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Pesquisa na quarentena

“O negacionismo comprometeu a resposta do Brasil à pandemia”

Elize Massard da Fonseca, especialista em saúde pública da Fundação Getulio Vargas, fala sobre o trabalho de uma rede internacional de pesquisadores criada para compreender as respostas de diferentes países à Covid-19

Elize Massard da Fonseca trabalhando em casa, em decorrência da pandemia

Arquivo pessoal

Meu 2020 estava todo planejado. Eu faria um intercâmbio na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, no segundo semestre. Por isso, concentrei no primeiro semestre todas as disciplinas que teria de lecionar ao longo do ano. A Escola de Administração Pública de São Paulo da Fundação Getulio Vargas [Eaesp-FGV], onde trabalho, dá essa flexibilidade aos docentes. Veio a pandemia e ficou tudo meio caótico. As aulas presenciais foram suspensas e, de uma hora para outra, estávamos mergulhados em treinamentos para aprender a usar ferramentas didáticas e dar aulas a distância. Fiquei bastante ocupada preparando aulas e atendendo os alunos. Tenho um auxílio da FAPESP para um projeto de pesquisa sobre políticas para competitividade do setor farmacêutico na modalidade Jovens Pesquisadores que está no último ano de vigência, também com várias tarefas para concluir.

Foi quando uma jornalista que trabalha aqui na FGV me pediu para escrever sobre a resposta do Brasil à pandemia no blog do nosso Centro de Política e Economia do Setor Público. Eu não estava acompanhando as notícias e fui tomar contato com o assunto. Comecei a olhar com atenção e antevi um ótimo tema de pesquisa.

Eu me lembrei de um cientista político da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, o Scott Greer, que conheço há muitos anos e com quem mantive parcerias. Ele tem vários trabalhos sobre políticas de saúde, principalmente na Europa. Fui perguntar se estava fazendo algo sobre a pandemia, imaginando que estaria preparando alguma edição especial de artigos para a qual eu pudesse colaborar. Ele me disse que estava organizando um livro e buscava, naquele momento, criar uma rede internacional de pesquisadores para estudar a reação dos países à pandemia. Fizemos uma reunião e ele me convidou para ser uma das editoras desse livro. Meu trabalho, além de escrever sobre o Brasil, um caso que desperta interesse mundial, é recrutar pesquisadores de outros países da América Latina que pudessem se incorporar a esse esforço. Já reunimos 30 pesquisadores que farão estudos de seus países. Há situações muito interessantes. A África do Sul, que deu uma resposta fracassada à Aids no passado, conseguiu controlar a pandemia. A Índia também vem tendo sucesso. A intenção é entender o que esses países fizeram. Meu papel é colaborar na introdução e na conclusão do livro, bem como no capítulo sobre o Brasil.

A pandemia colocou à prova serviços e sistemas de saúde em todo o mundo. O objetivo desse esforço colaborativo é analisar e comparar as respostas de governos à epidemia do novo coronavírus e suas ações de enfrentamento. Não se trata apenas de monitorar as ações, pois há outros grupos no mundo fazendo isso. O foco é buscar explicações para compreender por que as respostas foram distintas em cada país analisado, para, quem sabe, evitar um desastre semelhante no futuro.

A FAPESP havia aberto uma chamada para projetos sobre a Covid-19 para os pesquisadores que já recebem auxílios. Apresentei um projeto propondo um estudo de campo sobre o Brasil e ele foi aprovado. O projeto tem três vertentes. A primeira é explorar a resposta do sistema e política de saúde ao longo do desenvolvimento da epidemia. A segunda é investigar as iniciativas de proteção social que têm sido adotadas de forma a viabilizar as ações de saúde pública. E a terceira é analisar, em uma perspectiva comparada, como e por que essas decisões foram adotadas, para ao final propor recomendações.

Ainda em março, organizei o trabalho de uma equipe de alunas, graças a um pequeno financiamento que tenho na FGV. Disse a elas: precisamos coletar todas as informações que estão saindo. A vantagem é conseguir informações primárias valiosas, em tempo real. Já coletamos mais de 500 notícias, baixamos do YouTube todas as entrevistas coletivas do Ministério da Saúde, reunimos o posicionamento dos governadores – no futuro, isso estará disponível para quem quiser estudar a pandemia no Brasil. Para analisar todo esse material, conto com duas alunas de mestrado e um bolsista de Treinamento Técnico da FAPESP.

Já mapeamos algumas questões importantes. Há uma distinção clara entre países com governos autoritários e com governos democráticos. Os autoritários têm facilidade de impor medidas restritivas. Nos democráticos, isso cria uma série de controvérsias e é preciso construir a confiança na sociedade sobre a importância de restringir a liberdade e ficar em casa. Há mais dificuldade em adotar essas medidas, porque elas são baseadas em um isolamento social voluntário.

Outro ponto é observar como os países responderam a emergências de saúde pública no passado. Esse histórico é importante. Países que enfrentaram surtos anteriores de coronavírus, como a China, em 2002, e a Arábia Saudita, em 2012, já tinham um aprendizado acumulado. Há outras questões relevantes envolvendo globalismo e nacionalismo, que desencadearam um embate entre especialistas de saúde pública e negacionistas da ciência em um formato semelhante ao que se vê no debate sobre as mudanças climáticas.

Países com grande extensão territorial, como Brasil e Estados Unidos, têm também uma questão regional importante, há o desafio de coordenar internamente as respostas à pandemia. Em uma crise de saúde pública, essas respostas deveriam ser as mais coordenadas possíveis, mas não é exatamente isso o que se observa. O Brasil ao menos dispõe de um sistema público de saúde que consegue oferecer atendimento à população de baixa renda, enquanto nos Estados Unidos a falta de coordenação foi agravada pelo fato de muitas vítimas terem deixado de procurar assistência porque não tinham dinheiro para pagar por ela.

O Brasil tinha tudo para ter uma das melhores respostas do mundo. Tem um sistema público de saúde relativamente coordenado e estruturado regionalmente. Também tivemos boas respostas a crises de saúde no passado. O enfrentamento à pandemia da Aids a partir dos anos 1980 gerou um programa sólido. A recente crise do vírus zika teve uma resposta imediata, na forma de políticas públicas de ciência e tecnologia. Nossos cientistas se articularam com consórcios internacionais de pesquisa e deram respostas rápidas para o surto. Com esse histórico bem-sucedido, poderíamos ter uma ação efetiva no combate à Covid-19.

Mas o fato de o presidente da República desacreditar nos efeitos da pandemia e ter uma percepção diametralmente oposta à de governadores e secretários de saúde criou insegurança em um momento em que a população precisava confiar nas autoridades de saúde para adotar medidas voluntárias de isolamento social. O negacionismo e a desinformação comprometeram a resposta do Brasil à Covid-19.

Outro ponto importante para entender o que o Brasil tem feito está relacionado ao papel dos técnicos do Ministério da Saúde. É um ministério bastante técnico, com autonomia para tomar decisões. Em paralelo, o Supremo Tribunal Federal definiu que os governos subnacionais – estados e municípios – têm autonomia para tomar decisões no enfrentamento da pandemia. Graças à estrutura do SUS [Sistema Único de Saúde] e à ação dos conselhos de secretários municipais e estaduais de saúde, houve a princípio alguma resposta coordenada, com apoio do Ministério da Saúde. Isso vigorou até a gestão curta do ministro Nelson Teich. Um ponto de ruptura foi observado quando os conselhos municipais e estaduais não foram convidados para a posse do ministro. A recente saída de técnicos e a substituição por militares é algo sem precedentes e o que se vê hoje é uma crise de confiança também nas informações oficiais sobre a pandemia.

Estou trabalhando em casa, desde que a FGV fechou a escola. Isso mudou bastante a minha rotina. Como não temos filhos, meu marido e eu conseguimos nos adaptar ao home office. Mas tivemos de dar apoio aos meus sogros, que vivem em São Paulo. Fiquei três meses sem ver meus pais, que moram no Rio de Janeiro. Agora finalmente vim visitá-los.

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