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Ambiente

O tempo esquentou

Livro apimenta briga entre os que crêem e os que duvidam da ação do homem no aquecimento global

NASA/USGSO degelo de Kilimanjaro entre 1993 e 2000NASA/USGS

State of fear, ficção do escritor norte-americano Michael Crichton recém-lançada nos Estados Unidos, narra uma história em que a luta entre o bem e o mal contrapõe ambientalistas radicais, no papel de terroristas dispostos a matar, e um time liderado por um misto de cientista e herói de filmes de ação chamado John Kenner, cujos argumentos põem em xeque as projeções apocalípticas sobre os efeitos das emissões de gases causadores do efeito estufa no aquecimento global. Autor do best-seller Parque dos dinossauros, Crichton avisa que escreveu uma obra de ficção, sem ligação com fatos ou pessoas de verdade. Mas faz uma ressalva: gráficos e notas de rodapé com referências a artigos científicos são verdadeiros. Ou seja: Dr. Kenner não existe, mas suas perturbadoras observações são compartilhadas por vários cientistas. Isso converteu o livro no mais recente combustível no debate sobre as mudanças climáticas, que voltou à ordem do dia com a entrada em vigor, no mês passado, do acordo diplomático que prevê a redução da emissão global de poluentes, o Protocolo de Kyoto.

Quem está convencido de que o planeta vem ficando mais quente em virtude da fumaça das indústrias e dos automóveis deplorou o livro, como era de esperar. “As conclusões são totalmente equivocadas, assim como há má-fé em comparar ecologistas com terroristas”, diz Martin Hoffert, professor de física da Universidade de Nova York, resumindo a reação da enorme maioria da comunidade científica. Já os céticos, aqueles pesquisadores que duvidam do vínculo entre aquecimento global e emissão de gases, não esconderam a satisfação.

“O livro é divertido e trata a ciência com inteligência e responsabilidade”, diz Richard Lindzen, professor de meteorologia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que lidera a caravana dos descrentes e, especula-se, serviu de inspiração do personagem principal (Dr. Kenner também é do MIT). A obra, que deve ser lançada em português pela Editora Rocco no segundo semestre, produziu calor e fumaça também na política. O senador norte-americano James Inhofe, presidente da comissão do Senado que trata de ambiente, referiu-se ao livro como “a verdadeira história” das mudanças climáticas. Os Estados Unidos, nação mais poluidora do planeta, recusam-se a ratificar o Protocolo de Kyoto e a reduzir suas emissões.

Paradoxos
A ficção de Crichton incorpora argumentos dos céticos. As análises mais contundentes são as séries históricas de oscilações de temperatura ao longo das últimas décadas em cidades norte-americanas – incapazes, diz o autor, de comprovar uma tendência de aquecimento no mundo inteiro. Estatísticas do United States Historical Climatology Network mostram que na cidade de Pasadena, na Califórnia, o aumento foi de mais de 3°F (Fahrenheit). Já no desértico Death Valley, também na Califórnia, um dos lugares mais quentes do mundo, o avanço foi inferior a 1°F. E várias outras localidades ficaram mais frias, como McGill, Estado de Nevada (1°F a menos), e Truman, em Minnesota (menos 2°F).

Da mesma forma, a cidade de Nova York experimentou um notável aumento de quase 5°F entre 1822 e 2000, mas em Albany, a apenas 140 quilômetros dali, a temperatura caiu meio grau no período. Conclusão de Crichton e dos céticos: Nova York talvez tenha ficado mais quente apenas porque se urbanizou, fenômeno conhecido como “ilha de calor”. Idêntico paradoxo desponta em gráficos de temperaturas em outros países. Dados atribuídos ao Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa apontam estabilidade nas médias de temperatura em Alice Springs, na Austrália, e Kamenskoe, na Sibéria; aquecimento em Tóquio, no Japão, e Lahore, no Paquistão; e esfriamento em Navacerrada, na Espanha, e Stuttgart, na Alemanha, entre outros.

Para os céticos, tais dados são uma evidência de que o aquecimento não é global e pode estar associado a fatores locais, sem vínculo com as emissões de carbono. Os cientistas que enxergam a mão do homem nas mudanças climáticas têm outra interpretação. “É natural que algumas regiões esfriem e outras esquentem, uma vez que o clima é mesmo sujeito a variações regionais e temporais – na Amazônia, por exemplo, nós observamos alterações regionais no padrão de precipitação”, afirma Paulo Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.

“Mas essa variabilidade natural não ofusca as evidências cada vez maiores de que, na média, o planeta está aquecendo.” Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), completa: “É possível, inclusive, que algumas regiões do planeta esfriem como conseqüência do aquecimento global. Num dos cenários possíveis, a chamada circulação termo-halina seria interrompida em alguns locais do oceano pelo aquecimento, o que poderia transformar parte da Europa num lugar frio como o Canadá. Mas todos os modelos matemáticos apontam que a temperatura, na média, vai aumentar.”

Para se contrapor à idéia de que a Antártica está degelando, Crichton apresenta dados da Nasa, obtidos da estação climatológica de Punta Arenas, e mostra outro paradoxo. A temperatura média ali, pouco superior a 6,5°C (Celsius) em 1888, vem caindo, atingindo 6°C em 2004. Também faz referência a diversos artigos científicos que mostram algumas regiões do continente antártico mais quentes e outras mais frias.

Outro prato de resistência do autor é o degelo da neve do Kilimanjaro, na Tanzânia. Crichton cita artigos sugerindo que o derretimento é causado pela devastação na base das montanhas, não pelo aquecimento global, tanto que começou a ser observado no início do século 19. A crítica que se faz a Crichton, nesse caso, é que ele se esqueceu de citar registros que apontam o derretimento nos Alpes, nos Andes ou no Ártico, onde a população de esquimós do norte do Canadá reporta um degelo sem precedentes na história. Uma seleção da literatura científica, argumentam cientistas, pode produzir resultados que parecem corretos, mas contam apenas uma parte da história.

Vínculo potencial
Ninguém duvida de que a ação do homem é responsável por um aumento da concentração de carbono na atmosfera de 280 partes por milhão de carbono antes da Revolução Industrial para 370 partes por milhão atualmente – assim como é consensual a conclusão de que seria bomreduzir a emissão de gases que aumentam o efeito estufa. Também háuma coleção de evidências de que o clima no planeta vive uma fase de transformações. Publicações científicas reportam um aumento médio global na temperatura da ordem de 0,7°C. O ano de 2004 foi o quarto mais quente desde que medidas de temperatura começaram a ser realizadas no mundo no século 19. E os três anos mais quentes da história foram registrados recentemente: 1998, 2002 e 2003.

Tudo isso é verdade, mas os grupos antagônicos interpretam esses dados de forma bem diferente. A maioria dos cientistas enxerga um vínculo potencial entre a poluição industrial e o aquecimento. “Nos últimos 30 anos, há uma tendência forte de aquecimento global e há cada vez mais dados sugerindo que isso tem a ver com as emissões de gases”, afirma James Hansen, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa. “Em ciência, às vezes é difícil termos 100% de certeza, mas se chegarmos a 95% podemos agir antes que seja tarde”, diz Paulo Artaxo.

Já o grupo dos céticos lembra que não há uma prova definitiva dessa associação. Argumentam, por exemplo, que o aquecimento recente pode ter as mesmas causas naturais que, em eras passadas, produziram ciclos de aquecimento e glaciações que varreram o planeta sem nenhuma ação humana. “Nunca se provou fora de laboratório que o aquecimento global ocorre como resultado direto do aumento do dióxido de carbono”, diz Richard Lindzen, do MIT. “Cientistas têm amplas evidências fósseis mostrando que os níveis de dióxido de carbono na atmosfera cresceram quando a Terra se aqueceu. Mas ninguém até agora provou que o aumento do dióxido de carbono foi responsável por crescimentos da temperatura no passado”, afirma. Os céticos ainda duvidam da acuidade das estatísticas. Boa parte das medidas de temperatura obtidas antes da década de 1970, dizem eles, pode estar equivocada, pois foi registrada em áreas urbanas por meio de termômetros hoje considerados pouco confiáveis.

A pergunta que um leigo faz nessa hora é: como visões tão divergentes podem sobreviver no ambiente científico? Dúvidas e questionamentos são naturais no mundo acadêmico e é por meio de discussões que hipóteses são postas à prova e o conhecimento avança. “Como em muitas outras questões científicas, existem evidências conflitantes e os detratores de uma ou outra posição costumam usar as evidências que mais convêm aos seus argumentos”, diz o epidemiologista brasileiro Ulisses Confalonieri, responsável pela comissão de saúde do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).

Órgão assessor das Nações Unidas para assuntos do clima com 1.500 membros, o IPCC é composto, em sua maioria, por pesquisadores convencidos da ação do homem no aquecimento global – refletindo a opinião média da comunidade científica internacional. “O IPCC não é tão taxativo como alguns críticos colocam, apenas aponta claramente para as incertezas”, diz Pedro Leite da Silva Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). “Mas a cada quatro anos, quando um novo levantamento do IPCC é lançado, essas incertezas diminuem.”

No caso do debate do efeito estufa, a dúvida se explica por uma limitação da pesquisa em geofísica. “Uma forma definitiva de tirar a limpo seria pegar dois planetas com atmosferas idênticas, aumentar a quantidade de carbono num deles mas não no outro – e comparar os resultados”, diz o astrogeofísico Luiz Gylvan Meira Filho, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP. “Como é impossível aplicar o método científico dessa forma, a solução é usar modelos matemáticos sofisticados para projetar as mudanças, que apenas sugerem tendências”, afirmaMeira. Os modelos climáticos, não por acaso, são outro elo frágilexplorado por Michael Crichton.

Ele cita um trabalho científico publicado no ano 2000 pelo pesquisador norte-americano Christopher Landsea, especialista em furacões do National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), segundo o qual os modelos foram incapazes de prever o fenômeno El Niño observado entre os anos de 1997 e 1998. “Ninguém sabe quanto a temperatura vai crescer nos próximos cem anos. Os modelos computacionais têm resultados com variações de 400%, num sinal de que qualquer previsão é possível e ninguém sabe o que está falando”, diz Crichton. “É natural que os modelos climáticos tenham resultados variados”, rebate Carlos Nobre, do Inpe.

“É o melhor instrumento de que dispomos. Eles são usados em meteorologia e ninguém os desqualifica porque não se consegue dizer exatamente onde a chuva vai cair. Ao contrário, estamos aprendendo a interpretar essas variações”, afirma. Pedro Leite da Silva Dias, do IAG, também defende os modelos: “Como conviver com a incerteza? Por exemplo, usando o que se chama hoje de previsão por conjunto, na qual um grande número de simulações, com diferentes modelos, é usado para gerar os possíveis cenários. A média desse conjunto fica muito mais próxima da realidade que qualquer modelo isolado”.

Na vida real, os embates entre os dois grupos são freqüentes e, às vezes, produzem golpes abaixo da cintura. Dois estatísticos australianos recentemente acusaram de exagero as projeções de crescimento econômico nos países pobres que sustentam as previsões de aquecimento global. Foram acusados de pertencer aos “céticos”, o que, no vocabulário dos contendores, contempla a insinuação de receber dinheiro de indústrias poluidoras para melar o debate. Em fevereiro, os céticos promoveram um encontro na Inglaterra na mesma semana em que os representantes do outro grupo se reuniam com o premiê britânico, Tony Blair.

O próprio IPCC foi cenário de uma briga pública recente. Kevin Trenberth, chefe do comitê sobre furacões, sugeriu uma ligação entre as mudanças climáticas e a onda de poderosos furacões que varreu o planeta no ano passado. Christopher Landsea, o mesmo citado no livro de Crichton pela crítica aos modelos do El Niño, renunciou a seu cargo no painel, em protesto contra o que chamou de “manipulação política”. “Trenberth não tem elementos para afirmar isso. Por causa de suas declarações, a neutralidade do IPCC se perdeu”, disse Landsea. Trenberth acusou Landsea de perfilar-se entre os céticos. Mas se retratou entre seus pares. Explicou que as mudanças do clima poderiam ter afetado a intensidade dos furacões, devido às temperaturas oceânicas mais elevadas, mas não o número de eventos. Em State of fear, Crichton mostra estatísticas sugerindo que o pico de furacões nos Estados Unidos nas últimas décadas ocorreu nos anos 1940.

“Mau investimento”
O debate pega fogo quando deixa a arena científica e deriva para a discussão política das conseqüências econômicas da redução da emissão de gases. O Protocolo de Kyoto, grande conquista do movimento ambientalista e científico que entrou em vigor no mês passado, é um dos focos de discórdia. Michael Crichton vocaliza um dos argumentos dos céticos. Cita como referência um artigo da revista Nature de outubro de 2003, segundo o qual o efeito do protocolo será uma redução na temperatura de 0,02°C até 2050. As estimativas do IPCC são maiores, mas nenhuma excede 0,15°C. Os dados são reais, mas não enfraquecem o ânimo dos defensores do acordo. “Kyoto pode ter efeitos imperceptíveis no clima, mas se trata do primeiro instrumento diplomático importante para reduzir as emissões de gases.

É um primeiro passo, que será seguido de outras iniciativas mais abrangentes no futuro próximo”, diz Paulo Artaxo, da USP. Os modelos sugerem que, para obter um efeito expressivo no clima, seria necessário reduzir em até 60% as emissões de gases, preço que nenhum país deseja pagar atualmente. “O essencial no Protocolo de Kyoto é que ele está levando à criação de um novo paradigma tecnológico no mundo industrializado, que reduzirá as emissões globais de gases”, diz Carlos Nobre, do Inpe.

O livro de Crichton não evita a pergunta: vale a pena cercear o crescimento industrial para conseguir um efeito tão modesto no clima? Ou sairia mais barato adaptar-se às mudanças? Outro provocador do time dos céticos, o estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg, autor do polêmico livro O ambientalista cético, afirma, com todas as letras, que não vale a pena. Recentemente Lomborg incendiou o debate ao reunir em Copenhague um grupo de proeminentes economistas, entre eles três ganhadores do Nobel, para discutir soluções para os principais problemas do planeta.

Um dos resultados do encontro foi um documento que apontava como prioritárias as iniciativas para enfrentar a Aids e a malária e promover o saneamento em países pobres, em detrimento da guerra contra o aquecimento global – descrita como “um mau investimento”. “O combate ao efeito estufa é uma iniciativa de alto custo e baixos benefícios”, diz Lomborg. O debate poderia prosseguir com argumentos respeitáveis de parte a parte. Cientistas diriam que o investimento compensa, pois preveniria catástrofes como a extinção de espécies e evitaria que as gerações futuras pagassem o preço do descuido da saúde do nosso planeta nos últimos 150 anos. Os céticos pediriam provas. Há um ponto em que o livro de Crichton pode ser chamado de parcial. Ele apresenta os céticos como vozes sufocadas num mundo em que os ambientalistas dominam os políticos e atordoam a visão crítica dos cientistas. A vitalidade do debate mostra que esse panorama está distante da realidade.

“Mais clareza, menos incertezas”
Claudia Izique

Entre os dias 1º e 3 de fevereiro, 200 cientistas de 30 países estiveram reunidos em Exeter, no Reino Unido, a convite do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que vai assumir a presidência do G-8 e elegeu o aquecimento global como uma das suas preocupações centrais. “A reunião teve caráter eminentemente científico, com o objetivo de gerar informações para o primeiro-ministro”, explica Luiz Gylvan Meira Filho, professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e membro do comitê científico da conferência em Exeter.

Os cientistas convidados tinham a tarefa de responder a três perguntas relacionadas ao impacto dos diferentes níveis de mudança climática nas diversas regiões do planeta, a sua relação com a emissão de gases de efeito estufa, os esforços necessários para controlar os níveis de emissão e as opções tecnológicas disponíveis para alcançar a estabilização.

Durante três dias fizeram um balanço do estado do conhecimento sobre mudança global do clima revisando os quatro relatórios – um deles ainda em fase de elaboração – do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU) e analisaram uma série de artigos de especialistas reunidos pelo comitê científico.

De acordo com o relatório publicado ao final do encontro, “há mais clareza e menos incertezas” sobre o impacto provocado pelas mudanças no clima. Os cientistas concluíram que a elevação da temperatura atinge diferentemente as diversas regiões do planeta. O aumento de 1°C pode, por exemplo, ser benéfico para algumas regiões agrícolas, em áreas de média ou alta latitude. Mas, em alguns casos, os danos são mais sérios do que se considerava. Já provocaram, por exemplo, mudança na acidez dos oceanos, recentemente identificadas, o que pode reduzir a capacidade de remoção do dióxido de carbono da atmosfera e afetar a cadeia alimentar marinha.

O relatório, no entanto, faz uma ressalva: a contribuição dos homens para a mudança do clima deve ser mais bem analisada. As alterações já observadas são consistentes com resultados dos modelos de clima que incluem a ação do homem. Mas, detectadas as mudanças climáticas, resta avaliar o tamanho da responsabilidade humana. A resposta a essa questão, no entanto, envolve considerações “quase filosóficas”, como diz Meira.

O quadro, no entanto, pode se agravar. A literatura analisada sugere que uma elevação na temperatura do planeta entre 1°C e 3°C – aumento, aliás, projetado para este século – pode provocar sérios danos globais. “Concordamos que é preciso estabelecer limites para as emissões globais”, diz Carlos Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que também participou do encontro em Exeter.

Os especialistas reunidos em Exeter decidiram então encampar a recomendação da União Européia – já defendida por muitos – de se fixar um limite de segurança em 2°C para o aquecimento global. Essa temperatura corresponderia a manter os níveis de emissão de dióxido de carbono abaixo de 400 partes por milhão até 2050. “Já estamos num patamar de 380 partes por milhão”, lembra Nobre. Para reverter esse quadro, seriam necessárias ações imediatas de controle de emissão. Um atraso na tomada de decisões e na adoção de medidas mitigadoras implicará um esforço três a sete vezes maior para controlar os efeitos do aquecimento global.

As demandas mundiais de energia apontam que as emissões de dióxido de carbono aumentarão 63% entre 2002 e 2050. Isso significaria que, se nenhuma medida for tomada, a temperatura do planeta aumentará entre 0,5°C e 2°C. A boa notícia é que os cientistas de Exeter concluíram que o mundo não precisa esperar uma “tecnologia salvadora”, conta Meira. Existe um conjunto de tecnologias disponíveis que podem promover a redução de emissão de gases de efeito estufa e manter a temperatura do planeta dentro dos limites de segurança. Entre as novas tecnologias, Meira cita a biomassa ou o etanol para substituir os combustíveis fósseis na geração de energia. “Não há uma tecnologia única”, sublinha Meira.

A troca de tecnologias para produção de energia e redução de emissões também não deverá produzir o impacto econômico pelo qual temem as nações desenvolvidas, desde que os países optem por sistemas de compensação nacional ou internacional, como os mecanismos previstos no Protocolo de Kyoto. O acordo, que entrou em vigor em 16 de fevereiro último, prevê que países desenvolvidos compensem as emissões nacionais de gases de efeito estufa patrocinando a implantação de mecanismos de desenvolvimento limpo em nações em desenvolvimento.

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