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Ficção

O Método

Experimento: fazer seus olhos girarem nas órbitas umas cem vezes, da maneira que já surpreendi nos meus alunos quando metralho uma frase de trinta palavras.

A vida acadêmica é uma seara razoavelmente segura não só porque, no papel de professor universitário, é possível usar a palavra seara repetidas vezes sem ser apedrejado, sem aqueles olhares de esguelha de quem não gosta de gente que fala igual um livro, sem precisar rodar muito pra achar um copo de café forte, preparado aqui na máquina da magrinha da biblioteca, que traz a cafeteira de casa como cortesia diária para com os professores estendida aos mestrandos, antes explorados anos a fio pela máquina de café oficial do campus, um monstro de metal da estatura de um anão capaz de cuspir pela extorsiva quantia de 50 centavos apenas o suficiente pra encher um copinho plástico mirrado. Assim eu vejo meu futuro, o que me acontecerá dentro de alguns anos: um ponto tranqüilo da vida com gosto de semi-aposentadoria e café. Nada de atividades bruscas, reuniões para captação de verbas e competitividade entre baias de fórmica e grampeadores.

Termino minha dissertação sobre células-tronco à base de coca-cola e vodca e uma possível reação de sua fórmula secreta com a não tão secreta fórmula do Cloridrato de Sertralina, comprimido que sou forçado a ingerir quando preciso me concentrar. Talvez minha papelada me salve das baias de fórmica. A perspectiva de mofar pra sempre na salinha do Borges, como seu sucessor na universidade, me provoca ondas de entusiasmo.

Ligo pra casa depois de dois meses sem dar um alô. Quero compartilhar minha quase-alegria, mas, de acordo com O Método, minha mãe só quererá falar de outros membros da Família Feliciani.

Eles ainda usam o modelo de telefone lançado no ano em que minha irmã nasceu, 1973, com um disco e furos em cima dos números. Minha secretária eletrônica vive cheia de vozes abafadas sob os chiados do velho aparelho. Tomei a iniciativa por causa de uma seqüência desses recados ininteligíveis e me preparei para um monólogo cheio de ruído e conversa de cerca-lourenço.

Minha mãe ataca primeiro com uma bateria de perguntas sobre os elementos mais superficiais do fiapo de vida em comum que mantemos e emenda com a rotina dos gatos: como têm passado, se jogaram algum objeto no chão, se estão comendo, se estão dormindo. A conversa então afunila-se em monólogo até que ela diz a coisa, o que faltava, o que estava preso o tempo todo num murmúrio paralelo de entendimento entre nós dois.

A estratégia consiste em deixar o interlocutor de saco tão cheio que, quando cai a bomba, ele não tem mais força vital pra reagir.

Descobre onde a sua irmã anda? Ela nunca atende o telefone…

Ali, no finalzinho, a dica, o motivo da ligação. J. (só a inicial porque, diferente de mim, aos 35 anos minha irmã tem um nome mais ou menos conhecido e ainda lhe sobra alguma reputação a zerar. Ela trabalha com pesquisa no Instituto Oswaldo Cruz, e tem aí seus próprios meios de perder a nesga de respeitabilidade que lhe sobra), J., a quem eu me referia antes de entrar noutra digressão vertiginosa e parentética, diz que eu nunca daria certo como pesquisador.

Sou apenas um bom consumidor de café que escreve e se prepara para dar aulas. Não passo sem cinco a seis copos por dia – desses de média que qualquer boteco decente pode te apresentar, não as xicrinhas do tamanho de um dedal – e essa garota da biblioteca daqui é generosa e santa, permitindo que eu me esbalde em litros e litros de café.

Minha avó deu café na mamadeira a todos os filhos e netos. Dizia que faz a criança ficar atenta, esperta. Ela nunca soube distinguir esperteza de excitação patológica nem toda aquela atenção, que dispersávamos para todos os lados, de esquizofrenia potencial. O conhecimento geral da família sobre nossa fixação por café e o vício negro imposto às gerações seguintes de Feliciani impedem que minha taquicardia e distúrbios nervosos mais graves inspirem os cuidados de parentes que pudessem interferir com o meu desejo crônico e constante de não ter ninguém por perto. É comum relacionarem nossas crises à falta ou excesso de café. Antes de se despencarem de barca, ônibus ou van desde a Ilha do Governador até a minha toca no Alto Leblon, têm seu ímpeto detido por um pensamento: “É só a cafeína”.

A explicação que corre na família pra nossa mania de café faz sentido demais, por um lado, pra ter sido inventada por eles, e por outro, é surreal na medida da sua loucura. De qualquer jeito, nos pertence. De acordo com a lenda, minha avó começou a distribuir doses do líquido forte, quase caudaloso, quando se mudaram pro subúrbio, em 1949. Na época, a Ilha do Governador ainda era um lugar cheio de terrenos baratos onde um músico de 25 anos podia manter uma casa em que coubesse com mulher e os filhos que viessem (vieram seis). A ponte que ligava a Ilha ao resto do mundo tinha sido inaugurada recentemente. O bairro não abrigava mais de 30 mil habitantes. Pra chegar ao trabalho todos os dias, meu avô dependia de uma única linha de ônibus com frota de dois veículos. Ele entrava em casa nas últimas horas da madrugada e estava de pé outra vez às dez da manhã pra uma viagem de quase três horas com escala no Centro do Rio, onde tomava outra condução até Copacabana. Lá, fazia trilha sonora pro almoço da Cantina do César e só parava no Bottle’s às quatro. O primeiro ônibus para a Ilha só começava a circular às cinco. Com a correria acontecendo dia sim, dia não, ele entornava sem reclamar o cafezinho que a mulher produzia em larga escala. Arranjar cocaína nas boates era fácil mas cheirar não batia bem com o santo dele. Álcool, bastante, demais da conta – sim. E café. Não herdei dele a musicalidade, somente O Método.

Nova ligação pra casa. (Outra coca com vodca.) Conversamos enquanto imprimo minhas cento e sessenta páginas sobre células-tronco. Não é um trabalho muito original, a biblioteca da faculdade comporta dezenas de monografias sobre o tema e eu vou ter que tirar daí um negócio muito bom se quiser me formar com alguma dignidade.

Minha mãe quer saber de nada disso, de meus devaneios periféricos. Sou obrigado a encarar os seus longos colóquios sobre cocô de gato mas devo mencionar meus medos e meus sonhos. Eu posso – devo – falar de J., de minha irmã, mas não de mim. Enquanto isso, J. é obrigada a comentar minha vida cinzenta de estudante, mas não a própria solidão. Assim, mantém-se cada membro da família interessado nos problemas uns dos outros, interligados pelo cordão umbilical do velho aparelho de telefone, que tem a Mãe do outro lado da linha. Esse é o Método Feliciani de Conservação do Núcleo Familiar, fantástico Dispositivo Antiisolamento para pesquisadores e professores circunspetos. Eu e J. engolimos bem o café, mas nem sempre aceitamos O Método.

Cecilia Giannetti é escritora, carioca, nascida em 1976, autora do romance Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Tem contos publicados em antologias brasileiras e uma italiana, além de colaborações em revistas como Trip, Piauí e Vogue.

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