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Resenhas

O império derrotado

Kenneth Maxwell Companhia das Letras - 336 páginas, R$ 49,50

ABRIL DESPEDAÇADO
Revolução dos Cravos, até então mal-interpretada, é reconhecida como marco do século

Como quase tudo que se passa no verão, as utopias levantadas pela revolução portuguesa de 25 de abril de 1974 duraram pouco. “Sei que estás em festa, pá/ fico contente/ e enquanto estou ausente/ guarda um cravo para mim?, entusiasmou-se Chico Buarque com o que parecia ser a primeira experiência comunista no país da Europa Ocidental desde o início da Guerra Fria. Quatro anos mais tarde, os versos foram alterados para um tom mais nostálgico, embora mais realista: “Foi bonita a festa, pá/ fiquei contente/ e inda guardo renitente/ um velho cravo para mim”. Era a Revolução dos Cravos, por causa das flores colocadas por civis nas armas dos militares que derrubaram o que restava da ditadura de Salazar, iniciada em 1932, e continuada, já apodrecida pelos problemas de descolonização, por Marcelo Caetano. As flores murcharam e o movimento caiu no esquecimento, visto por muitos como mais uma do português. Ledo engano.

O império derrotado, do brasilianista Kenneth Maxwell, se não revive os cravos, mostra que os seus protagonistas não usavam ferradura. Mais do que um golpe na “cozinha da Europa”, o movimento de 25 de abril provocou ondas (mesmo a Terceira Onda) altas na política internacional e, segundo o pesquisador, pode ter sido responsável pelo fim da Guerra Fria e pela derrocada do império soviético. Nem mesmo os Estados Unidos saíram ilesos do mar de cravos. Pego de surpresa pelo fim da ditadura, o governo americano, em particular por causa de Henry Kissinger, esteve prestes a adotar uma “solução chilena” para o affair lusitano. Mais: com o fim do império português, o sucesso dos soviéticos no apoio aos movimentos nacionalistas do Terceiro Mundo humilharam a administração Carter e obrigaram a América a gastar fortunas em armas como prevenção. O mesmo tipo de gastos foi também, no final das contas, a causa do fim da União Soviética.

Igualmente o Sul da África, ao perder o amortecedor proporcionado pelas colônias portuguesas governadas por brancos, viu o apartheid sendo corroído aos poucos até a sua extinção na África do Sul. O mundo ficou contente, pá, quem diria, com o movimento português, a democratização que foi a primeira de uma onda de democratizações que ocorreram na América Latina, na Europa do Leste, na ex-URSS, bem como serviram de modelo de como não se fazer uma transição, usado pela Espanha alguns anos mais tarde, com o fim da ditadura franquista. Não é pouca coisa. Maxwell defende, com sucesso, a importância da revolução lusa vista, afirma, por muitos, como uma fantasia produzida pela imaginação dos esquerdistas, cujos erros, aliás, ele elenca com precisão.

No início de tudo estava o colonialismo, ou melhor, a luta inútil para a sua manutenção. ?Portugal foi a última potência européia a se apegar à panóplia da dominação formal, pois, ao contrário de seus colegas da Europa, não tinha condições de pagar pelo neocolonialismo. Sua fraqueza econômica fez com que a intransigência fosse inevitável?, escreve Maxwell. Mas os militares estavam cansados e foi o livro de um deles, o general Spínola (com seu monóculo prussiano), chamado Portugal e o futuro, que deu a deixa para a revolução. Na obra, o militar defendia a soberania das colônias. Na vida real, era cauteloso e pregava o fim lento do colonialismo.

Os capitães de abril leram o livro com outros olhos e Caetano, acovardado, entregou o governo para Spínola, que, mostra Maxwell, recebeu mais créditos do que devia pelo movimento. No vácuo de poder, a esquerda viu a chance de um Portugal vermelho como os cravos. A ilusão durou o verão de 1975. Acossada pelo Ocidente, que prometia o isolamento de um Portugal “mal-comportado”, a esquerda perdeu apoio popular, não soube controlar a situação econômica precária com o fim das reservas deixadas pelo salazarismo, esperou demais da União Soviética e, mais grave, usou as instituições decrépitas para governar a nação. No fim, venceu o centro socialista, com Mário Soares. E a democracia.

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