenvolvimento, incluindo áreas como educação, tecnologia e política industrial”, explica. Em 1974, com a criação do programa de mestrado em economia na Unicamp, Lessa e Maria da Conceição Tavares juntaram-se ao corpo docente da instituição, assumindo a disciplina economia brasileira. “Eles se revezavam, mas às vezes estavam juntos em sala de aula, em uma experiência impagável para os alunos”, diz o economista Francisco Lopreato, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que esteve na segunda turma do mestrado e também foi orientado por Lessa. “Nessa época, ele e Conceição Tavares se uniram a pesquisadores da Unicamp, como João Manuel Cardoso de Mello, Luiz Gonzaga Belluzzo e Wilson Cano, em um grande processo de revisão teórica. Afastaram-se um pouco daquela visão cepalina, segundo a qual o crescimento dependia da substituição de importações, e mostraram a importância de condicionantes internas em um país como o Brasil, onde a industrialização se deu de forma mais tardia e fortemente alavancada pelo capital cafeeiro”, explica Lopreato.

As políticas econômicas adotadas no país foram um tema reincidente em dissertações de mestrado que Lessa orientou na Unicamp. A de Júlio Gomes de Almeida debruçou-se sobre as reformas financeira e fiscal promovidas no governo Castello Branco (1964-1967), com destaque para o papel de empresas financeiras. O economista José Carlos Miranda defendeu em 1979 uma dissertação intitulada “O plano trienal: O canto do cisne do nacional-desenvolvimentismo”, sobre o programa formulado em 1962 por Celso Furtado (1920-2004) para tentar controlar a inflação e retomar o crescimento econômico no país. Da mesma forma, José Pedro Macarini escreveu sobre a política econômica do milagre brasileiro (1969-1973) e Lídia Goldenstein sobre o período de 1979 a 1982, em que a crise da dívida externa levou o Brasil ao balcão do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Simpático e falante, Lessa estava sempre cercado pelos alunos. Como tinha uma visão panorâmica da economia, era uma fonte inesgotável de temas para dissertações. Às vezes, cismava com algum aluno e tentava convencê-lo a estudar um tema que lhe fascinava”, lembra Lopreato. “Fundamentalmente, Lessa era um defensor da nação, um analista preocupado em entender o Brasil. Como um cepalista, preocupava-se em como o Brasil devia se colocar na divisão internacional do trabalho, em buscar o desenvolvimento e a industrialização para melhorar a vida do povo.”

Um outro livro de Lessa tornou-se referência no ensino de economia. Escrito em parceria com Antonio Barros de Castro, Introdução à economia – Uma abordagem estruturalista está na 38ª edição e teve como embrião as apostilas criadas para os cursos de desenvolvimento econômico da Cepal no início dos anos 1960. “Na época, o ensino de economia em todo o mundo era iniciado pelo estudo do manual de Paul Samuelson – ainda hoje, em edições atualizadas, o manual que teve a maior tiragem no campo. Enquanto Samuelson fazia uma introdução à macro e à microneoclássica, que se tornou padrão entre os manuais até nossos dias, o Castro-e-Lessa fazia parte de um contradiscurso orquestrado pela Cepal, uma abordagem alternativa produzida especialmente para o público latino-americano”, escreveu Sá Earp. É um raríssimo exemplo de livro brasileiro de economia que conseguiu rivalizar, em número de edições, com o clássico Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado, reimpresso 35 vezes.

Carlos Francisco Teodoro Machado Ribeiro de Lessa nasceu em uma família da elite intelectual carioca – o pai era o médico e bibliófilo Clado Ribeiro de Lessa, autor de dois livros, um sobre o vocabulário relacionado à arte da caça e outro sobre a viagem de um padre baiano ao reino de Daomé, na África, no final do século XVIII. Estudou no tradicional Colégio Padre Antônio Vieira e fez a graduação em ciências econômicas pela Universidade do Brasil, atual UFRJ. “Lessa teve professores que, embora pertencessem a uma escola de economia tradicional e conservadora, exerceram grande influência sobre ele. Apreciava principalmente as aulas de Francisco San Tiago Dantas (1911-1964). Roberto Campos [1917-2001], Octávio Gouvêa de Bulhões [1906-1990] e Eugênio Gudin [1886-1986] eram outros economistas de seu tempo com quem teve um intenso aprendizado”, diz Gomes de Almeida. Formado economista, iniciou o mestrado em análise econômica e passou a lecionar no curso de formação de diplomatas do Instituto Rio Branco. Sua principal influência, contudo, seria Celso Furtado – ele descrevia a leitura de Formação econômica do Brasil como “um raio de luz em minha vida”. “Nessa época ele se aprofundou no trabalho de expoentes de outras escolas, como Schumpeter [Joseph], Keynes [John Maynard] e Marx [Karl], que ajudaram a moldar um conhecimento profundo e complexo em economia”, complementa Gomes de Almeida.

Além de ministrar cursos para a Cepal, também foi trabalhar no escritório da Comissão do Rio de Janeiro. “Há um relato carinhoso do economista Aníbal Pinto, chefe do escritório, reclamando do barulho na sala ao lado, em que três jovens economistas discutiam ruidosamente o futuro do Brasil. Eram Lessa, Conceição Tavares e Barros de Castro”, diz Ricardo Bielschowsky. Após o golpe militar de 1964, passou a atuar em instituições de ensino e pesquisa latino-americanas. Entre 1965 e 1968, dividiu-se entre Chile, Nicarágua e El Salvador, lecionando no Instituto Latinoamericano y del Caribe de Planificación Econômica y Social (Ilpes) vinculado às Nações Unidas. Também se vinculou ao Centro Interamericano de Capacitação em Administração Pública, trabalhando em Buenos Aires e Caracas. Retornou ao Brasil em 1969, e foi contratado como professor do Instituto de Estudos em Administração Pública da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1973. No ano seguinte, tornou-se professor da Unicamp, instituição com a qual manteve vínculo até 1994. Mas, a partir de 1978, também se tornou professor da UFRJ.

Paralelamente à atividade acadêmica, mantinha intensa participação no debate público. Gomes de Almeida se recorda que, na virada dos anos 1970 para os 1980, ele e Lessa trabalharam juntos em uma iniciativa do Instituto dos Economistas do Rio de Janeiro. “Juntamos economistas de todas as linhas com o objetivo de questionar a política econômica da ditadura. Dávamos muitos cursos e palestras para associações de todo tipo, sindicais, profissionais, da área de imprensa, e também em cursos de outras universidades, discutindo caminhos para fomentar o questionamento das políticas econômicas do período militar. Lessa era o responsável por isso”, recorda-se.

Vinculado ao PMDB no ocaso da ditadura militar, foi convidado a ocupar um cargo público após a redemocratização. Foi diretor do Fundo de Investimento Social (Finsocial) no BNDES entre 1985 e 1988. Sua passagem pela presidência do BNDES entre 2003 e 2004 foi marcada por um resgate do papel do banco no fomento ao desenvolvimento e por embates com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

Carlos Lessa sempre manteve os laços com o Rio de Janeiro, que se tornou um de seus objetos de estudo. Em 2000, escreveu o livro Rio de todos os Brasis, em que discute a saga da cidade, engolida pela decadência econômica depois que deixou de ser a capital do Brasil, que se mantém como um símbolo nacional. Entre 1993 e 1995, na primeira gestão de Cesar Maia como prefeito do Rio, foi diretor-executivo do Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro. Chegou a disputar uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PMDB do Rio de Janeiro em 1982, mas não obteve votos suficientes. Também lançou sua candidatura a prefeito da cidade em 2008, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), mas acabou desistindo. No curto período em que foi reitor da UFRJ, lançou um bloco de Carnaval que existe até hoje, o Minerva Assanhada. Em 2012, comprou um casarão em ruínas no bairro do Catete e o transformou em uma casa de shows.

Seu último livro foi Enciclopédia da brasilidade: Autoestima em verde-amarelo (2005), com textos sobre a história do país e suas festas populares. Lessa deixa três filhos e netos.

A edição 293, de julho de 2020, traz uma versão resumida desta reportagem

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