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Obituário

O homem da máquina

Engenheiro e físico Ricardo Rodrigues projetou o Sirius, o mais complexo e versátil instrumento de pesquisa construído no país

Físico observa amostras metálicas no laboratório de materiais do LNLS, em 2014

Julio Fukikawa / Comunicação CNPEM / LNLS

Em tratamento de saúde, o engenheiro e físico Antonio Ricardo Droher Rodrigues não presenciou a primeira volta de elétrons no anel de Sirius, a nova fonte de luz síncrotron brasileira, em 25 de novembro de 2019. Também não estava presente quando a equipe conseguiu armazenar elétrons por várias horas no acelerador, em 14 de dezembro do mesmo ano. Mas apareceu para uma foto dois dias depois, quando a equipe conseguiu gerar corrente suficiente para fazer chegar a luz síncrotron pela primeira vez em uma das futuras estações experimentais do Sirius. “Fizemos por ele. E ele ficou muito feliz”, diz Antonio José Roque da Silva, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. O físico morreu no dia 3 de janeiro, aos 68 anos, em consequência de um câncer no pulmão. Natural de Curitiba, era casado com Liu Lin, líder do grupo de Física de Aceleradores do LNLS, e deixa três filhos: Erica, Kevin e Ian.

Engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em física pelo King’s College, University of London, Rodrigues foi responsável pelo projeto do acelerador síncrotron não só do Sirius, mas também do UVX, o primeiro do hemisfério Sul, inaugurado em 1997, ambos no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), no CNPEM. “Ricardo foi um engenheiro genial, responsável pela parte principal no projeto do primeiro síncrotron UVX. Foi também quem projetou o Sirius e dirigiu as operações que levaram ao seu sucesso como grande obra instrumental para a ciência, inteiramente projetado e, em grande parte [80%], construído no Brasil”, diz Rogério Cezar Cerqueira Leite, presidente do Conselho do CNPEM. “Além do mais, foi sempre um pesquisador dedicado, gentil e modesto. Enfim, um exemplo de cientista e cidadão.”

Doutorado direto
“Conheci muita gente excepcional, mas inteligência técnica e capacidade criativa como a dele eu nunca vi”, afirma o físico Cylon Gonçalves da Silva, que liderou o projeto de construção de UVX, no início dos anos 1980, e dirigiu o LNLS de 1986 a 1998. “Não era vaidoso, mas sabia o que valia. Era um líder extraordinário pela generosidade.” No segundo ano de graduação na engenharia civil da UFPR, Ricardo Rodrigues começou a estudar óptica de raios X, orientado por Cesar Cusatis, coordenador do Laboratório de Óptica de Raios X e Instrumentação no Departamento de Física. “Era uma pessoa excepcional”, lembra Cusati. “Saiu da graduação e foi imediatamente aceito como aluno de doutorado no King’s College, tendo como orientador Michael Hart, o inventor do interferômetro de raios X”, conta. “Quando voltou ao Paraná foi um suporte fundamental para nosso laboratório.”

Três anos depois, transferiu-se para o Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). “Tinha uma visão prática, conferida pela engenharia, interessava-se por eletrônica e, ainda durante a graduação, fez iniciação científica em óptica e instrumentação de raios X”, afirma o diretor-geral do CNPEM. Quando Roberto Lobo, então presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, começou a montar o Comitê Executivo do Projeto Radiação Síncrotron – que daria origem ao primeiro síncrotron brasileiro e ao LNLS –, Rodrigues era um candidato natural. “Bastava dizer que um projeto era difícil que ele mordia a isca”, lembra Cylon Gonçalves.

Rumo a Stanford
Rodrigues passou a integrar o comitê executivo do projeto em outubro de 1983. Dois anos depois, aos 33 anos, coordenou a equipe de engenheiros e físicos que desenvolveu o projeto do anel acelerador no Stanford Synchrotron Radiation Laboratory (SSRL), nos Estados Unidos, sob orientação de Helmut Wiedemann. “Não tinha ninguém que sabia fazer isso aqui no Brasil e fomos lá aprender”, contou o próprio Rodrigues em entrevista ao site O mundo da usinagem, em 2019. Quando o UVX começou a ser construído, em 1986, o físico já era conhecido como o “homem da máquina”, conta Marcelo Baumann Burgos no livro Ciência na periferia: A luz síncrotron brasileira (editora UFJF, 1999). Um ano depois assumiu a posição de chefe da Divisão de Projetos do então recém-criado LNLS.

O UVX foi inaugurado em 1997. Quatro anos depois, quando Gonçalves deixou a direção do LNLS, Rodrigues demitiu-se. “Após 15 anos de trabalho intenso, estávamos todos exaustos”, lembra Gonçalves. Depois que deixou o LNLS, em 2002, Rodrigues decidiu empreender. Junto com Liu Lin e o técnico em eletrônica Carlos Scorzato, amigo desde os tempos da UFPR, montou a Skedio Tecnologia. “A nossa proposta era fazer instrumentação”, conta Scorzato. A empresa desenvolveu controles para a indústria da construção civil, desfibriladores cardíacos, dosadores, medidor de pressão industrial, entre outros.

Novo síncrotron
Em 2009, o físico voltou ao LNLS atendendo a um convite de José Roque da Silva, que acabara de assumir a direção do laboratório com o compromisso de iniciar o projeto de construção do novo síncrotron. O sim veio depois de um almoço de mais de duas horas. “Ele me perguntou se valeu a pena ter construído o primeiro síncrotron. Respondi que o UVX foi fundamental para o treinamento de pessoas para dar um salto mais competitivo com uma nova máquina. Além disso, era a chance de ele realizar o sonho de fazer um equipamento de fronteira”, afirma o diretor-geral do CNPEM.

Quando iniciou o projeto Sirius, Rodrigues era, novamente, o homem certo, no lugar certo. O síncrotron, de quarta geração, foi concebido no estado da arte da tecnologia, comparando-se apenas ao Max IV, inaugurado em 2016 na Suécia. “O projeto inicial era fazer uma máquina de terceira geração, e, então, o comitê avaliou que todos no mundo já estavam pensando em quarta. Em um mês, refizemos todo o projeto de óptica da máquina e mudamos a câmara de vácuo, que precisava ser de cobre. Foi um bom aquecimento. Hoje temos uma máquina melhor que a do Max IV”, disse Rodrigues na entrevista a O mundo da Usinagem. Ele liderou a equipe do LNLS no redesenho da rede magnética para que o brilho de Sirius fosse o mais intenso entre todos os síncrotrons em operação.

A nova máquina, que deve iniciar a operação este ano, possibilitará a realização de pesquisa competitiva. As seis primeiras estações experimentais de pesquisa — nanoscopia de raios X, micro e nanocristalografia macromolecular, por exemplo – foram selecionadas para atender tanto às novas demandas da ciência e da tecnologia como para permitir o avanço de investigações em áreas estratégicas como óleo e gás, além da saúde, entre outras.

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