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Humanidades

O negro na telenovela

Eduardo Cesar Solange Martins Couceiro de Lima: telenovela costuma reforçar esterótipos negativos com relação ao negroEduardo Cesar

A telenovela no Brasil contemporâneo reflete uma situação de racismo não explícito característico da ideologia racial praticada na nossa sociedade. Um racismo do qual as pessoas nem têm consciência e que é tão ambíguo como as próprias relações raciais, com momentos de avanço e de retrocesso.

A maneira como são tratadas as personagens negras no enredo da telenovela reflete essa ambigüidade e, ao mesmo tempo que reflete, reforça a imagem do negro que vem sendo construída e transmitida pelas grandes redes de televisão a milhões de telespectadores no País: uma pessoa humilde ou em condição social subalterna, pobre, com pouca instrução e educação.

Se mulher, sensual. Quando esses estereótipos não estão presentes, o negro acaba sendo visto no mínimo como diferente, num universo de brancos. Esta é uma das conclusões da pesquisa A Identidade da Personagem Negra na Telenovela Brasileira, da professora de antropologia cultural Solange Martins Couceiro de Lima, da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa faz parte de um projeto mais amplo – Ficção e realidade: a telenovela no Brasil; o Brasil na telenovela -, constituído de nove diferentes estudos, oito deles financiados pela FAPESP, que está sendo desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas de Telenovela (NPTN) da ECA.

O trabalho da antropóloga busca estudar a personagem negra com vistas a uma discussão mais ampla das relações entre ficção e realidade e de como a telenovela reflete a ideologia racial do brasileiro. “Os autores de telenovelas normalmente dizem que a personagem negra é colocada na trama na posição menos privilegiada porque essa é a posição que, em geral, o negro ocupa na sociedade”, assinala Solange Couceiro de Lima. Ela, entretanto, questiona isso. Afinal, telenovela não é realidade.

De qualquer maneira, com aquela justificativa, o ator negro está quase sempre limitado a interpretar papéis de negro “enquanto a nossa sociedade prega a mistura racial, a miscigenação, o ator é confinado a textos que demandem especificamente personagens negras. Raramente se vê um ator negro interpretar um médico ou advogado, em princípio personagens cuja cor não tem nenhuma influência na trama”, acentua Solange. Em fase de redação e dividida em dois períodos – 1975 a 1988 e 1988 a 1997 – a pesquisa está sendo elaborada a partir da análise das novelas produzidas pela Rede Globo e exibidas no horário das sete e oito horas da noite.

Também foram consultados jornais e revistas e foram feitas entrevistas com autores, atores e diretores de telenovela. Iniciada em 1995, a pesquisa será concluída em agosto deste ano e tem aporte financeiro de R$ 12.680,00 aplicados em material de infra-estrutura como computador, vídeo cassete, edição das fitas e viagens. Duas bolsistas participam do projeto.

Escravos e motoristas
Considerada um marco na história do gênero, a telenovela Pecado Capital, que foi ao ar em 1975, mostrou, pela primeira vez, um personagem negro, usando terno e gravata, no papel de um psiquiatra. Nas telenovelas anteriores, o negro aparecia sempre em posições subalternas, fazendo papéis de motorista ou de escravo, em novelas de época. Foi um avanço, seguido, entretanto, de muitos outros retrocessos.

Em 1988, por exemplo, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, uma série de iniciativas agitaram a questão racial no País. Naquele ano, recorda Solange, a telenovela Mandala, inicialmente planejada para homenagear o ator Grande Otelo, exibiu uma família de negros na trama. Ao ator, deu um papel de alcoólatra. Além disto, apresentou uma série de estereotipias, entre as quais, a da mulata sensual. “A telenovela, que presumidamente deveria homenagear o ator negro no ano do centenário da abolição, acabou mostrando exatamente só os estereótipos negativos”, destaca a antropóloga.

Em 1995, quando a pesquisa começou a ser feita de forma mais sistemática, começou a ser exibida a novela A Próxima Vítima, que incluiu no enredo uma família negra de classe média composta por personagens não estereotipadas. Outro avanço. Entretanto, segundo a pesquisadora, não havia naturalidade nas cenas em elas apareciam. A pesquisadora cita como exemplo o namoro entre uma moça negra membro dessa família e um rapaz branco.

Convidado para jantar na casa da família dela, o rapaz age de maneira burlesca à mesa (embora fosse um fotógrafo famoso de moda), apenas para tirar o negro da situação inferiorizada – sem acesso à boa educação e aos bons modos – em que ele normalmente aparece. “Ao fazer o contraste entre personagens brancos e negros, essa telenovela acabou mostrando situações inverossímeis, que demonstram a dificuldade que a equipe de profissionais tem (autor, diretor, etc.) de tratar com naturalidade as cenas com personagens negras”.

Nada surpreendente,segundo a antropóloga, porque,afinal, o autor de telenovelas também é influenciado pela formação e ideologia da sociedade e transpõe seus próprios valores ao tratar o tema. “As pessoas que fazem a mídia, que produzem a indústria cultural neste País, estão impregnadas dessa ideologia. Mas dizer que a mídia é racista, é simplificar demais. A sociedade tem o racismo qualificado e naturalizado, que é a maneira como avaliamos o negro, Numa sociedade que se quer branca, o negro é diferente; por isto ele tem que aparecer na mídia de maneira diferente.”

E a pesquisadora acrescenta: “É uma questão difícil de lidar, porque não chega a ser percebida facilmente. A imagem do negro é transmitida, as pessoas assistem , absorvem, reforçam estereótipos, mas elas não têm a consciência crítica de que é uma forma de preconceito”. Trata-se, de um racismo velado, que se acostuma com certas situações e até com a jocosidade, como, por exemplo, as piadas, que Solange classifica como “formas cínicas de um povo manifestar o preconceito”.

Formação da identidade
Ao mesmo tempo em que transmite uma imagem ao grande público, os meios de comunicação, assim como a escola, a família, os amigos, etc., também contribuem na formação da identidade social e racial dos negros. O público infantil, em especial, estabelece um processo forte de identificação/projeção com as personagens exibidas diariamente nas tevês. Nos programas infantis, os ídolos são loiros, de cabelos lisos.

E isto é percebido pelas crianças negrase brancas. Nas telenovelas, a maioria das personagens, adultas ou não também é branca.”A criança negra não tem na televisão um reflexo dela; o reflexo que ela tem é a negação, seja pela sua não existência, seja, quando existe, pela imagem negativa”, diz Solange, acrescentando que faltam estudos na área da Psicologia sobre essa questão, mas certamente ela deve pesar na auto-estima e no desenvolvimento emocional. Além disto, crianças brancas e negras, recebendo continuamente essas informações, acabam por não reconhecer a posição de igualdade das raças na sociedade.

Em relação à mulher negra, o tratamento não é diferente. A imagem transmitida é de sensualidade e sedução. “Toda vez que se mostra, como referência da mulher negra, o paradigma da Globeleza, e não o da professora universitária, da pesquisadora ou da profissional que trabalha com a questão da saúde, esse mito é reforçado”. Mas não são somente as mulheres que sofrem com a sua imagem convertida em estereótipos.

A pesquisadora detecta o surgimento de um novo padrão para o homem negro nas telenovelas: o sensual, bonito e atlético, que não significa uma democratização racial mas sim “uma referência maltratada pois simboliza o homem objeto”. Para Solange Couceiro de Lima, mesmo quando avança ou parece avançar na abordagem da questão racial, a mídia não pretende substituir os valores da sociedade. No máximo, ela vai, às vezes, transgredir alguns. “Mas essa transgressão é dentro do estabelecido, é dentro do sancionado”.

A análise detalhada do livro Memória da Telenovela Brasileira, do jornalista Ismael Fernandes, que contém as fichas técnicas de todas as telenovelas produzidas desde 1963 (ano da primeira telenovela), possibilitou à pesquisadora o levantamento daquelas que tinham a maior quantidade de atores negros. O estudo das personagens e dos enredos, ao longo de toda a pesquisa permitiu à professora concluir que a presença das personagens negras nas telenovelas continua, em geral, procurando reforçar o mito da democracia racial brasileira.

Algo que absolutamente não corresponde à realidade da sociedade nem dos meios de comunicação. “Como na democracia política, as grandes redes de televisão não estão contribuindo na construção de um modelo democrático para as relações étnicas entre brancos e negros. Não enfatizam nada que colabore para criar a auto-estima ou o orgulho de ser negro, sentimento fundamental para a construção de uma identidade”, conclui Solange.

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