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Opinião

O século da inovação

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo está comemorando cem anos de existência. Nascido em 1899, no âmbito da Escola Politécnica, inicia uma caminhada rumo ao segundo centenário, ajustando-se à expectativa de que o século XXI será o “século da inovação”. Forja, em seus 72 laboratórios, mais de 3 mil ensaios, testes e análises voltados fundamentalmente para mudanças de rumo na área privada e no setor público. O IPT está no caminho certo. A inovação é a palavra-chave que abre as portas do futuro. Estudo recente divulgado pela revista The Economist mostra-a como a melhor alternativa para a expansão dos negócios.

O inovador despreza o investimento especulativo e não faz isso apenas porque é um bom sujeito. Além do gesto construtivo, ele adota uma opção inteligente: as inovações geram muito mais lucro do que meras especulações comerciais. A taxa média de retorno de 17 inovações de sucesso nos Estados Unidos, durante uma década, foi de 56 %, enquanto a de todos os investimentos da economia norte-americana, nos últimos 30 anos, ficou em 16%. Os inovadores japoneses, de olho no consumo doméstico, diminuíram o tamanho do videocassete lançado em 1974. Eles encolheram tudo: o preço, a embalagem e a fita, que se reduziu a três quartos de polegada.

Este videocassete compacto entrou para a história do mercado. É, juntamente com o telefone celular, o produto mais comprado no mundo. Os Estados Unidos vivem um extraordinário momento de prosperidade e a inovação jogará um papel decisivo no prolongamento desta fase auspiciosa. Mais de 50% do crescimento norte-americano vem de indústrias novas, com pouco mais de dez anos de existência, que reformularam seus processos.Embora a inovação possa verificar-se em qualquer área de atividade, ela está mais acentuadamente vinculada à dimensão tecnológica. A tecnologia exige não apenas atenção das empresas, mas também das nossas universidades, dos institutos de pesquisas e principalmente dos governos.

As recentes notícias sobre o setor de cítricos, que não só se tornou competitivo aqui no Brasil e no mercado internacional, mas a conquista do setor produtivo norte-americano por empreendedores brasileiros na região da Flórida, mostra bem como a inovação determina o êxito empresarial e setorial. Hoje, boa parte da capacidade produtiva de cítricos no sul dos Estados Unidos é de propriedade de empresários brasileiros. Em nosso tempo, quando os meios tecnológicos tornam-se obsoletos de um dia para outro, nenhum projeto de governo pode deixar de acompanhá-los no mesmo ritmo veloz. Trata-se de uma variável política indispensável, pois envolve o destino e a soberania dos Estados.

A comemoração do primeiro centenário do IPT é uma ocasião propícia para reiterar observações neste sentido, que tenho feito de várias formas, em ocasiões diversas, pois este é o procedimento imperativo para quem dirige uma universidade. Abandonar os cientistas à própria sorte é um erro que pode até afetar a estabilidade democrática. Nos países em desenvolvimento, não havendouma prioridade estratégica a programas de Ciência e Tecnologia, o retrocesso é inevitável. Se o Brasil não agir hoje para construir o seu futuro, simplesmente não haverá futuro.

Não me refiro ao futuro apenas como o tempo que sucede ao presente, mascomo o tempo em que a ciência de hoje vai finalmente produzir seus frutos. A América Latina e o Brasil foram atingidos pelos vendavais que abalam quase todas as economias do mundo. O governo centra empenha-se numa inadiável tarefa de ajustar as contas públicas. Percebe-se, porém, que esta iniciativa, embora justa, comete dois desvios perigosos: corta recursos de programas sociais já limitados e diminui drasticamente verbas já escassas na área de Ciência e Tecnologia. Uma exceção e um paradigma de consciência estratégica é a FAPESP, em São Paulo, que a despeito de todas as crises vem zelando exemplarmente pelo progresso da ciência.

Quando questionam políticas restritivas e opostas àquela implementada pela FAPESP, as universidades e institutos de pesquisa não agem em causa própria, mas como braços do Estado. Atuam como núcleos onde Ciência e Tecnologia interagem diuturnamente para a construção da modernidade. Têm o dever de empreender esforços, inclusive na área política. Os políticos de qualidade serão os interlocutores certos para dialogar com a comunidade científica, em busca dos meios adequados de trabalho comum e dos recursos indispensáveis a um projeto nacional de Ciência e Tecnologia inserido e plenamente relacionado com a comunidade internacional.

É ilusão supor que as causas triunfam por si mesmas e que basta ser justas para alcançar os melhores resultados. A matéria daThe Economist registra que o professor Gregory Daines, da Universidade de Cambridge, aponta a inovação como a religião emergente no setor industrial deste final de século. Ela começa a ser uma espécie de teologia unificadora das políticas de centro, de esquerda e de direita. Cumpre-se a profecia do economista francês Jean-Baptiste Say, que, por volta de 1800, cunhou a palavraempreendedor , hoje tão em moda.

Ele dizia que o empreendedor “transfere os recursos econômicos de uma área de baixa produtividade para uma área onde ela é maior e oferece maior rentabilidade”. Cambridge, com mais de 700 anos de existência, tem hoje a maior concentração de alta tecnologia entre as universidades da Europa. O seu Reitor, sir Alec Broers, esteve recentemente na USP e observou que esta posição foi alcançada porque a inovação passou a ser sua prioridade número um. Toda universidade moderna deve agir assim para criar novas fontes de financiamento, manter o ritmo das pesquisas e garantir seus objetivos no milênio vindouro.

Reitor da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “A Universidade (Im)possível”

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